3.6.09

COBRA (1986), de George P. Cosmatos

Escrever sobre um filme como COBRA pode ser uma perda de tempo – todo mundo já viu e já está careca de saber do que o filme se trata – mas como eu não estou tendo muito tempo pra ver a quantidade de filmes que eu gostaria (o último que eu vi foi justamente este aqui e já faz uns quatro ou cinco dias), vou tentar alguma coisa pra não deixar o blog paradão.

Além do mais, estamos falando de COBRA, sim, aquele filme que marcou a sua infância e a de muita gente que neste momento deve estar relembrando os tempos em que Stallone, Arnoldão, Van Damme e Steven Seagal (!) eram vistos semanalmente na TV aberta. E olha que eu nem preciso ir tão longe (também não sou tão velho, peguei o final dos anos 80 adiante e nesta época, estes caras aí foram os responsáveis pela minha formação em cinema de ação). Mas este tom nostálgico que envolve filmes e televisão eu deixo para o Leandro Caraça, que realmente consegue transmitir essa sensação com muito mais emoção em seu blog.

Para quem não sabe, Sylvester Stallone, inicialmente, seria o homem que daria vida ao policial Axel Foley em UM TIRA DA PESADA, de Martin Brest, tanto como protagonista quanto palpiteiro de roteiro, mas depois que o script acabou virando um banho de sangue, a Universal resolveu botar Stallone para enscanteio, contratando outros roteiristas e escalando Eddie Murphy que se consagrou justamente com este papel. A falecida, infelizmente, Cannon se interessou pelo material do “Garanhão Italiano” e começou a produzir, graças ao bom Deus, essa maravilha que hoje conhecemos.

Naquela época, Stallone não precisaria sair mendigando trabalho ou implorando para que algum estúdio comprasse seus roteiros. Ele já havia se firmado como um modelo de herói de ação dos anos oitenta desde RAMBO e o diretor do segundo filme da franquia, George P. Cosmatos, reuniu-se novamente com o ator pra realizar esta espécie de Rambo urbano, numa das minhas definições mais cretinas...

COBRA é um filme brutal e tem aquele tom fascista que compõe sua óbvia inspiração no filme de Don Siegel, DIRTY HARRY, com Clint Eastwood. A abertura é um delírio quando ouvimos a voz de Stallone relatando o número de assassinatos, estupros e etc por dia nos Estados Unidos, enquanto vira o trabuco em direção a câmera. Logo depois mostra um bando de motoqueiros que se reúne para ficar batucando com machados e outros objetos enquanto os créditos iniciais são apresentados.

Engraçado que no meio dos malucos batucando, eu reparei um tiozinho careca, usando um terno, segurando dois machados. Fiquei imaginando o porquê daquilo e que tipo de ser humano seria aquele de entrar num lugar desses vestido assim pra ficar batucando machados. Vai entender...

A primeira cena de COBRA mostra um psicopata adentrando um supermercado e fazendo todos os clientes de refém. A policia cerca o local, mas logo percebem que é preciso chamar o homem! Cobra chega em seu carro retrô, com óculos espelhados, luvas pretas, barba por fazer e mastigando um fósforo. Entra no supermercado com um ar totalmente cool, para na prateleira da cerveja e dá um gole. Em determinado momento, o bandido ameaça: “Vou explodir todo o lugar”, “Vá em frente, eu não faço compras aqui”, responde Cobra. Logo depois, outra pérola: “Você é a doença, eu sou a cura”. É uma ótima maneira de demonstrar o nível de pretensão esperado por aqui.

Aquele grupo de motoqueiros que eu citei ali em cima, do qual um dos membros é o tiozinho de blazer, na verdade, trata-se de uma seita que comete assassinatos que até agora não consegui entender os motivos. O filme não explica, mas apenas mulheres sozinhas, à noite, no escuro são assassinadas em prol da seita. Mas que seita é essa que mata mulheres indefesas? E pra que? Só se for uma seita gay com o objetivo de exterminar o sexo feminino. E quem diabos é aquele velhinho de terno batendo dois machados numa seita de motoqueiros??? Enfim, o roteiro é do Stallone, vamos relevar. O fato é que a história deve prosseguir e para isso, entra em cena a modelo fotográfica (a dinamarquesa Brigitte Nielsen) que testemunha um dos crimes e passa a ser alvo dos malfeitores. Cobra fica incumbido de proteger a moça dos malucos.

Mas isso também é só um pretexto pra cenas de ação, frases de efeito e muito suspense. Aliás, este é um tópico importante, porque para um filme de ação, as cenas em que “assassino principal” (Brian Thompson) tenta eliminar suas vítimas são de uma atmosfera intensa de terror e alguns elementos como luvas e objeto pontiagudos ajudam a reforçar o clima de giallo em determinados momentos. Só faltou mesmo sangue em abundância partindo dessas situações, detalhe que o filme resolve não mostrar.

Mas ainda temos muitas sequencias de ação como a perseguição de carro em alta velocidade, com Stallone em seu carro retrô, dando cavalo de pau no meio do transito pra poder atirar pra trás enquanto o carro realiza o giro completo e volta para a posição inicial sem diminuir a velocidade!

Assim como vários filme que acabam, de alguma forma, analisando a aplicação da lei de uma forma subvertida, COBRA, com o roteiro de Stallone, também faz a sua contribuição. Mas é um ponto que não se deve levar muito a sério por aqui, ou até deve. O ator/roteirista parece mais preocupado em criar uma figura que vomita frases como “nós os prendemos, os juízes os soltam”, sem que haja uma profundidade temática sobre o assunto, mas a falta de pretensão de Stallone às vezes é muito mais significativa do que milhares de exemplares com essa ambição.

Um dos momentos mais interessantes é no final, no confronto entre Cobra e o psicopata de Brian Thompson, que provoca o homem da lei dizendo que ele não pode matá-lo, mas quando for preso, será liberado, ou coisas do tipo. Claro que Stallone, em toda sua ética fascista, vai soltar uma frase de efeito como “Aqui é onde a lei termina... e inicia a minha”! Genial.

Sabemos que COBRA não é um filme perfeito e está longe de ser um dos melhores filmes ação ou policial dos anos 80 em termos de qualidade técnica. Mas com toda certeza você deve ter um lugarzinho especial dentro de você pra guardar a cobra. Eu não, eu guardo na prateleira, juntos com meus outros DVD’s!

20 comentários:

  1. cara, o teu texto ficou muito divertido, talvez até mais do que o filme!

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  2. Hahahaha, tu ficou encucado mesmo com o tiozinho hein! Massa pra caralho o texto, Ronald. O meu dvd do Cobra está entre o 'Rambo' e 'Fuga de LA' vizinhando com 'Duro de Matar' e Comando para Matar', ou seja, está no lugar dele: com os filmes de ação fodas.

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  3. Realmente seu texto ficou hilário, rs... Cara, que vontade de rever esse filme, realmente marcou minha infância e de muitos outros... Aaahn, onde achá-lo?

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  4. O pior filme da carreira de Stallone. Que foi ótima.

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  5. De forma alguma! Ele teve piores... pelo menos concordamos com a ótima carreira.

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  6. Me lembro como se fosse hoje... Quando meu pai me levou pro extinto cine Baltimore em Porto Alegre para ver essa belezinha (!?!?), assim com foi ele que me levou para ver Rambo 2 (a censura era 14 anos, mas nós conseguiamos driblar isso, pois eu tinha 10!), o segundo Indiana Jones, etc. Realmente devo ao meu coroa e esses filmes minha formação moral. hehehehe.

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  7. Lembro muito bem como esse filme foi cortado nos cinemas por causa da violência. Todo dia aparecia no jornal alguma nota dizendo que cortaram mais alguns segundos de STALLONE COBRA. Chegou uma época em que a Folha de São Paulo contabilizou que cortaram cerca de 10 metros do rolo do filme! Mas eu infelizmente não tive o prazer de ver essa belezinha no cinema pois eu só tinha 10 anos na época. Mas o disco com a trilha sonora eu escutei até dizer chega!!! Até hoje eu cantarolo as músicas "Voice of America's Son" de John Cafferty e "Feel The Heat" de Jean Beauvoir, cujos videoclipes passavam sem parar na TV!

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  8. sensacional esse filme, heresia minha só ter visto esse filme agora.

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  9. Bem, tudo que eu tinha q dizer sobre o filme, sobre as frases clássicas e a versão dublada eu já disse no blog do Kevin e no meu. então nem vou me repetir. Mas de fato esse é o típico filme simbólico de uma época que mesmo quem vê pela primeira vez atualmente, sente o mesmo quem cresceu vendo como nós: Uma nostalgia foda.


    "Sabemos que COBRA não é um filme perfeito e está longe de ser um dos melhores filmes ação ou policial dos anos 80 em termos de qualidade técnica"

    Se comparado à Viver e Morrer em L.A e Cruising e coisas do tipo, com certeza não chega nem nas solas do sapato. Mas pra mim é tão bom, divertido e tecnicamente impecável (Adoro aquele estilo new wave oitentista!) quanto os grandes clássicos de ação de pancadaria como Commando, Inferno Vermelho, Grande Dragão Branco, Nico Acimada Lei, Difícil de Matar, Out for Justice, Força em Alerta, O Alvo, Duplo Impacto entre outros. E o roteiro é uma das palhaçadas mais saboreosamente geniais da história! É um tipo de humor que, me desculpem Cranks e cia, não se fazem mais hoje em dia com a mesma força justamente pq hoje todo mundo tenta ser muito espertinho e engraçadinho, esquecendo que a força no humor está muito mais em levar tudo aquilo mais a sério. E Cosmatos é um diretor subestimado e estiloso q chegou a ser considerado uma das grandes promessas nos anos 70. Talvez por isso q o Sly tenha se identificado com ele.


    PS: E nada haver, mas falando em Cruising, já repararam como o Pacino tá parecido com Stallone na capa desse filme, principalmente na época? Será q foi proposital? huahuahua.

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  10. Ah, a cena do "Angel of the City" do Robert Tepper é tb um dos grandes momentos do filme. Deve influenciar até hoje videoclipeiros do mundo todo.

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  11. E achei bacana vc lembrar que o filme, seria mais ou menos a mesma coisa, se tivessem mantido Sly em Berverly Hills Cop. E ainda bem q isso não aconteceu, se não perderiamos ou Axel Foley ou Cobretti.

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  12. Ronald, tens razão. O pornô é o piorzão. hehe

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  13. Oi, adoro o Cobra. Pra mim, tá no mesmo nível que o Rocky e o Rambo.
    Só não compro o dvd por ser tela cheia. Não foi lançado em wide.
    Criei um blog, gostaria que você desse uma olhada, pode meter o pau: www.cinesessaodegala.blogspot.com

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  14. Bruno C. Martino07/06/09 17:14

    Aquele filme pornô dele nem é com ele, são cenas coladas então nem conta.

    Cobra, um grande filme que marcou uma geração. Não se faz coisas assim hoje em dia.

    E como a Brigitte Nielsen estava linda/maravilhosa/gostosa nesse filme hein? Foi o auge dela!

    Esqueceu da melhor frase: "Você é um cocô!" :D

    Eu trabalhava numa biblioteca de uma escola e um dia uma aluna do 3° ano chegou pra mim e disse que tinha aprendido a comer pizza fria vendo esse filme! hahahaha

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  15. Osvaldo Neto07/06/09 23:21

    Acho que você deve ter notado que a 'inspiração' de DIRTY HARRY é tamanha que o parceiro do Cobretti é Reni Santoni, que em COBRA praticamente faz o mesmíssimo papel e o psicopata Andy Robinson aqui faz um tira almofadinha.

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  16. Só não notei porque faz muito tempo que eu vi Dirty Harry! A não ser o tira almofadinha, que eu lembro ter interpretado o vilão...

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  17. "Acho que você deve ter notado que a 'inspiração' de DIRTY HARRY é tamanha que o parceiro do Cobretti é Reni Santoni, que em COBRA praticamente faz o mesmíssimo papel e o psicopata Andy Robinson aqui faz um tira almofadinha."

    Comentei isso quando o Kevin postou no blog dele.

    E The Party at Kitty and Stud's é com Stallone sim. A diferença é que tem a versão Hardcore e a light, mas dá para notar que são cenas do mesmo filme. Não é só pq não aparece a cara do Sly enquanto a mulher faz um bola-gato nele q não é ele. Stallone não era ninguém na época, então não tem essa de "olhem só! Ela tá chupando o Stallone!" Ele era apenas mais um ator em um filme pornô. E o normal disso é numa cena de sexo oral não se preocuparem em mostrarem a cara do sujeiro mesmo.

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  18. Na verdade nunca aparece a cara do Sly enquanto ele está fazendo qualquer coisa. Oral, vaginal... e se perceber bem as tomadas hardcore dessa cena têm uma granulação diferente, pelo menos numa cópia que vi a alemã. E a tal diretora já foi acusada disso. Na verdade a cena é muito estranha, nem naquela época se filmava tão mal e não mostrando as caras das pessoas seja num take ou outro. Enfim, até como pornô o filme é ruim. :P

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  19. Só que as cenas são com a mesma atriz, nas mesmas locações e na mesma época, isso é visível. Impossível ter passado mais de 4 anos, e mesmo se tivesse passado o Sly ainda nem tinha feito Rocky nessa época.

    Minha pergunta é: Pq o diretor acrescentaria cenas de sexo hardcore com outro ator depois do filme feito? Não era mais fácil ter mandado o Sly pastar e contratatado o ator que aceitou fazer as cenas no lugar, caso Sly tivesse recusado fazer tais cenas? Sei lá, só acho estranho. Talvez o excesso de body doubles com estrelas em cenas pesadas de sexo nos decepcionando ao longo dos anos no cinema tenha nos deixando meio paranoícos, mas é possível que aquele seja o bilau do Stallone mesmo.

    Agora, de fato , o filme é medonho. Isso é indiscutível. E é o tipo de coisa que só os fãs do cara tem curiosidade de ver. E engraçado que já nesse filme o Sly mostra todos os seus trejeitos que acompanhariam ele pela carreira. haha.

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  20. Augusto Cezar Lima Queiroz19/04/13 18:21

    Faltou comentar sobre a censura que o filme sofreu por parte dos órgãos oficiais quando foi lançado nos cinemas do Brasil.

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