5.7.09

FÚRIA MORTAL (Out of Justice, 1991), de John Flynn

Eu cresci assistido aos filmes do Seagal, incrível eu nunca ter visto justamente este aqui, provavelmente seu melhor filme! Mas vamos ser sinceros, né? Steven Seagal nunca foi exatamente um ator de verdade. Ele parece mais interessado em utilizar o cinema como veículo de divulgação de mensagens ecológicas e sociais sem profundidade alguma e aproveita que sabe muito de porrada para disfarçar tudo isso em filmes de ação que enchem os olhos dos adolescentes, como foi o meu caso. Claro que depois de uma certa idade eu percebei que a maioria de seus filmes não passam de besteiras, ainda que eu me lembre de alguns bem divertidos, como A FORÇA EM ALERTA...

Mas OUT OF JUSTICE é o tipo de filme que seria bom independente de quem fosse o protagonista, levando em conta outros atores de filmes de ação do fim dos anos 80 e inicio dos 90 (fico pensando como ficaria se estrelado por um Bruce Willis), mas calhou de ser o Seagal. E afirmo isso mesmo correndo o risco de alguém contestar: “mas outro ator não saberia lutar como ele”. Ok, mas quantos outros filmes de ação têm ótimas seqüências de luta sem que os atores tenham, sequer, noção de como aplicar um golpe? O Seagal no elenco é apenas um brinde pra quem gosta de artes marciais.

Na verdade, o ponto principal que favorece OUT OF JUSTCE é ter um mestre do cinema americano de ação conduzindo a bagaça. Estou falando do John Flynn, diretor subestimado de filmes como THE OUTFIT, ROLLING THUNDER e BEST SELLER, autênticas aulas de cinema que devem valer muito mais que alguns semestres de uma faculdade de cinema em qualquer instituição no Brasil. E aqui não é diferente. Pode-se considerar um filme menor do diretor, que já trabalhou com Robert Ryan, Robert Duvall, Tommy Lee Jones, James Woods e vários outros, mas o pulso firme para orquestrar alguns momentos são dignos de nota.

A simplicidade do enredo sem frescura também ajuda. Claro que aquelas mensagens de bom moço do Steven Seagal prevalecem algumas vezes, jogando na cara como ele é um sujeito integro, ético e bondoso com os animais, mesmo interpretando um policial casca grossa em busca de vingança, mas nada que perturbe a paz de quem está assistindo (contanto que ele não deixe de matar os caras maus com tiro na cara, não vejo problema algum). Seagal interpreta o policial nova-iorquino, descendente de italianos, Gino Felino (putz, mas que nomezinho cretino também) que após a morte de seu parceiro, Bobby, resolve fazer justiça com as próprias mãos (pedindo ao seu superior apenas uma espingarda e um tempinho pra realizar a tarefa).

O cenário da jornada é o submundo do Brooklyn. Gino cresceu no local, rodeado de gangsteres, e conhece todo mundo, inclusive o assassino de seu parceiro, Richie, interpretado por William Forsythe com a máxima personificação do mal. O sujeito é tão impulsivo, que logo após matar Bobby à sangue frio, atira na cabeça de uma senhora em pleno trânsito, pelo simples motivo de carros congestionados. E se para o sucesso de um bom filme ação um dos elementos é a criação de um bom vilão, então temos aqui um belo exemplar e Forsythe desempenha seu ofício com extrema perfeição.

Só que Richie não conta com a ajuda de ninguém nas ruas, a não ser alguns capangas. O sujeito é drogado, maluco e quer entrar para o crime organizado, mas com as atitudes que eu citei ali em cima e até a suposição da policia de que já esteja ligado ao crime organizado, faz com que até a máfia queira sua cabeça numa bandeja. E ainda há a própria policia comum que quer prendê-lo pelos crimes, com toda burocracia que envolve os processos de prisão, algo que Gino não quer de jeito algum.

Gino então possui dois problemas em sua missão: a) encontrar Richie antes da máfia e da policia, para que possa aplicar sua vingança com tranquilidade. Mas Richie está desaparecido e é meio complicado encontrá-lo. Pelo menos para quem está procurando, porque o facínora está sempre nos lugares mais óbvios. b) O roteiro ainda acrescenta novas idéias para deixar a trama ainda mais complexa (praticamente no patamar de um Tarkovsky). Gino cresceu no mesmo bairro de Richie e considera o pai deste seu segundo pai, e isso gera um conflito psicológico que bota Gino para esquentar os miolos, embora Steven Seagal, que é ator de alto nível, consiga manter a pose sem modificar a expressão (talvez algum músculo da parte inferior do queixo tenha contraído com mais força quando a mãe pede para não matar o seu filho).

Atuação por atuação, vamos ficar com o Forsythe que entra para uma galeria de vilões mais interessantes do cinema (?). Não, melhor não generalizar tanto. O cara é ótimo ator, seu personagem mata com a mesma facilidade que o ato de respirar, mas não é para tanto. Mas, sem dúvida, merece um destaque.

Assim como o Seagal não chega nem aos pés de Fosythe em termos de construção dramática na arte de interpretar, pelo menos se sai bem nas cenas de luta. Ah, nisso o cara é demais! E o Flynn se aproveita disso magnificamente em duas cenas especiais. A primeira é logo após uma perseguição de carro em alta velocidade que acaba dentro de um açougue onde Gino arrebenta uns cinco sujeitos utilizando objetos dos mais inusitados – dos quais deve ter aprendido no aprofundamento de sua arte marcial no Japão – uma linguiça, por exemplo. Outra cena muito boa é a do bar com as mesas de sinuca, uma das melhores seqüências de luta que o Seagal protagonizou.

Se você é fã de carteirinha de Steven Seagal e o acompanha hoje em dia com seus filmes mais recentes, ainda quebrando a cara de vagabundos, mesmo com a barriguinha saliente que adquiriu ao longo da idade, então OUT OF JUSTICE é feito para você (se bem que, para quem ainda o acompanha, este aqui, com certeza, já deve ter visto). Com uma história simples, curta, mas muita diversão garantida com boa dose de violência, Seagal distribuindo tiros, porradas e frases politicamente corretas, além de contar com direção de John Flynn, é indiscutivelmente um filme imperdível.

11 comentários:

  1. Me diverti vendo Força em Alerta, não esqueço a cena da Erika Eleniak saltando semi-nua de um bolo gigante hehehe!
    Tem um outro com a Sharon Stone no começo de carreira. Creio que são os únicos que vi do Seagal, mas foram bons passatempos.
    Abraço!

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  2. Esse com a Sharon Stone é o Nico - Acima da Lei, Sérgio, primeiro filme do Seagal. Vou escrever sobre ele daqui uns dias.
    Abraço!

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  3. Isso mesmo, Nico - Acima da Lei. Esse e o Força em Alerta foram dirigidos pelo Andrew Davis, não é mesmo? Era um bom diretor de filmes de ação, mas parece que sumiu.

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  4. Exatamente! Ele fez algumas coisas interessantes mesmo, dirigiu Chuck Norris, fez The Package, com o Gene Hackman, mas depois de O Fugitivo, entrou em decadência, pelo visto... não vi muita coisa dele depois, mas o que vi eram porcarias. Um dos que não vi foi o Collateral Damage, com o Arnoldão... será que presta?

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  5. Só a cena da porrada na sinuca já vale o filme. Seagal é ignorância pura nessa hora! Ah... bons tempos da "América Vídeo"!

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  6. Eu vi esse Collateral Damage. É uma grande porcaria :(

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  7. Esse filme é do caralho. Assim como Nico. A famosa cena da sinuca, suspeito que tenha participação do Don Inosanto na coreografia. O Inosanto interpreta um dos marginais que apanha do Seagal, mas na vida real o cara é mestre em artes marciais e foi o aluno mais brilhante do Bruce Lee.

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  8. Com certeza ele deu umas dicas... hehe

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  9. Seagal é divertido sim,lembro de um filme que ele derruba um helicoptero com 3 tiros de revólver, ou algo assim.

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  10. Essedeve ser o único filme do Seagal q eu realmente tenho vontade de ver. Flynn foi um gênio subestimado a vida toda.

    E a cena da Erika Eleniak saindo do bolo em Força em Alerta é inesquecível! Meu Deus do céu, q tetas!

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  11. Ah, se todo Tarkovsky fosse um OUT OF JUSTICE...

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