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NÃO TOQUE NO MACHADO (2007), Jacques Rivette


Precisava me iniciar em Jacques Rivette de alguma maneira, então resolvi começar de trás pra frente. NÃO TOQUE NO MACHADO é lindo, uma escolha acertadíssima e foi o último filme do diretor, que fará 81 anos em breve. Engraçado como o cinema francês atual anda um pouco carente de diretores novatos com a mesma força desses velhinhos que ainda teimam em fazer filmes. Obviamente há, mas são poucos. A grande maioria não consegue alcançar a qualidade de um Chabrol, Rohmer ou Resnais, levando em consideração seus últimos filmes. E o Rivette aqui para dar mais credibilidade à teoria.

NÃO TOQUE NO MACHADO é a adaptação de “A Duquesa de Langeais”, escrito por Balzac, e apresenta o general francês Armand de Montriveau que se encontra numa ilha espanhola com a missão de restaurar o Rei Ferdinando VII ao trono, já que após a queda de Napoleão Bonaparte, a Espanha volta-se para os braços da França (se quiser saber mais, vai ler um livro de história!). Tudo balela, já que o verdadeiro objetivo de Armand é curar a dor de cotovelo que tanto lhe angustia.

O fato é que o sujeito procura um amor antigo, sofrido e perdido devido às lúdicas brincadeiras emocionais que os pombinhos propuseram cinco anos antes. Coincidência, porém, a mulher se encontra na mesma ilha. Tornara-se freira e vive agora trancafiada num convento. O reencontro é um desastre, daí somos levados há cinco anos antes para esclarecer essa situação mal resolvida, essa relação conturbada e entender melhor estes personagens, até o momento, tão fechados.

E é praticamente neste flashback que acompanhamos o restante do filme que se resume num verdadeiro duelo emocional e psicológico estabelecendo um paralelo teatral cuja força concentra-se muito na capacidade performática de Guillaume Depardieu (filho do ator Gerard Depardieu; faleceu no ano passado e, curiosamente, tinha uma perna amputada, assim como seu personagem nos textos de Balzac) e Jeanne Balibar. Os dois estão sublimes e contribuem com 50% da essência da obra. O elenco ainda conta com o grande Michel Piccoli e uma ponta do diretor Barbet Schroeder.

Os outros 50% são de Rivette que faz o papel de observador com uma câmera que flui suavemente em movimentos elegantes pelos ambientes exuberantes compondo planos extremamente simples e belos visualmente (a direção de arte e figurinos também ajudam um bocado). A narrativa transcorre basicamente em ambientes fechados e iluminados por velas. E ainda há a genial valorização da encenação, da mise-en-scène, que estabelece uma dinâmica muito mais interessante do que aparenta, já que muita gente deve estar pensando que NÃO TOQUE NO MACHADO se trata apenas de mais um filme chato de conversa.

Na verdade é, mas com muito estilo, maravilhosamente bem filmado com uma simplicidade e maturidade de um verdadeiro mestre do cinema. Quero só ver o que vai sobrar dos franceses quando esses velhos passarem desta pra melhor...

Comentários

  1. O meu primeiro Rivette foi "Va Savoir". Experimenta, é muito bom!

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  2. Não vi nenhum do Rivette.
    Só sei que vai sair um novo filme dele esse ano. Talvez passe em Cannes. Aliás, quanto filme bom que vai passar nesse festival hein?
    Esse filme do Rivette parece ser muito bom.

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  3. Tive sorte com o meu primeiro Rivette: vi no cinema o glorioso A BELA INTRIGANTE.

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