Pular para o conteúdo principal

WATCHMEN (2009), de Zack Snyder

Sinceramente não tenho do que me queixar de WATCHMEN. Acho que os críticos sérios reclamam demais e os fãs estão fazendo chiliques por pura oposição preconceituosa, já que consideram a obra infilmável. Problemas com o diretor eu até entendo, mas ainda bem que eu não tenho. Minha expectativa era discreta, mas bastante curiosa – e da fonte da qual beberam, é de se esperar no mínimo um bom filme. A grande sacada de Zack Snyder (e seus roteiristas) foi tentar ao máximo manter a lealdade do universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons respeitando a estória central (com uma pequena modificação no desfecho, mas nada muito gritante), as subtramas, estrutura narrativa, personagens, localização temporal, etc. Evidentemente muita coisa se perde, algumas passagens ganham mais espaço que outras, a ação é intensificada, mas o resultado não deixa de ser surpreendente.

Zack Snyder é desses que na maior parte do tempo pensa que está dirigindo um vídeo clipe e ainda possui a velha mania de exagerar no slow motion durante as cenas de ação. Felizmente, WATCHMEN não é um filme de ação e a força narrativa concentra-se na dramaticidade das situações vividas pelos personagens, heróis decadentes e humanos em uma realidade bem estranha. E Snyder, na medida do possível, até que manda bem como narrador. Pelo menos conseguiu me segurar tranquilamente em suas 2h e 40m de duração. Isso tudo levando em conta o visual fascinante muito semelhante ao das páginas dos quadrinhos, mesmo sendo a maioria criada por CGI (e não sou muito radical, sempre elogiei quando bem utilizado, como é o caso aqui); há também os personagens complexos e interessantes interpretados por um elenco que dá conta do recado, principalmente Jackie Earle Haley no papel de Rorschach, de longe o mais batuta, obscuro e revoltado do grupo, além de visualmente/psicologicamente idêntico ao original. A trilha sonora vai gerar uma discussão à parte. É uma das mais inusitadas para um filme do gênero e conta com uma compilação que vai de Simon & Garfunkel a Leonard Cohen. Eu achei sensacional a escolha das canções e maneira como foram inseridas na trama.

Embora tenha o probleminha da câmera lenta (que é um pouco mais contida em relação a 300), as cenas de lutas de uma forma geral são boas e sem os exageros afetados, filmadas de maneira simples, claras e violentas pra dedéu! Com direito a ossos quebrados, fraturas expostas e bastante sangue. Aliás, o filme possui uma essência extremamente violenta com momentos de gore que deixaria Lucio Fulci orgulhoso. WATCHMEN conta também com uma cena de sexo bem picante para o padrão de filmes de super-heróis, o que não é muito habitual. Admiro essa determinação do Snyder em abraçar uma obra e brigar com seja lá quem for para que o filme tenha a sua visão mesmo contendo elementos pouco rentáveis para os executivos de Hollywood – como nudez, sexo, violência gráfica, a longa duração, detalhes em relação à fidelidade da obra. A preocupação parece situar sempre na qualidade de seu filme (mesmo que ainda tenha muito que amadurecer). É um diretor no mínimo corajoso, na minha opinião, e o filme ganha muito com isso: WATCHMEN é uma das melhores e mais fiéis adaptações de HQ's.

Comentários

  1. eu nunca li a história em quadrinhos, mas gostei muito do filme. Posso soar suspeita, mas mais interessante é o aspecto psicológico dos personagens. Pra mim o filme funcionou bem.

    Parabéns pelo blog!

    Abraço!

    ResponderExcluir
  2. Como já tinha escrito no post anterior, o filme me surpreendeu positivamente, e acho que será ainda melhor para aqueles fãs dos quadrinhos que estiverem com a expectativa beeeeem baixa. Agora já estou querendo ver de novo, e conferir a meia hora cortada no DVD, deve ter coisa bem legal ali.

    ResponderExcluir
  3. Já é o segundo texto elogioso que eu leio sobre o filme (o outro é do Felipe Guerra). Ótimo. Eu estava torcendo para que esse filme ficasse legal. Ainda não vi 300 mas eu gosto do filme de zumbis do Snyder.

    ResponderExcluir
  4. Os dois são adaptações de HQs, do mesmo dirtor, mas são filmes totalmente diferentes, por incrivel que pareça. E Watchmen é muito superior...

    ResponderExcluir
  5. Ronald, gostei do seu texto por não ficar somente naquele blá-blá-blá de fidelidade aos quadrinhos, afinal, nem são todos que leram a obra de Alan Moore. Mas eu não vejo esse filme nos cinemas. Eu detesto os dois filmes anteriores do Zack Snyder, especialmente "Madrugada dos Mortos", e esse aqui eu nem estou ansioso para ver.

    ResponderExcluir
  6. Concordo plenamente, Ronald. O filme superou minhas expectativas.

    ResponderExcluir
  7. "Acho que os críticos sérios reclamam demais e os fãs estão fazendo chiliques por pura oposição preconceituosa"

    Concordo plenamente. Esse pessoal tá reclamando de barriga cheia.

    ResponderExcluir
  8. Perrone ... my fella ... você disse tudo que eu precisava ouvir. Já não aguentava mais a necessidade excessiva dos fãs para eu ler os quadrinhos e depois e se irritar com o filme ...

    O importante é ver o cinema em ação ... e os quadrinhos ... deixa para depois ...
    abraços

    ResponderExcluir
  9. Daniel The Walrus10/03/2009 18:42

    Pra mim o problema não é comparação com HQ ou não, e sim comparação com o próprio cinema.

    O filme dá pro gasto. Mas é aquela história, imagina esse material sendo dirigido por um Fritz Lang e com direito a Tarkovsky como convidado especial (A lá tarantino em Sin City), dirigindo as cenas do Manhattan em Marte? Não entendo pq eles não levam esse tipo de material mais à sério (Ou levam menos à sério, talvez), não importando o quão bom ele seja. No fim fica tudo picadinho e sem alma apenas pq é de orçamento alto.

    Mas até q tem momentos bacanas.

    E vc não acha o Jackie Earle Haley com aquele rosto e voz uma versão do Clint Eastwood com 1,65 de altura? hahaha.

    Outra coisa q eu gostei foi a atuação do Crudup.

    Ele fez um tom de voz pro Dr. Manhattan perfeito, do jeito q eu sempre imaginei q ficaria ouvindo de verdade. Sempre imaginei o Daniel-Day Lewis para esse papel, mas o Crudup fez ótimo trabalho. Assim como eu sempre sonhei com Tim Roth como Rorschach (Q além de ter todas as semelhanças fisícas e o ar e voz ameaçadoras do personagem, já é naturalmente ruivo) mas o Jackie tb dá show.

    ResponderExcluir
  10. Mas o problema é que pensar num diretor do calibre de um Lang, Tarkovsky, etc, é muito utópico...

    A gente gosta, porque se diverte e por, pelo menos não ter ficado uma bosta... quero dizer, eu penso assim, tem gente que vê mais defeitos que eu relevo tranquilamente... Mas é isso aí.

    ResponderExcluir
  11. Daniel The Walrus11/03/2009 10:39

    "Mas o problema é que pensar num diretor do calibre de um Lang, Tarkovsky, etc, é muito utópico"

    Eu sei, mas eu só to dando um exemplo imaginário mesmo. Algo como "se o filme e a obra tivessem dido feito nos anos 60 ou 70", onde essa separação entre filme adaptado de HQ e filme normal não era tão grande. Antigamente era tudo cinema e eles tentavam tirar o melhor da obra e acabou. Não tinha essa de "Esse é pra atrair só a criançada e os fãs, gerar dinheiro, etc". Até tinha de certa forma, mas eram com filmes mais óbvios como os da Disney e o próprio pensamento era diferente até nisso.

    ResponderExcluir
  12. Daniel The Walrus11/03/2009 10:41

    Hoje o pessoal só aposta na coisa mais segura possível. Ninguém dá uma de louco como antigamente.

    E nem me venha falar q é culpa da crise pq isso não é de hoje! hehehe

    ResponderExcluir
  13. Daniel The Walrus11/03/2009 10:42

    "Não entendo pq eles não levam esse tipo de material mais à sério (Ou levam menos à sério, talvez) "


    Correção: Não entendo pq eles não levam esse tipo de material mais à sério (Ou levam muito à sério, talvez)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS BÁRBAROS (The Barbarians, 1987)

Daquela listinha de filmes de fantasia, Sword and Sorcerer, que eu postei outro dia, um dos exemplares que causou mais alvoroço foi OS BARBAROS. Alguns amigos acharam engraçado por eu ter lembrado desse filme que passou milhares de vezes no Cinema em Casa do SBT. E como estamos falando de um trabalho do italiano Ruggero Deodato, nada melhor que ressaltar como era bom ter doze anos e poder conferir às tardes da TV brasileira nos anos 90 um filme com bastante sangue, membros decepados e peitos de fora. Algo impossível para um moleque atualmente, que tem de se contentar com os filmes de animais falantes que empesteiam diariamente a programação… Neste fim de ano, meus votos de um grande pau no c@#$% do politicamente correto.

De todo modo, OS BÁRBAROS é uma porcaria. Fui rever essa semana para escrever para o blog e, putz, acreditem, é a coisa mais ridícula do mundo. Ainda bem que já sou vacinado contra tralhas desse tipo e encontro tantos elementos engraçados que fica impossível não sair…

O IMBATÍVEL (Undisputed, 2002)/O LUTADOR (Undisputed 2: Last Man Standing, 2006)

No útlimo fim de semana procurei outros filmes recentes do Michael Jai White para vê-lo distribuindo porrada em meliantes como em BLOOD AND BONE e BLACK DYNAMITE. Me deparei com UNDISPUTED 2, continuação de um filme dirigido pelo Walter Hill em 2002 e que, por pura negligência da minha parte, ainda não havia assistido. Enfim, foi uma experiência interessante, além de poder ver um ótimo filme de luta estrelado pelo Jai White ainda tirei o atraso com o filme Hill, que é obrigatório para os fãs do sujeito.

Ambos os filmes se passam em prisões e envolvem lutas “profissionais” entre os encarcerados, mas o resultado de cada é bem diferente um do outro. UNDISPUTED é puro Walter Hill! Cinema classudo, sério, focado em personagens bem talhados e com direção extremamente segura. Temos Wesley Snipes na pele de Monroe Hutchen, campeão de boxe de Sweetwater, uma prisão de segurança máxima que promove legalmente lutas entre presos. Ving Rhames é George Iceman Chambers, o campeão mundial dos pesos …

OS IRMÃOS KICKBOXERS, aka BLOOD BROTHERS (1990)

Também conhecido como NO RETREAT, NO SURRENDER 3 em alguns países. Não é tão espetacular quanto o segundo, mas é um veículo divertidíssimo que serve de vitrine para que Loren Avedon e Keith Vitali (os irmãos do título) demonstrem suas habilidades em artes marciais em sequências alucinantes de pancadaria! Até hoje me lembro quando eu era um moleque de oito ou nove anos pegando a fita da Top Tape na locadora com meu irmão mais novo. Passamos o fim de semana inteiro assistindo repetidas vezes este que foi o meu primeiro “kickboxer movie”.


Na trama, os dois personagens não vão muito com a cara do outro. Avedon é um professor de kickboxer que dirige um fusca, enquanto Vitali ganha a vida como policial respeitado, seguindo os passos de seu pai. Ambos lutam pra cacete! Para resumir o enredo, uma tragédia na família acontece (leia-se alguém é assassinado) e acaba sendo o motivo de reaproximação dos irmãos, que deixam as diferenças de lado e juntam forças para fazer exatamente aquilo que se …