Pra finalizar o período de listas de 2025. Aqui vai uma pequena relação de dez filmes conhecidos ou não, celebrados ou não, que, seja lá por quais motivos, só fui assistir pela primeira vez no ano passado. Não tem posições de preferência, coloquei em ordem cronológica mesmo, mas alguns provavelmente entrariam numa lista atualizada dos meus 100 filmes favoritos.
Os textículos que acompanham são de anotações do meu Letterboxd.

INTOLERANCE: LOVE’S STRUGGLE THROUGHOUT THE AGES
1916, de D.W. Griffith
Épico monumental, com a montagem inovadora e a grandiosidade das cenas que ainda surpreendem depois de mais de um século. Quatro histórias interligadas que mostram como a intolerância atravessa eras. Absolutamente magnífico.

THE ROAD TO YESTERDAY
1925, de Cecil B. DeMille
Mistura fascinante de romance contemporâneo e drama histórico de época. Através de um acidente de trem (aliás, uma cena espetacular!), o filme nos transporta para o século XVII, sugerindo que os conflitos amorosos e de outras particularidades do presente são ecos de vidas passadas e pecados não resolvidos. O puro suco do entretenimento da “velha Hollywood”.

THE UNKNOWN
1927, de Tod Browning
Melodrama grotesco e cruel. Lon Chaney é um criminoso que finge não ter os braços para trabalhar em um circo e esconder sua identidade, mas acaba desenvolvendo uma obsessão doentia por uma moça, (Joan Crawford), traumatizada por homens de braços fortes. A performance de Chaney “sem braços” é visceral e o filme leva o drama ao extremo, numa história de amor doentia que termina em puro horror.

HELLZAPOPPIN’
1941, de H. C. Potter
Os primeiros 15 minutos. Um dos momentos mais inventivos que eu já pude testemunhar num filme. O restante não chega no mesmo nível, mas mantém a graça. Um caos delicioso que atropela a lógica narrativa com metalinguagem, piadas visuais, quebra da quarta parede e nonsense puro, que ignora qualquer tentativa de coesão para mergulhar numa anarquia cômica. Antecipa o humor de Monty Python, Looney Tunes, Mel Brooks, ZAZ.
Um clássico subversivo que impressionou todo mundo com quem eu falei pós sessão, nos Encontros de Cinema do Fundão, em Portugal. Quem escolheu o filme pra passar, com carta branca, foi o maestro Enzo G. Castellari, que estava presente na sessão. Histórico.

20,000 LEAGUES UNDER THE SEA
1954, de Richard Fleischer
What is it?
Burial ceremony under the sea.
E de repente estamos assistindo a algumas das imagens mais incríveis da história do cinema. O Nautilus é um mundo onde maravilha e horror convivem. Onde enterros subaquáticos têm a serenidade de um rito ancestral e monstros gigantes emergem como parte natural desse universo. No centro tá o Capitão Nemo de James Mason, figura trágica empurrada pelo ódio e pela perda. Um gênio que oscila entre tirano e criança ferida, e o filme acompanha esse abismo. Ao seu redor, Kirk Douglas encarna o impulso mais terreno, quase um contraponto humano à grandiosidade sombria do capitão.
Fleischer filma esse universo de Julio Verne com uma rara clareza imaginativa. É até curiosa a sua escolha para comandar essa super produção. Richard Fleischer é filho de Max Fleischer, um dos maiores concorrentes da Disney, pioneiro no desenvolvimento de desenhos animados. Responsável pela transformação de personagens de história em quadrinhos para a animação, como Betty Boop e Popeye. E, bom, este filme é uma produção da Disney.
Consta que Fleischer chegou a procurar Walt Disney pra perguntar se ele sabia quem ele era, de quem era filho. E Disney respondeu que sabia muito bem e que o contratara porque o considerava a melhor pessoa para o trabalho. E de fato, era mesmo. Em outra entrevista, para a Cahiers, na época de VIAGEM FANTÁSTICA (1966), Fleischer ressalta a influência de seu pai pro visual de seus filmes e que este aqui especificamente é quase um desenho animado. Mas é também um grande trabalho de cinema. A cada sequência de 20,000 LEAGUES UNDER THE SEA parece que seu cinema tenta tocar algo absoluto, algo que os olhos nunca viram antes, a beleza, o terror, o desejo de compreender o que nunca se deixa agarrar. É uma aventura clássica com alma inquieta, uma das grandes sinfonias visuais que Hollywood já produziu.

VIOLENT SATURDAY
1955, de Richard Fleischer
Tenho visto muitos Fleischer atualmente, então… O filme pega a estrutura de um heist movie, filme de assalto, e transforma num raio-X de uma cidadezinha americana hipócrita. A trama acompanha três criminosos preparando um assalto a banco enquanto, em paralelo, a comunidade vive seus pequenos dramas de adultério, dívidas, alcoolismo, frustração sexual, covardia, etc… Fleischer filma em CinemaScope e cores vibrantes, criando um contraste maravilhoso entre o visual “postal” da cidade e a podridão moral que vai emergindo. Cada enquadramento é milimetricamente pensado, o que torna isso aqui um prazer aos olhos. O nível é esse aqui:

E a geografia, a noção do espaço durante algumas sequências, como a do assalto ou no clímax na fazenda é de uma clareza e tensão impressionantes. Já demonstra um Fleischer no auge da precisão como diretor de ação. O elenco (formado por gente grande, do nível de Victor Mature, Ernest Borgnine, Lee Marvin) sustenta personagens que parecem arquétipos à primeira vista, mas ganham camadas de fragilidade. É aquele tipo de filme que prova como o cinema de gênero dos anos 50 podia ser ferozmente moderno. Um noir a céu aberto, em Technicolor, que desmonta o mito da comunidade perfeita e termina com uma catarse tão violenta quanto moralmente ambígua. Até o momento em que faço essa peregrinação pelo cinema do homem, é a obra-prima do Fleischer.

WINDOW WATER BABY MOVING
1959, de Stan Brakhage
2025 foi um ano em que me debrucei, por um certo período, no cinema experimental. E inevitavelmente acabei esbarrando em várias coisas de Stan Brakhage, que é, talvez, o grande nome do cinema de vanguarda americano. E foi recompensador. WINDOW WATER BABY MOVING, por exemplo, foi uma das experiências mais fascinantes que tive com cinema nos últimos tempos (só perde pra assistir KEOMA na presença do próprio Castellari). Um filme visceral e poético, o registro documental do nascimento da primeira filha de Brakhage se transforma em percepção sensorial e emocional, com a câmera se movendo de forma hipnotizante, explorando o corpo da mãe, Jane Wodening, e a vida que cresce dentro dela. Entre ternura e desconforto, beleza e choque, redefine o cinema como experiência corporal.



DOG STAR MAN
1965, de Stan Brakhage
Outro Brakhage. Este aqui é o seu épico, o estudo mais radical sobre percepção e visão que o sujeito fez até aquela altura. Um marco do cinema experimental e da arte visual do século XX.
“Basicamente, há uma única ação: um lenhador, interpretado por Brakhage, sobe uma colina e corta uma árvore. Mas o filme se desdobra a partir disso e repete partes dessa ação, da paisagem, do universo, com imagens telescópicas do sol, da lua, das estrelas, de sua família, de um coração batendo, dos pulmões e da corrente sanguínea, e mesmo de células microscópicas. A maior parte da fotografia foi feita em 1959-60 e depois editada e reeditada em cinco seções: Prelúdio e Partes Um a Quatro” – Sheldon Renan (no livro Uma Introdução ao cinema Underground Americano)
No Prelúdio, Brakhage estabelece a base conceitual do projeto. Um material visual caótico e denso, composto por sobreposições, distorções e cores que parecem buscar o limite da experiência sensorial. A Parte Um mostra o lenhador subindo a montanha, com seu cachorro e carregando um machado, quase um gesto arquetípico, filmado de forma fragmentada. Uma ação simples que se transforma numa metáfora sobre esforço, existência e consciência. Na Parte Dois a montagem volta a acelerar e se torna mais agressiva. Um retorno às origens da vida, mostra o que parece ser o subconsciente de um recém-nascido. É o ponto alto do filme pra mim, o segmento mais bonito, alternando imagens de um bebê, imagens abstratas e texturas que evocam processos mentais e fisiológicos.
A Parte Três segue a mesma linha da Parte Dois. Mas agora me parece uma regressão ainda mais profunda, a da intimidade sexual: corpos, pele, vislumbres de rostos e dos órgãos sexuais (às vezes planos detalhados do que parecem ser o interior dos corpos, coração batendo, músculos, corrente sanguínea), sobreposições com imagens abstratas e mais texturas. E a Parte 4 é o encerramento do ciclo, a figura do lenhador retorna brevemente, mas já dissolvida na abstração. A escalada se torna simbólica, uma tentativa de compreender a experiência visual em sua totalidade, do concreto ao puramente sensorial.

WAVELENGTH
1967, de Michael Snow
Mais cinema experimental. Já tinha visto, há alguns anos, todas as 3 horas de LA RÉGION CENTRALE e agora fui nessa outra maravilha, que é WAVELENGHT. Uma viagem minimalista e meditativa de 45 minutos em que durante a projeção, a câmera estática faz um único e lento zoom, atravessando um loft em Nova York, de um plano geral até uma foto de um oceano que tá pendurada na parede oposta, revelando todos os detalhes do recinto pelo caminho, transformando o espaço banal de um apartamento em algo quase hipnótico. Entre mudanças de luz, filtros, sons e pequenos gestos narrativos, o filme força a encarar o tempo e a percepção quase como uma matéria-prima do próprio cinema. E a beleza do filme tá nessa jornada gradual. É um troço radical, que desafia a percepção das coisas, mas também se revela como uma das mais puras investigações sobre o olhar no cinema.

CAPRICCI
1969, de Carmelo Bene
Isso aqui é pesadíssimo. Uma tentativa de trazer uma sinopse seria algo como dois sujeitos, um escritor e um pintor, após uma briga no apartamento de um deles, se separam. O escritor, junto de sua parceira, passa a se dedicar a provocar acidentes contínuos em um campo repleto de carcaças de automóveis. Já o pintor é recrutado para matar, por meio de um quadro envenenado, um velho, permitindo que sua esposa possa viver com o amante, um outro velho. Mas o que realmente importa aqui é a força da transgressão do cinema de Bene, o seu ataque constante à lógica narrativa e a beleza perturbadora da anarquia visual.

THE HART OF LONDON
1970, de Jack Chambers
Pra finalizar, mais um filme de vanguarda. Brakhage disse que THE HART OF LONDON é “um dos poucos grandes filmes de todo o cinema” e lá fui eu ficar quase 80 minutos hipnotizado diante dessa ambiciosa e fascinante obra de Chambers.
Vou colocar aqui o belo texto do Fred Camper, publicado na última edição da Foco sobre o filme, porque particularmente, nem tenho muitas condições de articular as ideias, de dissertar sobre seus temas, uma espécie de explorações sobre os ciclos de vida e morte, a relação entre natureza e civilização, mas que vai se desdobrando pra outros subtemas que aparentemente não se conecta com nada. E quando se percebe uma conexão, já se desdobrou pra outra coisa. Mas no final entra de certo modo numa sintonia, apresentado numa mistura de filmagens pessoais, imagens de arquivo (incluindo noticiários), sequências mais gráficas difícies de assistir. E uma montagem complexa que alterna preto e branco, imagens sem contraste cinzas em sobreposições, e cor. Posso dizer que é um filme poderoso. Muito denso e muito pessoal, e que certos momentos faz o LE SANG DES BÊTES, do Franju, parecer um filme infantil.
Se por um lado 2025 foi um ano muito fraco pra acompanhar os lançamentos, a graça da cinefilia permanece ao rever os filmes que amamos e descobrir obras que ainda surpreendem. E é o que provavelmente vou continuar fazendo neste ano e no próximo, e no próximo…
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