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BULLET TO THE HEAD (2012)


BULLET TO THE HEAD é exatamente o que eu estava esperando. Simples, violento, objetivo e sem frescuras. E, de algum modo, um retorno aos velhos tempos dos filmes de ação casca-grossa. Baseado numa história em quadrinhos, marca o retorno de Walter Hill à cadeira de diretor para um trabalho feito pra cinema e tem Sylvester Stallone como Jimmy Bobo, um assassino profissional em busca de vingança. Mas isso vocês já estão carecas de saber pelas sinopses e trailers que rolam por aí. O que vocês realmente precisam saber é que Stallone passa o filme inteiro esmurrando, explodindo e atirando na cabeça de bandido, mesmo os desarmados, na covardia, e sem qualquer remorso! E nem passa pela cabeça do sujeito o chato clichê da crise de consciência por causa do seu tipo de trabalho e modo de vida. “Buah! preciso sair dessa vida de matança”, como dizem os pseudos action heroes desta geração politicamente correta.

E Stallone está perfeito por aqui. Chega até emocionar vê-lo construindo um personagem carismático, engraçado e badass, para entrar na sua galeria de papéis marcantes, como Rocky, Rambo, Marion Cobretti e outros. O Barney Ross, de MERCENÁRIOS, por exemplo, que eu adoro, parece uma compilação de um monte de personalidades que o Stallone já interpretou, inclusive a dele própria. Jimmy Bobo é algo novo na carreira do Sly, que parece ter se divertido bastante ao encarnar um assassino sangue frio e sarcástico ao extremo. Sem contar que na sua idade atual entram alguns conflitos pelo fato de ser um dinossauro anacrônico diante do mundo moderno, da mesma maneira que o Schwarzenegger de xerife em THE LAST STAND...


Acho até que acertaram na escolha de substituir Aaron Eckhart pelo Sung Kang, que não é lá tão conhecido. Eckhart tem personalidade e presença, tiraria um pouco o foco do Stallone. Kang é apenas um bom acompanhamento. Um contraponto interessante do protagonista, até pelo fato de ser um policial que faz parceria com um assassino, apesar de não ser daqueles coadjuvantes cools, como Brandon Lee em MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, ou Steve James em AMERICAN NINJA. Dá uns tiros e aplica umas artes marciais em dois ou três meliantes, além de sempre descobrir umas coisas relevantes para o caso que investigam através de celular, algo que desnorteia um pouco o Jimmy, que não é muito ligado à tecnologia... Mas o resto do filme é Stallone em ação puríssimo! Apesar disso, a química entre os dois é ótima e Kang não se torna nunca pedante. Algumas das melhores sequências de BULLET TO THE HEAD são justamente aquelas que os dois dialogam, trocam desaforos e piadinhas, lembrando os bons e velhos buddy movies dos anos 70 e 80. Gosto de uma cena em que o personagem de Kang pergunta a Jimmy Bobo quem é a mãe de sua filha. O sujeito responde que ela era "uma puta drogada que morreu há quinze anos". E pronto, só essa frase basta para destroçar mais de uma década de cinema de ação hollywoodiano politicamente correto (com as raras exceções).


No elenco ainda temos Christian Slater, num pequeno papel de advogado do vilão. E é bacana poder vê-lo na telona. É desses atores que em algum momento deixou a carreira desandar e foi parar em produções direct to video, como o Cuba Gooding Jr. e o Val Kilmer. Temos também Adewale Akinnuoye-Agbaje encarnando um vilão inescrupuloso e Jason Momoa, seu principal capanga responsável pelos serviços sujos. Pausa para falar do Momoa. Tomei certa antipatia pelo sujeito depois da refilmagem de CONAN, mas ele está perdoado por este papel em BULLET TO THE HEAD (e também pelo GAME OF THRONES, que nunca acompanhei, mas já cheguei a ver alguns episódios). Momoa faz aqui o típico vilão old school, que se fosse nos anos 80, seria interpretado por um Vernon Wells ou Brian Thompson. Um mercenário filho da puta que realiza seus serviços pelo prazer de matar e não pelo dinheiro que entra na conta. E ainda contracena com Stallone uma luta de machados que, putz, é de encher os olhos de qualquer fã de "cinema de macho". Para finalizar, apresentando Sara Shahi, uma belezinha tatuada que encarna a filha do Stallone. E podem comemorar, é possível ver algumas tattoos, digamos, mais intimas da moça...


Sobre a direção do Hill, que substituiu o Wayne Kramer (desistiu por diferenças de opiniões entre o Stallone), é preciso apontar algumas coisas. Definitivamente dá para perceber o estilo do homem impresso no modo de filmar a cidade, no excelente domínio na direção de atores, a maneira de trabalhar os elementos do gênero com a essência dos anos 80, etc... Mas de vez em quando parece que estamos diante de um direct to video mais classudo, mais elegante. Há até alguns efeitos moderninhos de pós produção que eu nunca pensei em ver num filme de um sujeito do calibre do Hill. Não chega a incomodar, mas poderia ser evitado.

Em termos de ação, o sujeito ainda manda muito bem. Só não esperem algo tão old school, com o charme de um EXTREME PREJUDICE, INFERNO VERMELHO ou 48 HORAS. Em vários momentos Hill chacoalha a câmera, picota na edição, especialmente em cenas de luta, o que não quer dizer que seja mal feito, pelo contrário, é tudo muito bem orquestrado por alguém que conhece profundamente a gramática do cinema de ação. E mesmo adotando esses artifícios modernos, o diretor demonstra que é possível fazer ação de qualidade nos nossos dias.

Tenho lido algumas resenhas gringas depois de conferir e confesso que não esperava encontrar tantas críticas negativas, dizendo que o roteiro faz juz ao segundo nome do protagonista (na verdade, é Bonomo, Bobo é um apelido carinhoso que o personagem possui). Será que só eu fiquei empolgado? Ok, o roteiro não é nenhum primor e possui alguns furos. Mas a quantidade de Stallone dando tiro na cabeça de bandidos compensou qualquer equívoco pra mim. Comparado ao vasto número de obras primas que o gênero concebeu nos anos 70 e 80, BULLET TO THE HEAD não deixa de ser mesmo apenas um filme genérico, uma gota no oceano de truculência fílmica, que ora remete ao cinema de ação daquele período, ora parece que realmente estamos vendo um exemplar da época. Agora, dentro do panorama atual, é um frescor, objeto de rara honestidade, um baita filmaço de ação.

Comentários

  1. Engraçado que a tradução do título original seria igual ao título de um dos filmes de John Woo, Bala na Cabeça. A porca tradução que o filme com o Stallone recebeu, Alvo Duplo, é outro filme do Woo.

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  2. Achei sensasional Ronald e as críticas negativas só podem ter vindo de pessoas que "entraram no cinema errado". Agora quem conhece a filmgrafia do Walter Hill e cinema físico em geral, só tem a agradecer por um dos filmes mais bad-ass e old-school dos últimos anos.

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