18.7.09

A BUCKET OF BLOOD (1959) & PREMATURE BURIAL (1962), de Roger Corman

No post anterior, antes do top 10 oscarizados, eu escrevi sobre um filme que o grande mestre dos filmes B's americano, Roger Corman, produziu para um dos seus incontáveis pupilos, Jim Wynorsky. Mas acabei me lembrando que nos últimos dias eu assisti a estes dois ótimos filmes que o sujeito trabalhou diretamente atrás das câmeras, sentado na cadeira de diretor.

O primeiro foi A BUCKET OF BLOOD, uma pequena obra prima; dos melhores filmes do Corman que eu já tive o prazer de assistir. Trata-se de uma comédia de humor negro inteligente numa trama de terror, muito bem elaborada para o tipo de produção, e conta com a presença de Dick Miller, o eterno coadjuvante de centenas de filmes, vivendo aqui o seu grande momento como protagonista.

Miller interpreta Walter Paisley, um infeliz garçom do bar The Yellow Door, local onde frequentemente se reúnem músicos, poetas, escritores, artistas de baixa categoria, mas que se acham o máximo, a nata cultural. O próprio Paisley os considera seres geniais e nutre o desejo de se tornar um artista famoso, respeitado, ser exatamente como aqueles pseudos-intelectuais a sua volta que ele tanto admira.

Na busca pelo reconhecimento artístico, Paisley consegue chamar a atenção do grupo quando aparece com uma escultura de argila com o formato de um gato morto. O que acontece, na verdade, é que ele matou, involuntariamente, o gato do vizinho e teve a idéia de revesti-lo com argila. A obra é um sucesso, mas para manter o status conquistado, Paisley terá que continuar criando e mostrando outras obras. O problema é quando sugerem que ele faça figuras humanas... e em tamanho real... creio que já deu pra sacar qual é do filme, né?

A BUCKET OF BLOOD marcou um ponto alto na carreira de Roger Corman. Não chegou a ser um estrondoso sucesso comercial, mas teve um feito duradouro e influente no gênero do horror em alguns elementos. Poderíamos até dizer que o filme é um dos precursores do subgênero Slasher, quase vinte anos antes de HALLOWEEN. O personagem de Dick Miller, que está magnífico, um dos primeiros e mais memoráveis serial killer’s do estilo.

A direção do Corman é, no mínimo, uma aula de como realizar um grande filme com tão pouco. O público nunca sente que está diante de uma produção de baixo orçamento, filmado na correria habitual dos pequenos estúdios de onde saiam vários filmes B em um curto espaço de tempo. Corman filma apenas o essencial, cada plano, corte, sequencia, não poderia ter ficado melhor do que aquilo que é visto na tela. Sem dúvida, um dos filmes mais divertidos que vi nos últimos tempos.

O outro foi PREMATURE BURIAL. Filmado à cores, é um trabalho mais sério do diretor, com uma fotografia caprichada, carregada de elementos atmosféricos e tons fortes bem ao estilo que o Mario Bava fazia em seus filmes nos anos 60, como em BLACK SABBATH, KILL BABY KILL, THE WHIP AND THE BODY, etc.

Baseando-se em mais uma obra de um dos meus escritores favoritos, Edgar Allan Poe – li, recentemente, O RELATO DE ARTHUR GORDON PYNN, que é um dos relatos mais geniais do sujeito – Corman aposta desta vez num terror psicológico, cuja trama apresenta Ray Milland, ao invés de Vincent Price, seu colaborador habitual em adaptações de Poe, interpretando um pintor que tem pavor da situação de ser enterrado vivo por engano.

PREMATURE BURIAL é bacana e também demonstra a desenvoltura de Corman na direção de produções com orçamentos apertados, além do resultado da beleza visual e atmosférica que consegue alcançar. Mas o grande deleite está na presença de Milland, um ator soberbo que ganhou um oscar pelo seu desempenho em FARRAPO HUMANO, de Billy Wilder, mas depois, não me pergunte como, acabou parando nos sets de produções de filmes B. Sua performance aqui é extraordinária e já paga o ingresso.

Os dois filmes, A BUCKET OF BLOOD e este aqui, são perfeitos para um double feature do diretor. São curtos, divertidos, provam o talento do sujeito em duas vertentes e estilo visuais diferenciados, uma maravilha! Apenas com a ressalva de que A BUCKET OF BLOOD é bem superior, marcante, um clássico do terror/humor, enquanto PREMATURE BURIAL é apenas mais um filme da série de adaptações de Poe, mas em se tratando de Roger Corman, é diversão garantida de qualquer jeito.

17 comentários:

  1. Realmente, diversão garantida. Acabei de ver meu primeiro dele, A Pequena Loja de Horrores.

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  2. A Pequena loja também é muito legal. Mas já faz um bom tempinho que eu vi.

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  3. Tem que ver The Masque of the Red Death, Ronald seu fdp. Veja!

    Fotografia do Roeg, mano.

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  4. Vou ver, sujeito! Já estou com ele aqui!

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  5. Na minha humilde opinião, Corman é o cara mais genial do cinema americano. Insuperável.

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  6. Não vi "Bucket of Blood", mas "Premature Burial" é ótimo. Cara, pra mim é essencial ver o ciclo de "Filmes de Poe" de Corman para entender por que ele é tão foda. Eu achava que o sujeito era só um picareta com impressionante capacidade de gerar lucro com pouco investimento até ver esses filmes e perceber o verdadeiro potencial artístico do homem.

    Dito isto, acho o "Premature" o mais fraco dos filmes de Poe dirigido por Corman. Visto de um modo geral, é um gótico de primeira, mas comparado aos outros, sempre achei que o filme pecava por ter um protagonista atormentado por uma neurose meio idiota. Em "House of Usher", você tem um Roderick Usher atormentado por uma suposta maldição da família, mas até que dá pra entender - os Usher tinham realmente um galeria de almas sebosas e psicopatas escrotos na árvore genealógica. Em "Pit and the Pendulum", a mesma coisa: o Medina é filho de um dos inquisidores mais tenebrosas da Espanha e viu, quando criança, o tio e a mãe serem torturados e a última ser emparedada viva. Já em "Premature Burial"... putz, o cara SUSPEITA que o pai sofria de catalepsia e foi enterrado vivo (sem nenhum fundamento concreto, diga-se de passagem) e, com base nessa desconfiança sem pé nem cabeça, acredita que também sofre de catalepsia e que, fatalmente, será enterrado vivo. E é essa nóia sem lógica que leva o cara a se isolar do convívio social e dispensar uma noiva gata pra caramba e (ao que tudo indica) totalmente apaixonada por ele. Meio difícil não achar que o protagonista é meio tapado. Ainda assim, é um filme do gênero acima da média e tem uma riqueza visual do mesmo calibre dos góticos da Hammer e dos italianos como Bava, Margheritti e Fredda.

    E Perrone, o Kevin tem razão. Tu tens que ver "Masque of Red Death". O filme é muito fuderoso. Acho que o Prospero é o melhor vilão de Price depois do Matthew Hopkins.

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  7. Grande Kurt. Concordo plenamente com você. Tanto que eu nem quis entrar em detalhes, porque é incrível como o Corman consegue criar e desenvolver um filme inteiro com uma premissa tão boba, e ainda camuflar tudo isso com num suspense psicológico de primeira com um visual magnífico.

    Acho que o mérito é maior ainda do Milland, que pega um personagem estúpido e infantil e entrega uma atuação impecável, densa e faz com que acreditemos que aquelas frescuras do personagem, que merece um chá de boceta pra tomar vergonha na cara (já que nem a noiva ele consegue comer por causa das neuras), seja, realmente, um caso sério a ser cuidadosamente observado, refletido... Grande ator esse cabra.

    Como eu disse ao Kevin, já estou com o Masque of Red Death e pretendo vê-lo o mais rápido possível.

    E mando o mesmo recado pra ti, tu tens que ver A Bucket of Blood e fazer uma resenha gigantesca sobre ele.

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  8. Tens razão quanto ao Milland - ele encarna o papel com tanto convicção que você só pára para refletir sobre a babaquice do personagem depois de ver o filme; durante o filme, a primeira vez que vi, nada disso me ocorreu. O mesmo empenho dá pra perceber em outro filme (muito melhor, em minha opinião) que ele fez pra AIP, "X: The Man with the X-Ray Eyes".

    O que eu sempre admiro nos filmes góticos da AIP e da Hammer é isso: mesmo que a premissa fosse sumamente tapada, você sempre sentia que os atores (bom, a maioria deles) sempre interpretava com o mesmo empenho que empregaria numa peça de Shakespeare. Nunca ficava a sensação de que o ator fez um trabalho meia-boca porque achava que a obra estava "aquém de seu potencial" e só queria pagar o aluguel. E acho que isso, sim, é "integridade artística" - afinal, "aquém dos talentos" ou não, os caras estavam sendo pagos para interpretar (um ator que até hoje segue essa essa filosofia é o Sir Michael Caine - a resposta dele sobre "Tubarão: A Vingança" é impagável). E creio que é por isso que, apesar de todos os filmes porcaria de que já participou, ele continua sendo respeitado como "o grande ator britânico Michael Caine". O que até hoje não engulo é como tantos atores desse calibre (outros exemplo são Joseph Cotten e Richard Johnson) terminaram a carreira fazendo filmes "B". Por mim, ótimo - fico muito feliz vendo "Baron Blood", "A Ilha dos Homens-Peixe", "Zombie" ou "Premature Burial" com atores desse naipe. Mas a verdade é que eles estavam, para os padrões de Hollywood, mendigando, enquanto manés com Ryan O'Neal eram vistos como "grandes promessas".

    E depois dessa, meu caro, com certeza vou ver A Bucket of Blood.

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  9. Nada a ver com o filme de Corman (que eu não vi), mas ontem estava vendo um episódio de THE SOPRANOS e a filha do Tony e o namorado entram num cinema de N.Y. pra assistir DEMENTIA 13. Claro que lembrei do seu blog. :)

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  10. Mas tem a ver com o post, Ailton. Dementia 13 foi produzido pelo Corman, hehe

    Valeu a lembrança! =)

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  11. O Milland além de bom ator também foi bom diretor: Um Homem Solitário e Pânico no Ano Zero são ótimos!

    E Bucket of Blood e Premature Burial são excelentes exemplos da maestria do Corman no baixo orçamento.

    Um abraço!

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  12. Acho The Pit and The Pendulum e The Raven sofrem por causa do roteiro.
    Coisa que eu acho que The Tomb of Ligeia e Masque of the Red Death não sofrem.

    Vou pegar Bucket of Blood e The Haunted Palace, quero ver Corman com Lovecraft nas mãos e claro, Price no elenco.

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  13. Melhor vilão do Price é o Dr,Phibes! Imabtivel!

    ARE YOU READY FOR DR.PHIBES?
    HUMMM?

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  14. Dr. Phibes com certeza é fodástico.

    Mas Matthew Hopkins e Próspero são melhores. Phibes convence como um vilão de filme; os outros dois convencem como vilões que podiam existir na vida real (e um deles existiu).

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  15. O ciclo de filmes realizados por Roger Corman baseado livremente em Poe (mas também em HP Lovecraft), para mim, é sua grande obra prima. Todos com Vincent Price, exceto, claro, Premature Burial. Deste ciclo da AIP destaco 'The Mask of Rede Death'. Abraços

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  16. Tem um episódio do Arquivo-X que tem mais ou menos essa temática, provavelmente seja por causa desse filme (já homenageaream The Thing também). Vou procurar 'Bucket' pra ver.

    Saudações tricolores!

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  17. Oiii, td bom? Vim conhecer sua pequena bagaceira! Hushueheuhee

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