12.5.09

LE CERCLE ROUGE (1970), de Jean-Pierre Melville

Duas horas da madrugada, ainda não consegui parar de trabalhar – algo que eu deveria estar fazendo agora e não escrevendo isto aqui – mas como a criatividade deu um tempo, nada melhor que uma pequena pausa. Mesmo assim, vou tentar ser breve (e estou morrendo de sono, por isso não me levem a mal se o texto ficar pior que o habitual). Estávamos falando de Jean-Pierre Melville em alguns posts abaixo. E estamos de volta com ele, mas sem qualquer tipo de reclamação desta vez! E não é pra menos, já que não temos, em LE CERCLE ROUGE, Melville brincando de trenzinho e maquetes como em UM FLIC (deixando bem claro que gostei deste, algo que não ficou bem explícito nos meus comentários sobre o filme). Mas este aqui é muito mais danado de bom e é, guardando as devidas proporções, um verdadeiro épico do cinema policial francês.

Indo direto ao ponto: Vogel – vivido pelo grande ator italiano Gian Maria Volonté – é um prisioneiro que escapa debaixo do nariz do comissário de policia que o levava de trem (mas nada de maquetes!) sob custódia para a penitenciaria. No mesmo dia, Corey – mais uma vez Alain Delon, agora com um bigodinho pra dar um ar de bandido – sai da prisão após cumprir pena por roubo e os dois cruzam um o destino do outro. Com a ajuda de um ex-policial – Yves Montand, outro monstro – planejam roubar uma joalheria, mas têm atrás de si, o mesmo comissário que vacilou na fuga de Vogel pra atrapalhar os planos do furto. Vão me dizer que não é um p@#$% enredo pra um filme policial nas mãos do cara que dirigiu LE SAMOURAI?

Bom, daí surge algumas seqüências brilhantes, como a cena do roubo, por exemplo, que Melville havia pensado vinte anos antes, mas desistiu de realizar porque John Huston lançou primeiro o seu clássico THE ASPHALT JUNGLE, que é um filmaço, só pra constar. Passado o tempo, cá estamos, Delon, Volonté e Montand roubando jóias e Melville concebendo mais uma de suas obras primas. O próximo filme do diretor que eu pretendo assistir é o L’ARMÉE DES OMBRES que parece ser muito bom... é, ou não é?

10.5.09

STAR TREK (2009), de J.J. Abrams

Digam o que quiser, sempre achei o J.J. Abrams um sujeito de boas idéias. Pode até não ser um diretor genial, longe disso, mas a sua visão sobre determinados projetos sempre me agradou. Dois exemplos: é o criador de LOST, o único seriado que tenho assistido atualmente (porque minha namorada é fã da série e vivia pedindo para que eu baixasse pra ela, mas acabei gostando também); é a mente por trás de CLOVERFIELD, um dos filmes de monstro que mais me surpreendeu nos últimos anos. Por isso não foi uma surpresa perceber que estava diante de um filmaço enquanto assistia STAR TREK.

Antes de qualquer coisa, devo confessar que não sou um trekkie, nem mesmo gostava tanto da série quando passava na TV. Cheguei assistir a alguma coisa quando era adolescente, sempre adorei a essência, os personagens, a importância que aquelas produções tiveram no mercado televisivo nos anos 60 (no cinema, nem tanto, embora os filmes sejam bem mais legais, na minha opinião). Mas, enfim, fã eu não sou, não conseguia ver muita graça nos episódios.

Mas todo mundo sabe que a serie criada por Gene Roddenberry é ultracultuada, possui uma legião de fãs que venderia até a mãe pra tirar uma foto com o Leonard Nimoy fazendo aquela saudação com os dedos, e mexer com a origem desses lendários personagens sem causar um reboliço, seria impossível. Eu mesmo não achava que daria certo, imaginem então um sujeito que se masturba pensando no William Shatner vestido com o uniforme da Enterprise... é capaz de ter uma parada cardíaca.

Mas, convenhamos, se alguma série/filme merecia uma atualizada que fizesse jus à sua estima, com certeza, a escolha de STAR TREK foi uma ótima sacada! Trabalhar a origem dos personagens, melhor ainda. Engraçado que o Abrams também não era um maníaco pela turma do capitão Kirk, outro motivo para os fãs ficarem temerosos, mas dar continuidade aos longas seria o tipo da coisa anacrônica que já se esgotou, vide aqueles filmes medíocres estrelados pelo professor Xavier... digo, Patrick Stewart.

Mas o suspense passou, finalmente, e podemos festejar, STAR TREK é sensacional!

Então vamos logo com isso. A trama tem seu início já na espetacular sequencia de abertura, quando um nervosinho romulano, chamado Nero, volta no tempo e resolve tirar satisfações com o Spock por um probleminha que ainda vai acontecer daqui alguns anos. Calma! Isso é o de menos, embora abranja muito mais detalhes do que meu pequeno relato, o que vale mesmo é a forma como o roteiro trata os personagens com o equilíbrio perfeito entre a tradição de longa data da série, agradando os trekkies de plantão, e a atualização para a molecada de hoje, que não faz a mínima idéia do que seja um Vulcano.

Mas o mérito não é apenas do excelente roteiro. Grande parte do resultado vem dos próprios atores, a maioria deles desconhecidos ou trazidos das series de TV. Chris Pine, que encarna James Kirk jovem, convence ao transformar o personagem num sujeito abespinhado com a vida, mas também bastante afoito e intenso. Shatner deve ter se orgulhado. Zachary Quinto também surpreende em sua atuação complexa, explorando um Spock sem sentimentos e carismático, apesar dos seus conflitos internos entre a sua origem Vulcana e suas características humanas. Um fator crucial para STAR TREK é esculpir a relação entre estes dois personagens, um relacionamento que transcende o coração da série e que é trabalhada aqui com um sucesso tremendo!

Todo o elenco, na verdade, mandou muito bem e merece destaque pela construção dos personagens (mas se eu for citar todos, o texto vai ficar bem maior do que já está). Um dos atores mais conhecidos (embora esteja meio irreconhecível por causa da maquiagem) é Eric Bana, interpretando corretamente o maléfico Nero; Simon Pegg está impagável e perfeito para os momentos de humor; e claro, como não deixar de falar da participação de Leonard Nimoy, o Spock original, encarnando novamente o personagem! Eu ainda acho que daria para encaixar uma participação do Shatner... mas tudo bem.

Voltando a falar do J.J. Abrams, o sujeito até que surpreende em algumas escolhas. A maneira como filma a ação, por exemplo, e se aproveita dos efeitos visuais e sonoros deveria servir de exemplo pra Gavin Hood’s e Frank Miller's da vida. Na verdade, o diretor nunca se apóia totalmente nestes artifícios - embora tanto a fotografia quanto a edição de som e trilha sonora sejam magníficos - ao mesmo tempo em que tais efeitos contribuem de maneira eficaz no resultado que determinadas cenas necessitam sem nunca virar um carnaval de maquiagens e explosões em CGI, como nos últimos STAR WARS, por exemplo.

Até mesmo a direção de atores, com suas batalhas emocionais cuja narrativa escora-se constantemente de maneira inteligente e interessante, demonstra que o diretor possui um potencial para a coisa, amadureceu bastante e até difícil de acreditar que seja o seu segundo longa (o primeiro foi MISSÃO: IMPOSSÍVEL III). Se continuar à frente de futuras sequencias (algo, acredito eu, que vá acontecer) podemos ter certeza que a série STAR TREK estará em boas mãos. Vida longa e próspera para esta nova franquia que vai encher os bolsos de muita gente em Hollywood às nossas custas...

8.5.09

filmes recentes

Alguns filmes da safra mais recente que andei vendo, PRESSÁGIO (Knowing, 2009) não se sai tão mal quanto eu imaginava, até porque o único trabalho de Alex Proyas que eu havia conferido até então foi EU, ROBÔ, do qual eu não vejo graça alguma. Mas existem alguns momentos interessantes aqui, como as cenas-catástrofes, valorizadas pelo bom uso de efeitos em CGI. Até mesmo a trama conseguiu não me cansar. O difícil foi aguentar Nicolas Cage, cada vez mais no piloto automático e no fundo do poço, e o fedelho que interpreta seu filho. É mais um desses filmes consumíveis e facilmente esquecíveis.

Agora, tem como não apreciar um filme que possui o extremo bom gosto de iniciar com uma canção de Leonard Cohen? Não estou falando de QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS, do Altman, aliás, é um bom exemplo dum filme que preciso ver... mas me refiro a MR73 (2008), de Olivier Marchal, puta filme policial francês como há muito tempo não via!


A trama gira em torno do policial interpretado por Daniel Auteuil – grande ator, está perfeito no papel de um homem sendo devorado vivo, como bem define uma personagem. Sujeito está acabado, bêbado, traumatizado por uma tragédia de família, e tentando incansavelmente resolver um caso de um serial killer. Paralelamente, o roteiro constrói uma subtrama que envolve uma moça que na infância teve seus pais brutalmente assassinados por um psicopata que está prestes a sair da prisão por bom comportamento. Filmaço mesmo! Marchal consegue trabalhar as questões morais sem ser piegas e o final é poderoso, a direção é segura, corajosa e sem frescuras e Daniel cria um personagem e tanto. Altamente recomendado!


Já o filme que conta a origem do personagem de quadrinhos Wolverine, X-MEN ORIGINS: WOLVERINE (2009), não fica num nível muito acima de THE SPIRIT não. Ou seja, só não chega a ser uma decepção pega de surpresa porque eu não esperava muita coisa, mas mesmo assim surpreende pela incompetência dos responsáveis em adaptar um material que não necessita de muito esforço pra ficar bom. Mesmo assim, deu no que deu... O filme tem cheiro de blockbuster sem vergonha que só serve pra encher os bolsos dos executivos que se aproveitam da série iniciada em 2001.

As mudanças na origem do personagem em relação à fonte são ofensivas e forçam a barra, aliás, o roteiro é dos mais vagabundos, cheio de falhas e clichês mal trabalhados que me irritam profundamente. Nem mesmo as cenas de ação conseguem tirar o filme do buraco. O diretor Gavin Hood não tem, sequer, noção do que está fazendo. Confia demais nos efeitos de CGI (bem cretinos, diga-se de passagem), não tem ciência de espaço, não valoriza os planos, cenas de lutas mal acabadas, artificiais, mal filmadas, um horror. Até o povo que detona o Zack Snyder vai começar achar WATCHMEN uma obra prima!

Para finalizar, um dos melhores filmes visto em 2009: VINYAN (2008), do diretor belga Fabrice Du Welz, que dirigiu o ótimo CALVAIRE. O enredo traz um casal que vai aos confins da Tailândia procurar o filho que há seis meses se perdeu no Tsunami e, possivelmente, está vivo em algum lugar, pelo menos na cabeça da mãe. Mas acabam sendo engolidos pelo local, pelos mistérios que transcendem a região, numa jornada de sobrevivência e tentativa de se manterem lúcidos. É um filme que envolve o espectador com o poder das imagens exuberantes, clima atmosférico perturbador e uma atuação magnífica do casal, principalmente Emmanuelle Béart. Talvez eu escreva mais sobre ele, caso aconteça uma revisão, ou até porque o filme mereça mesmo.

OBS: O Dia da Fúria foi atualizado hoje! Tem textinho do Osvaldo Neto sobre O DIA DA DESFORRA e um meu sobre QUANDO OS BRUTOS SE DEFRONTAM. Delírios de Sergio Sollima!

6.5.09

UN FLIC (1972), de Jean Pierre Melville

Do Melville só havia assistido LE SAMOURAI e resolvi dar uma explorada no restante da filmografia começando pelo ultimo filme que realizou. Confesso que vindo de um diretor tão consagrado no gênero policial francês e, sendo este seu derradeiro trabalho, eu esperava mais, mesmo assim é um bom filme estranho. A trama de UM FLIC envolve uma quadrilha de assaltantes, liderado pelo ator americano Richard Crenna (que mais tarde faria o Coronel Trautman em RAMBO) e um inspetor, vivido por Alain Delon, que trabalha para capturá-la. Tem alguns momentos ótimos, como a cena de roubo ao banco na chuva do início; Delon em cena é sempre marcante, principalmente por fazer o tipo policial de métodos heterodoxos; e vários personagens interessantes, lapidados com uma bressoniana falta de emoções, algo que já parece ser particular do diretor. Outras sequências não me atraíram em nada – o assalto ao trem, com aquela maquete totalmente deselegante... Por que filmar desse jeito? Num filme de baixo orçamento italiano eu entenderia. O filme ainda aproveita muito mal a Catherine Deneuve. De qualquer forma, está bom como está, não é exatamente uma despedida como a de Sergio Leone, mas também Melville não está a altura do italiano, isso é fato. Essa semana eu vejo como ele se saiu em LE CERCLE ROUGE.

5.5.09

A DOPPIA FACCIA (1969), de Riccardo Freda


Primeiro filme do Riccardo Freda que assisto. Não sei se era o mais adequado pra iniciar a filmografia do cara, mas devo confessar que comecei muito bem! A DOPPIA FACCIA é um belíssimo e sofisticado giallo, subgênero que eu não havia tratado aqui no blog ainda. Preciso ver e rever alguns bons, porque o Dementia 13 está carente deste estilo que eu tanto adoro.

A DOPPIA FACCIA é baseado numa obra de Edgar Wallace e trata de um sujeito recém casado com uma milionária que acaba surpreendido quando ela pede um divórcio prematuro e logo depois morre num acidente de carro. O ex-marido é logo apontado como o principal suspeito, após a policia descobrir que o carro havia sido sabotado.

O marido em questão é interpretado pelo Klaus Kinski, que é sempre uma presença marcante em qualquer coisa que faça. E ele está muito bem no papel do sujeito amargurado por ter perdido a esposa ao mesmo tempo em que se vê acusado; e pior, acaba descobrindo que, possivelmente, ela ainda está viva, após uma jornada psicodélica numa festa onde assiste a um filme erótico cuja "atriz" possui algumas características que pertenciam a sua mulher.

É praticamente uma versão giallo de VERTIGO, de Alfred Hitchcock, e isso fica ainda mais evidente no desfecho. Mas esse tipo de alusão não tira o brilho de A DOPPIA FACCIA, que é uma aula de construção atmosférica, embora algumas cenas com efeitos especiais e miniaturas sejam bem toscos, mas não deixa de ser um charme a mais.

4.5.09

POSSESSÃO (Possession, 1981), de Andrzej Zulawski


Já vou avisando que o texto contém spoilers, mas acho que sou um dos únicos que ainda não havia assistido a esta belezura...

É um pouco complicado falar de POSSESSÃO, filmezinho difícil de ser digerido, mas é inegável o seu poder e mesmo tendo visto há mais de uma semana atrás, ainda me pego pensando e visualizando suas imagens. Mas como pode ser difícil e tão bom? Nesses casos, me lembro de alguma coisa que o David Lynch disse sobre alguns de seus próprios trabalhos: que os filmes não precisavam ser compreendidos, mas sentidos... ou algo assim. Pode ser uma estupidez, mas funciona.

Então, seguindo a filosofia “Lynchiniana” sobre filmes complexos, me deixei levar por POSSESSÃO. Mas das duas uma: ou o filme é realmente complexo em demasia, ou eu que sou burro pra caramba. Mas tudo bem, o que vale é o hedonismo. E não há nada mais satisfatório que acompanhar a câmera intensa de Andrzej Zulawski, com um roteiro surtado e deslumbrar com performances impressionantes de Sam Neil e Isabelle Adjani (que está linda, exagerada e sublime).

Fora isso, não tenho intenção alguma de fazer uma análise aprofundada sobre a obra. Seria algo que se tornaria pedante demais da minha parte...

Eu falo em complexidade, mas POSSESSÃO possui uma trama que dá pra acompanhar tranquilamente, e trata, basicamente, do drama, por mais insólito que seja, do casal formado por Neil e Adjani. O fato é que ele volta pra casa depois de um tempo trabalhando no exterior e descobre que ela tem um amante, um sujeito que se acha muito mais experiente em tudo na vida que o corno do Sam Neil.

Até aí tudo bem (pra mim, não pro Sam Neil), mas a coisa não é bem assim, porque ela logo sai de casa e abandona tanto o marido quanto o amante para viver num apartamento com uma criatura horrenda que a satisfaz sexualmente. Acho que não estraguei tanto a surpresa. Não é muito segredo a presença de uma criatura, já que os créditos iniciais informam isso quando aparece o nome do grande Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos especiais.

E é necessário apontar para essa criatura, pois é o elemento máximo das metáforas existentes em POSSESSÃO e rende uma discussão danada em torno disso. Mas em uma leitura mais superficial, o filme pode ser visto sobre as conseqüências do fim de um relacionamento. Zulawski, que também escreveu o roteiro, disse que seu próprio casamento serviu de inspiração...

Ou se preferir, POSSESSÃO pode prestar também como um excêntrico filme de horror. Claro que não serve para qualquer público, principalmente pela narrativa lenta, o desfecho hermético e o comportamento estranho dos personagens que agem como loucos-histéricos-psicóticos-suicidas, e não só o casal central, todos parecem afetados pela trama. Mas não falta aqui uma atmosfera densa e carregada, litros de sangue e até mesmo um monstro pra completar a sessão de terror!

3.5.09

Eu e o Herax demos o pontapé inicial; o Leandro Caraça teve a idéia para o nome; fomos recrutando uma equipe furiosa formada por, além dos já citados, Cesar Almeida, Leopoldo Tauffenbach, Osvaldo Neto, Otávio Pereira, Rogério Ferraz e Takeo Maruyama.

E hoje, finalmente, é...
O DIA DA FÚRIA!

1.5.09

THE RETURN OF THE STREET FIGHTER (1974); THE STREET FIGHTER'S LAST REVENGE (1974), de Shigehiro Ozawa

Terminei agora pouco de assistir aos dois filmes que restavam da série protagonizada pelo personagem Takuma Tsurugi, vivido pelo grande Sonny Chiba, iniciada em THE STREET FIGHTER. Suas partes seguintes, todas sob a direção de Shigehiro Ozawa e rodadas no mesmo ano, não chegam a ser melhor que o original, mas conseguem manter um nível excelente!

THE RETURN OF STREET FIGHTER possui um fiapo de enredo que parece existir somente pra trazer o personagem de volta às telas e faturar em cima disso, mas compensa com ação do inicio ao fim cheio das habituais sequências grotescas de violência que Tsuguri, o mercenário lutador autodidata, executa contra seus oponentes, sempre naquele estilo grosseirão de desferir os golpes, em sua grande maioria em ambientes apertados contra vários inimigos ao mesmo tempo. Crânios esmagados, dedos enfiados nas cordas vocais, globos oculares saltando do rosto e o retorno de um personagem do primeiro filme que todos pensvam que havia morrido. Enfim, é diversão de primeira, com uma boa direção, cenas de lutas muito bem feitas, uma galeria de personagens interessantes e Sonny Chiba em cena fazendo suas caretas.

THE STREET FIGHTER’S LAST REVENGE é o oposto. Os roteiristas resolveram dar um trato na trama e talvez seja a mais elaborada da trilogia. Mas tanto trabalho no roteiro acabou deixando o filme sem ação em comparação aos anteriores. Não se preocupem, pois ainda há cenas de luta até dizer chega, só não esperem o mesmo vigor e quantidade nem a violência gráfica dos dois primeiros filmes (ainda assim há uma cena quem que Tsuguri arranca a cabeça de um sujeito com uma pisada!). Até o Chiba parece sem empolgação e só mesmo nas ultimas cenas de luta que ele resolve fazer suas caretas expressivas com aquela respiração bizarra. O final consegue retomar a energia da série em termos de ação e acaba resultando num filme de porrada com um pouco mais de "conteúdo". De quebra temos uma pequena participação de Etsuko Shihomi, que estrelou a trilogia SISTER STREET FIGHTER, e a presença da musa da Pink Violence, Reiko Ike, para embelezar o filme em certos momentos.

30.4.09

OS AMIGOS DE EDDIE COYLE (The Friends of Eddie Coyle, 1974), de Peter Yates

Sabe aquela famosa frase? “Com amigos como este, quem precisa de inimigos?”. Então, é este tipo de “amigo” que o título do filme se refere nesta obra prima do diretor Peter Yates. Eddie Coyle, interpretado por Robert Mitchum, conta, a certa altura, que ganhou o apelido de fingers depois de um servicinho ter dado errado e seus “amigos” terem arrebentado sua mão como castigo. Realmente mui amigos...

Yates é bastante esperto ao retratar este mundo de uma maneira sombria e extremamente melancólica, sob o olhar cansado de um Robert Mitchum cheio de dilemas. Seu personagem já inicia o filme em apuros. A esta altura da vida, Eddie teve problemas com a lei, possui mulher e três filhos, não quer ir pra prisão na sua idade, então resolve virar “dedo duro” da policia pra sair dessa situação de uma vez, mas acaba colocando sua vida em risco. E, basicamente, é isso que temos aqui para formar uma trama bem desenvolvida.

Esqueçam cenas de ação mirabolantes ou perseguições de carro em alta velocidade como em BULLIT, também de Yates, nada de adrenalina por aqui. O que OS AMIGOS DE EDDIE COYLE nos dá é o drama de um homem simples envolvido numa teia criminosa, tentando se livrar, mas acaba se enrolando cada vez mais. A direção de Yates é ótima e funciona muito bem nesse sentido, evitando os excessos que poderiam desviar a atenção; o roteiro também é bem enxuto, inspirado no romance de George V. Higgins (que eu não li); mas o que realmente torna o filme uma obra prima dos anos setenta é a presença de um Robert Mitchum inspirado.

Mitchum nunca esteve tão bem, pelo menos eu não me lembro. E olha que é um dos meus atores americanos favoritos. Acostumado a tê-lo sempre como um action man desde seus trabalhos da década de 40, é de se estranhar, no momento em que surge atrás de uma vidraça até seu ultimo segundo em cena, vê-lo encarnando este personagem lúgubre, cansado, tentando sobreviver neste universo nebuloso. Eddie Coyle foi feito sob medida para Mitchum, e motivo melhor que este para ver o filme não há. Outro bom nome que aparece nos créditos é o de Peter Boyle, também uma figura que não decepciona e está extremamente bem aqui, principalmente nos últimos 20 minutos de filme.

Como já devem ter percebido, OS AMIGOS DE EDDIE COYLE é uma obra mais séria que o habitual, um exercício de realismo dentro de um gênero repleto de situações exacerbadas que, aqui, não vêm ao caso. Até mesmo nas cenas de assaltos a bancos, que Yates intercala na estrutura narrativa, são ausentes de qualquer tipo de manipulação emocional. Yates prefere apostar na atmosfera natural, com a magnífica fotografia crua de Victor J. Kemper (que já havia trabalhado com John Cassavetes em HUSBANDS e depois faria UM DIA DE CÃO, de Sidney Lumet); nos diálogos que carregam muito mais tensão; e claro, em Robert Mitchum brilhando como nunca.

27.4.09

Mais dois filmes...

FEMALE YAKUZA TALE - INQUISITION AND TORTURE (Yasagure anego den: sôkatsu rinchi, 1973), de Teruo Ishii


É a sequencia de SEX & FURY, de Norifumi Suzuki, agora com a direção de Teruo Ishii, de THE EXECUTIONER, mas com a mesma Reiko Ike de volta ao papel do filme anterior, mostrando todo talento, graça e beleza (leia-se os atributos físicos que Deus lhe deu). Alguns consideram FEMALE YAKUZA TALE superior, acho que são filmes bem diferentes. O filme de Suzuki é mais denso e sua força parece centrada na trama de vingança e na ação; ambos possuem uma estética carregada, mas este aqui se sai melhor como um exercício visual e muito mais apelativo no quesito “nudez gratuita”.

A começar pelo próprio entrecho, que envolve um bando de traficantes que transporta a mercadoria ilícita colocando-a nos orifícios sexuais de um grupo de moças, que recebem em troca uma dose da droga. Destaque para o grande final quando um exército de mulheres nuas, sob o comando de Oshô (Ike), enfrenta os traficantes. Literalmente uma bela dose de sangreira e mulher pelada! Imperdível!


DJANGO, O BASTARDO (Django il bastardo, 1969), de Sergio Garrone


Mudando totalmente de gênero, assisti a este bom Western Spaghetti estrelado pelo ítalo-brasileiro Anthony Steffen e dirigido por Sergio Garrone, que apesar de ter feitos muitos westerns, realizou também alguns filmes de horror. E DJANGO, O BASTARDO é uma hibrida produção que transita entre o terror e a poeira do velho oeste.

O fato é que durante toda a narrativa, Garrone mostra o protagonista como um fantasma que surge das trevas para se vingar do crime que três sujeitos cometeram há alguns anos, durante a guerra civil. Inclusive os próprios personagens pensam que se trata de uma alma penada. Depois de uma boa quantidade de mortes e uma meia hora final que me lembrou outra mistura de western/terror, E DEUS DISSE A CAIM, do Antonio Margheriti, o filme acaba revelando se Django era realmente de carne e osso ou não. Mas eu não vou contar!

OBS: Uma dica para uma boa leitura, muito mais completa, sobre DJANGO, O BASTARDO, pode ser encontrada aqui.

24.4.09

CANNES 2009

A lista do Festival de Cannes está um primor este ano, principalmente para os fãs do cinema físico e fantástico! Dá só uma olhada nessa seleção:

DAS WEISSE BAND, aka THE WHITE RIBBON, de Michael Haneke: Boto fé no diretor de FUNNY GAMES, A PROFESSORA DE PIANO e CACHÈ (mas recomendo também o 71 FRAGMENTS OF A CHRONOLOGY OF CHANCE, que já não é tão conhecido, mas é um de seus melhores trabalhos). Este seu novo filme vai se passar no início do século passado, ambientado numa escola rural no norte da Alemanha onde estranhos eventos acontecem envolvendo rituais de castigo. Segundo o imdb, Haneke questiona sobre como isso tudo afeta o sistema escolar e como a escola teve influencia sobre o fascismo.

ANTICHRIST, de Lars Von Trier: Aquela imagem que postei aqui no blog outro dia e o trailer que saiu recentemente deixa tudo bem claro: filme de horror puro com visual pictórico e tudo indica que a coisa vai ser de arrepiar! Temos Willen Dafoe e Charlotte Gainsbourg vivendo um casal com problemas que se refugiam numa cabana no meio da floresta. Não quero nem ficar imaginando o que o dinamarquês maluco vai aprontar com esses dois...

VENGEANCE, de Johnny To: Esse é mais que óbvio. Qualquer filme do To, independente de estar em festivais ou não, é motivo para comemoração. Ainda mais com um roteiro que, tudo indica, vai conter um assassino francês (Johnny Hallyday) em busca de vingança, universo da máfia mais uma vez servindo de cenário e bastante ação naquela genialidade de trabalho de câmera e composições que só o To sabe fazer atualmente!

THIRST, de Park Chan-wook: Não sei muito o que esperar deste aqui, na verdade. Park narrando uma estória de vampiros, provavelmente vai sair algo bom. Minha expectativa está bem alta pelo menos. O negócio é que fiquei um pouco decepcionado com o LADY VINGANÇA e nem tive coragem ainda de assistir I’M A CYBORG, BUT THAT'S OK. O trailer me deixou bastante animado, vamos aguardar...

INGLORIOUS BASTERDS, de Quentin Tarantino: Acho que nem precisa de apresentações. Um dos filmes mais aguardados do ano!

TAKING WOODSTOCK, Ang Lee: Não consegui nem ver ainda o LUST, CAUTION, algo que vou tentar corrigir nos próximos dias, mas Lee já retorna com uma comédia no mínimo interessante, uma espécie de origem histórica do Woodstock, festival que definiu uma geração nos anos 60, contada sob o ponto de vista de um rapaz que trabalha no motel de seus pais. Muito Rock, hippies, e aquele visual lisérgico dos anos 60.

SOUDAIN LE VIDE, aka ENTER THE VOID, de Gaspar Noé: O diretor de IRREVERSÍVEL retorna com um projeto que eu não faço a menor idéia do que se trata, e também prefiro deixar assim e descobrir na hora em que estiver assistindo. Mas só pelas imagens que saíram dá pra perceber que, pelo menos no visual, o sujeito continua apurado (sim, eu adoro seus filmes anteriores)! Desde 2002, que Noé não lança um longa metragem. Vocês podem encontar várias fotos do filme aqui.

E ainda teremos os novos de Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio, Ken Loach, Tsai Ming-liang, Alain Resnais e outros...

Fora de competição, eu gostaria de estar lá (vai sonhando) pra conferir THE IMAGINARIUM OF DOCTOR PARNASSUS, do Terry Gilliam, definitivamente o ultimo filme com participação do Heath Ledger. Além de DRAG ME TO HELL, novo trabalho do Sam Raimi e MOTHER, do Bong Joon Ho, o mesmo de THE HOST.

23.4.09

MANHUNT IN THE CITY (L'Uomo Della Strada Fa Giustizia, 1975), de Umberto Lenzi

Bom filme do Umberto Lenzi, embora seja mais reconhecido pelos filmes de terror, principalmente por ter praticamente criado o subgênero de horror canibal com o filme DEEP RIVER SAVAGES (me corrijam se eu estiver enganado!), acabou realizando inúmeros exemplares de poliziotteschi como este aqui, ALMOST HUMAN, NAPOLI VIOLENTA, MILANO ROVENTE, etc...

Henry Silva está ótimo na pele de um sujeito pacato, homem de negócios, que vai se transformando gradativamente num vingador depois um acontecimento trágico na sua vida. Pode até parecer mais um entre tantos “filmes de vingança”, mas Umberto Lenzi prefere fazer um filme meio “bunda mole” dentro do gênero, com um tom mais realista, mostrando essa transformação de forma bem lenta.

Mas quando finalmente o personagem de Silva toma uma atitude, o filme engrena. Não que a narrativa lenta e burocrática fosse ruim, de forma alguma. Lenzi sabia muito bem o que estava preparando e a grande revelação no final deixa isso bem claro, por isso a participação da policia é essencial e não somente Henry Silva empunhando a garrucha pra estourar os miolos dos bandidos com a sede de vingança que acumulou durante um bom tempo.

Mas é justamente disso aí que vem a energia do filme, não tem jeito... quem não gosta de uma boa dose de ação com um dos maiores astros do poliziotteschi?

MANHUNT IN THE CITY não deixa de ser, afinal, um belo tratado sobre o desejo de vingança precisando ser vomitada a qualquer custo.