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MICKEY ONE (1965), de Arthur Penn


UAU! Confesso que minhas espectativas estavam bem altas, afinal, temos direção de Athur Penn e Warren Beatty encabeçando o elenco (e isso é, basicamente, tudo que eu sabia sobre o filme), mas não esperava algo tão sensacional! O que me mais me surpreendeu é que MICKEY ONE rompe com a linha do tradicional americano e realiza um legítimo exemplar da Nouvelle Vague em toda a sua quintessência. É cinema marginal com muita liberdade criativa, delírios visuais, frescor narrativo e trilha sonora jazzística frenética, realizado totalmente nos Estados Unidos na metade dos anos 60!

Eu já havia apontado no meu texto sobre BONNIE & CLYDE, do mesmo diretor, que logo no início, quando Faye Dunaway se apresenta em cena, Penn presta uma pequena ode à Nouvelle Vague, obviamente inspirado pelo movimento francês. Mal sabia eu, ao me deparar com MICKEY ONE, que o diretor já havia realizado esta pequena obra prima totalmente construída às bases do cinema desenvolvido por Godard, Truffaut, Chabrol e sua turma.

Ao que parece, a produção do filme não está ligada a qualquer grande estúdio e foi realizado com o dinheiro do sucesso anterior do cineasta, O MILAGRE DE ANNIE SULLIVAN, segundo trabalho de Arthur Penn na direção. A trama gira em torno do personagem título, interpretado magnificamente pelo Warren Beatty – que se encaixou com perfeição ao estilo solto e inovador da linguagem nada convencional para o padrão americano da época.

A trama envolve gangsters e o submundo do crime, mas tudo isso fica em segundo plano, deixando apenas transparecer a figura do personagem de Mickey One, um comediante de cabaré que foge de sua cidade com medo de ser apagado após cometer alguns deslizes na organização em que trabalhava. Instalado nos subúrbios de Chicago, Mickey forma ao seu redor uma série de situações emblemáticas e personagens bizarros que mais parecem saídos de um sonho ou de uma viagem alucinatória para azucrinar a paranóia do protagonista.

Mas nada disso soa experimental nas mãos de Arthur Penn, que parece ter sob controle todos os elementos, por mais surrealísticos que sejam. O cinema deste diretor nunca retrocedeu, aparentemente. Além deste aqui, eu assisti a BONNIE & CLYDE e CAÇADA HUMANA, que são dois filmaços e de grande importância para as mudanças cinematográficas que ocorreram no cinema americano no fim dos anos 60. Mas creio que o diretor nunca tenha conseguido chegar novamente ao resultado tão formidável de MICKEY ONE, a de um cinema tão liberto, algo que poucos diretores americanos tiveram a proeza na época.

Comentários

  1. Viu sem legenda mesmo ou encontrou alguma por ai?

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  2. Não dava mais pra aguentar... vi sem legenda mesmo.

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  3. Parece muito bom mesmo. Uma coisa que admiro muito no Penn é o senso de humor, mesmo em momentos sérios de cada filme. Mickey One não parece ter nada disso, mas fica a impressão de ser bem melancólico.

    Outro filmaço quase esquecido dele é Little Big Man, um dos mais divertidos westerns de todos os tempos. Duelo de Gigantes também tenho aqui (com Nicholson e Brando), mas ainda não vi. Um grande diretor, sem dúvidas.

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  4. Mickey One também tem bastante humor, mas é bem melancólico mesmo.

    Tenho aqui pra assistir The Left Handed Gun, Pequeno Grande Homem e Duelo de Gigantes.

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  5. Pequeno Grande Homem é outra obra-prima.

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  6. Johnny Ratazana18/06/2009 21:58

    Foi pros favoritos, vai ser um dos próximos.

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  7. Eu fico matutando aqui comigo e sempre chego na mesma conclusão. Os maiores diretores americanos dos anos 60 e 70 foram Arthur Penn e Robert Altman.

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  8. Vou parar de ler o blog do Perrone, pq a cada atualização é um filme novo q eu anoto pra ver. Dá até raiva! hahaha.

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