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LISA AND THE DEVIL (Lisa e il diavolo, 1974), de Mario Bava

LISA AND THE DEVIL é uma entre tantas obras primas de um dos meus diretores favoritos. Mas antes de entrar nos detalhes do filme e descobrir porque este delirante trabalho de Mario Bava é tão bom, é interessante conhecer um pouco sobre as duas versões que rolam por aí.

Uma delas, o produtor Alfredo Leone, numa tentativa de picaretagem habitual desses italianos, tentou aproveitar o sucesso do recém lançado O EXORCISTA, de William Friedkin, e resolveu inserir por conta própria algumas cenas de um padre (interpretado por Robert Alda) realizando a tarefa de tirar o tinhoso do corpo de alguma personagem (não sei exatamente qual, porque eu não vi esta versão).

Parece que aproximadamente 15 minutos do original dirigido pelo Bava haviam sido cortados para as novas cenas se encaixarem. Acredito que essa profanação à obra do diretor de RABID DOGS não tenha resultado em algo melhor que a versão integralmente dirigida por ele, e é esta a versão vista por mim e que irei comentar adiante. Quem quiser se aventurar pela outra versão, recomendo dar uma conferida antes neste aqui...

O filme segue Lisa (Elke Sommers), uma turista em visita a uma antiga cidade européia, onde dá de cara com um afresco com a representação do coisa-ruim. Logo depois, vagando pelas ruelas da cidade, como se estivesse tendo uma atração sobrenatural, ela entra numa oficina de manequins, encontrando um estranho sujeito cujo rosto é idêntico ao do “cão” representado no afresco.

A partir daí, a moça acaba se perdendo e a narrativa toma forma de sonho – no caso da protagonista, um tom de pesadelo! Depois de conseguir uma carona com um casal, vai parar numa mansão onde transcorre o restante da trama, que se resume numa somatória de temas do imaginário onírico de Mario Bava, como a morbidez e a necrofilia...

Somos melhor apresentados ao estranho personagem visto na oficina no início, o mordomo Leandro, interpretado pelo magnífico Telly Savalas, sempre chupando um pirulito e com uma estranha força em cena, não é a toa que no final alegórico, quando se descobre a verdadeira identidade do sujeito, não chega a ser uma grande surpresa.

E que maravilha é Elke Sommers dando vida à sua personagem, tragando o espectador pra dentro de sua fantasia... além de estar muito bela. Os outros personagens são apenas bonecos que estão ali para baterem as botas, derramarem sangue e divertir o público.

A excelência de Bava na direção se faz presente em cada enquadramento, movimento de câmeras, e até nos zoons que acabou se tornando um bom artifício para o diretor nos anos 70, quando passou a trabalhar com orçamentos mais modestos em comparação aos seus trabalhos dos anos 60. Até existe uma diferença discreta na utilização das cores como elemento de horror. Se em seus filmes da década anterior Bava carregava na matiz de seus filmes dando o efeito alucinógeno desejado, na década de 70 as tonalidades permitiam um visual mais realista, sem deixar de ter um tratamento fotográfico de primeira!

Bava era um excelente fotógrafo, e ele mesmo iluminava seus próprios filmes, ou pelo menos tinha grande participação. Em LISA AND THE DEVIL, o diretor filmou alguns de seus melhores momentos da carreira, como o assassinato da Condessa cega, interpretada pela grande atriz italiana Alida Valli; quase todas as cenas de homicídios são de uma beleza poética e brutal impressionante! Percebe-se claramente de onde Dario Argento foi se inspirar antes de realizar SUSPÍRIA. Também o bizarro ménage à trois entre Lisa, seu “amante” e Elsa (um cadáver em avançado estado de decomposição)...

São tantos outros detalhes que fazem de LISA AND THE DEVIL um verdadeiro clássico do horror italiano, que prefiro parar por aqui para não estragar eventuais surpresas. Acho um filme essencial para os admiradores de Mario Bava, embora eu não recomende aos iniciantes. BLOOD AND BLACK LACE, KILL BABY KILL e WHIP AND THE BODY são bons exemplares para começar e amar o sujeito pra sempre, ou então odiá-lo de uma vez...

Comentários

  1. Meu Bava preferido.
    Acho sensacional bava mexe com tudo no filme, manipulando os personagens, pra manipular a nós, isso ta obvio desde os creditos iniciais. E no final ele ainda zoa com a nossa cara, fazendo um dos finais mais atordoantes do cinema.
    Mario Bava é o diabo ae.

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  2. A versão de Bava é meu filme favorito do diretor. Já a montada pelo estúdio é uma bosta (pra quem conhece o outro, já que evidentemente tem passagens idênticas e etc).

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  3. Carpenter tbm deve ter visto esse filme e fez In The Mouth Madness.

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  4. Telly Savallas interpretanto um MORDOMO que se chama LEANDRO. Tá na cara que não é boa gente.

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  5. Telly Savallas interpretanto um MORDOMO que se chama LEANDRO. Tá na cara que não é boa gente.

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  6. Toda vez qe entro no teu blog percebo como ainda sou um ignorante rsrs.

    Mais um pra lista

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