Pular para o conteúdo principal

ICARUS (2010), de Dolph Lundgren


Na mitologia grega, Ícaro tenta fugir de Creta voando com as asas feitas pelo seu pai, Dédalo, artesão do rei Minos. Mas ao voar muito alto, o calor dos raios do sol derreteu a cera que segurava as penas e Ícaro caiu no mar onde morreu. Mas o que o personagem mitológico tem a ver com o novo filme de Dolph Lundgren, além de servir como título? Absolutamente nada! Ou vocês esperavam uma densa contextualização mitológica num filme de ação estrelado e dirigido pelo eterno Drago?

O máximo da citação filosófica que remete à mitologia é quando o vilão, vivido pelo grande Bo Svenson, apontando uma arma para a cabeça do protagonista, cujo codinome é Ícarus, diz: “Você não pode voar muito perto do sol sem derreter suas asas... Ícarus”, uma metáfora muito bem inserida para substituir o velho “Você chegou ao fim da linha”. Mas tudo bem, o que vale mesmo é que ÍCARUS é um ótimo filme de ação levando em conta os entraves de seu realizador.

No ano passado, os fãs de Lundgren (ou seja, uns 10 malucos ao redor do mundo), depositaram suas esperanças em COMMAND PERFORMANCE, que prometia ser o máximo da ação casca grossa à moda antiga. O resultado não foi de todo ruim, mas não era o filme que esperávamos.

ÍCARUS também não é nenhuma obra prima retumbante de alto nível fílmico, mas consegue ser tudo o que COMMAND tentou ser e não chegou nem perto! Ainda este ano, Dolph fez uma marcante participação em SOLDADO UNIVERSAL: REGENERATION e em breve o veremos na tela grande em THE EXPENDABLES, do Stallone. Esses bicos devem ter feito um bem danado a ele, pois desta vez ele arrebenta com um filmaço de enredo interessante e um personagem que faria Chris Kenner pensar duas vezes antes de partir pra agressões físicas com ele.


Dolph vive um assassino profissional sangue frio que realiza o serviço sujo da máfia russa, mas se esconde atrás da figura de um executivo de agenda cheia. É o que ele quer que sua ex-mulher e filha pensem, já que os motivos da ausência (e da separação) foram as intermináveis viagens ao redor do mundo sujando as mãos de sangue. Dividido entre essas duas personalidades, Ícarus sofre um drama por querer ter uma vida de volta ao lado da filha e esposa da mesma forma em que é obrigado a continuar na profissão por conta de um passado misterioso. O bicho pega para o seu lado quando ele se vê como alvo de uma organização criminosa rival e percebe que não pode confiar em ninguém, a não ser nas suas próprias habilidades para manter sua família a salvo.


Lundgren nunca vai chegar ao nível de um Stallone na direção e sua atuação limita-se a fazer biquinho, mas é legal acompanhar o crescimento do ator/diretor. Até há uns quatro anos atrás, o sujeito ainda estava fazendo qualquer tralha para pagar as contas, algumas bem divertidas. COMMAND já demonstrava um amadurecimento, mas em ICARUS ele tem a oportunidade de se colocar entre os grandes autores do cinema independente de ação atual. Claro que não é intenção dele expressar uma performance do patamar de um Lawrence Olivier ou Marlon Brando, mas seu personagem tem uma complexidade bem acima dos que o Steven Seagal tem feito, o que não quer dizer muita coisa, na verdade...

No elenco, a participação do veterano Bo Svenson dá ao filme um motivo a mais para ser conferido pelos fãs de filmes B, pena que aparece tão pouco em cena. Stefanie von Pfetten faz com competência a ex-mulher do protagonista. Só que sua transformação no decorrer da trama é um pouco mal desenvolvida. Numa cena, seu namoradinho morre com um tiro na cabeça, algumas horas depois, ela já está em cima de Dolph numa cama de um quarto de motel "relembrando" os velhos tempos...


A ação do filme, apesar de constante, infelizmente tem os mesmo cacoetes de 90% dos realizadores atuais que tremem a câmera demais e utilizam montagens espertinhas, mas acho que continuar reclamando disso acaba ficando chato, a não ser quando a coisa é insuportável e o diretor nem desconfia do que está fazendo. Não é o caso de Dolph que tem muita noção de ação, além de bom senso em não usar sangue em CGI. Não chega a ser um John Flynn, mas dá para se divertir. Temos aqui longos tiroteios, explosões, porradaria comendo solta e alta contagem de corpos. Tudo o que já vimos em filmes anteriores do ator, só que Lundgren consegue injetar uma boa dose de substância e dramaticidade que o separa de outros colegas que realizam seus filmes direct do vídeo.

Sem dúvida alguma, os verdadeiros fãs do velho Dolph vão adorar ICARUS, o melhor trabalho dirigido pelo sujeito até agora. Espero que depois do lançamento de THE EXPENDABLES ele consiga aumentar o número de admiradores, talvez até consiga mais recursos e quem sabe consiga manter o nível deste aqui em seus futuros projetos. Eu, que o tenho como um dos principais astros de ação da minha infância, torço por isso!

Comentários

  1. Com certeza uma de suas melhores resenhas, Ronald. Dei muita risada aqui :)

    Abrs

    ResponderExcluir
  2. Risada? Mas tudo que eu disse foi sério! hahah

    Valeu, Sérgio!
    Abração.

    ResponderExcluir
  3. Hahaha, eu também ri bastante! Só não sei se bate o texto sobre o Stallone Cobra!!!

    ResponderExcluir
  4. Maravilha. Mais batatinha de boteco pra acompanhar a cerveja!

    ResponderExcluir
  5. Pra ver com cerveja e torresmo. Farei isso.

    ResponderExcluir
  6. http://www.youtube.com/watch?v=Q12WGvupAHU

    Prepare-se. Acho que vai ser muito foda.

    Vou esperar o DVD, do "Ícarus".

    ResponderExcluir
  7. Michael Keaton!!!
    Parece que vai ser bem legal mesmo!

    ResponderExcluir
  8. Assisti o Icarus essa sexta e gostei do filme. As cameras tremidas nas cenas de ação de irritaram um pouco, junto com os cortes rápidos. Considero melhor que o ultimo do Seagal. Quem curte filmes de ação secos e diretos vale a espiada.

    ResponderExcluir
  9. Vi-o hoje. Não se podia pedir mais ao homem. Actualmente há um défice de cinema de porrada despreocupado, ele que faça muitos mais!

    ResponderExcluir
  10. Vamos aguardar pra ver o que ele vai aprontar em The Expendables!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O IMBATÍVEL (Undisputed, 2002)/O LUTADOR (Undisputed 2: Last Man Standing, 2006)

No útlimo fim de semana procurei outros filmes recentes do Michael Jai White para vê-lo distribuindo porrada em meliantes como em BLOOD AND BONE e BLACK DYNAMITE. Me deparei com UNDISPUTED 2, continuação de um filme dirigido pelo Walter Hill em 2002 e que, por pura negligência da minha parte, ainda não havia assistido. Enfim, foi uma experiência interessante, além de poder ver um ótimo filme de luta estrelado pelo Jai White ainda tirei o atraso com o filme Hill, que é obrigatório para os fãs do sujeito.

Ambos os filmes se passam em prisões e envolvem lutas “profissionais” entre os encarcerados, mas o resultado de cada é bem diferente um do outro. UNDISPUTED é puro Walter Hill! Cinema classudo, sério, focado em personagens bem talhados e com direção extremamente segura. Temos Wesley Snipes na pele de Monroe Hutchen, campeão de boxe de Sweetwater, uma prisão de segurança máxima que promove legalmente lutas entre presos. Ving Rhames é George Iceman Chambers, o campeão mundial dos pesos …

OS BÁRBAROS (The Barbarians, 1987)

Daquela listinha de filmes de fantasia, Sword and Sorcerer, que eu postei outro dia, um dos exemplares que causou mais alvoroço foi OS BARBAROS. Alguns amigos acharam engraçado por eu ter lembrado desse filme que passou milhares de vezes no Cinema em Casa do SBT. E como estamos falando de um trabalho do italiano Ruggero Deodato, nada melhor que ressaltar como era bom ter doze anos e poder conferir às tardes da TV brasileira nos anos 90 um filme com bastante sangue, membros decepados e peitos de fora. Algo impossível para um moleque atualmente, que tem de se contentar com os filmes de animais falantes que empesteiam diariamente a programação… Neste fim de ano, meus votos de um grande pau no c@#$% do politicamente correto.

De todo modo, OS BÁRBAROS é uma porcaria. Fui rever essa semana para escrever para o blog e, putz, acreditem, é a coisa mais ridícula do mundo. Ainda bem que já sou vacinado contra tralhas desse tipo e encontro tantos elementos engraçados que fica impossível não sair…

OS IRMÃOS KICKBOXERS, aka BLOOD BROTHERS (1990)

Também conhecido como NO RETREAT, NO SURRENDER 3 em alguns países. Não é tão espetacular quanto o segundo, mas é um veículo divertidíssimo que serve de vitrine para que Loren Avedon e Keith Vitali (os irmãos do título) demonstrem suas habilidades em artes marciais em sequências alucinantes de pancadaria! Até hoje me lembro quando eu era um moleque de oito ou nove anos pegando a fita da Top Tape na locadora com meu irmão mais novo. Passamos o fim de semana inteiro assistindo repetidas vezes este que foi o meu primeiro “kickboxer movie”.


Na trama, os dois personagens não vão muito com a cara do outro. Avedon é um professor de kickboxer que dirige um fusca, enquanto Vitali ganha a vida como policial respeitado, seguindo os passos de seu pai. Ambos lutam pra cacete! Para resumir o enredo, uma tragédia na família acontece (leia-se alguém é assassinado) e acaba sendo o motivo de reaproximação dos irmãos, que deixam as diferenças de lado e juntam forças para fazer exatamente aquilo que se …