11.7.10

COMANDO DELTA (The Delta Force, 1986), de Menahem Golan

Em tempos pós 11 de setembro de 2001, dificilmente veremos um filme novo utilizando terroristas árabes que sequestram um avião cheio de americanos como forma de entretenimento. Não quero iniciar discussões políticas, mas houve uma época que isso era muito comum. COMANDO DELTA, estrelado por dois machões do cinema de diferentes gerações, Lee Marvin e Chuck Norris, é um ótimo exemplo. Eu costumava assistir a esta belezinha diversas vezes quando era criança. Pra ser sincero, eu fui batizado com este tipo de filme... Saudades da boa época da TV aberta... mas foi uma experiência interessante revê-lo depois de tantos anos.

Já não me lembrava de muita coisa da trama, a não ser algumas sequências de ação lá do final, que era o que prendia minha atenção, mas ainda vamos chegar lá. A idéia para COMANDO DELTA do Sr. Menahem Golan, o grande nome por trás da extinta Cannon, é muito boa. Uma combinação bem divertida de filme de sequestro de avião com o cinema de ação exagerado dos anos 80, cuja representação encontra força no personagem de Chuck.

O enredo se resume a um avião que parte para os Estados Unidos e é seqüestrado por dois terroristas libaneses. Ao mesmo tempo, é acionado um esquadrão de elite para casos de sequestros, liderado por Lee Marvin, que parte ao encontro da situação para resolvê-la a qualquer custo, nem que seja à base de tiro de bazuca!

A primeira hora do filme se concentra no seqüestro, toda a sua burocracia e uma dose acima da média de dramaticidade para este tipo de filme. Que porcaria de filme de ação oitentista é esse em que os tiroteios e explosões só iniciam depois de uma hora? Dá pra acompanhar tranquilamente, mas não deixa de ser truncado demais. O bom é que quando a ação começa, segue frenética até o fim! Além disso, a bordo do avião temos de tudo um pouco para a alegria daqueles que adoram um clichezão: crianças choronas, uma mulher grávida, freiras suplicantes, um padre, a vítima indefesa que é espancada e até a aeromoça valentona. Mas o destaque mesmo fica por conta do elenco que desfila diante da tela. E isso me surpreendeu bastante, pois não lembrava dessa seleção de atores.

O piloto do avião é ninguém menos que Bo Svenson. Não seria uma surpresa pra mim se ele levantasse da cadeira e resolvesse a situação por conta própria, como um homem de ação que sempre foi, mas ele satisfaz apenas como comandante de vôo mesmo. George Kennedy é o padre; Martin Balsan e Shelley Winters vivem um casal de judeus e Robert Forster tem a complicada missão de tentar convencer o público que é um terrorista libanês!!! E até consegue bons resultados. Fora do avião, Robert Vaugh aparece discretamente como homem do governo e Steve James é um dos integrantes do esquadrão.

Lee Marvin tem aqui a sua última atuação. É até um pouco melancólico pra mim, vê-lo nesse personagem, porque além de ser o meu ator favorito, talvez tenha notado em sua honesta interpretação o arrependimento em estar terminando sua carreira numa produção B de ação que não se leva a sério. Claro que ele é um dos elementos essenciais de COMANDO DELTA e eu adoro o filme, mas pra ele que esteve sob a direção de grandes nomes como Fritz Lang, Sam Fuller, Robert Aldrich, John Boorman, Yves Boisset e muitos outros, não sei se ele estava lá muito satisfeito com isso. Os outros atores mais velhos como Balsan e Kennedy estavam ali pra se divertir e pegar um cheque para garantir que as contas do mês fossem pagas.

Assim como a ação final, outro detalhe praticamente ininterrupto é a trilha sonora patriótica de Alan Silvestre. Anos 80 puríssimo, embora fosse bem melhor aproveitada como música de abertura de programa esportivo, mas dá aquele tom tosco que o filme precisa pra divertir ainda mais os assíduos fãs deste tipo de produção.

Mas o melhor de COMANDO DELTA fica por conta mesmo de Chuck Norris, quando lá pelas tantas o filme se transforma num autêntico exemplar de ação desenfreada! E o ator fica muito mais à vontade para demonstrar todo seu talento e desenvoltura soltando frases de efeito, metralhando bandidos e fazendo pose ao mesmo tempo, distribuindo pancadas em terroristas, etc. Uma cena muito boa é a perseguição em alta velocidade pelas ruas de Beirute. Norris demonstrando boa pontaria dentro de uma combi em movimento, enquanto seus perseguidores aparentemente não conseguiriam acertá-lo nem se ele estivesse sentado no colo deles. Na sequência final o sujeito esbanja criatividade em cima de uma moto cheia de parafernálias bélicas, como metralhadoras e lança mísseis. Os terroristas devem ter pesadelos com Chuck Norris até hoje... aqueles que sobrviveram.

Mas vamos ser francos, o esquadrão Delta Force na verdade é bem problemático. O filme abre com uma missão fracassada e termina com o grupo especial triste por um dos integrantes ter perdido a vida em ação, embora os reféns do avião tenham sido libertados. No meio do filme, o próprio Lee Marvin põe tudo a perder atrapalhando uma movimentação para invadir enquanto o avião era abastecido em terra. Lógico que havia um motivo para a trapalhada, mas isso acarretou na morte de um dos reféns. Na hora de entrar em ação, os caras mandam bem, mas um pouco de organização tática ajudaria a não cometerem tantos erros.

Isso é pra mostrar quem nem tudo na vida é como gente gostaria que fosse, mas nem por isso devemos ficar abalados, não é mesmo? Que lição de moral mais cretina que eu arranjei aqui... Enfim, o esquadrão Delta Force ganhou outro filme poucos anos depois, mesmo com seu modo torto de agir: COMANDO DELTA 2, dirigido por Aaron Norris, irmão caçula de Chuck, agora sem o Lee Marvin no elenco, que morreu um ano depois de ter trabalhado neste aqui. Comentaremos sobre ele depois. Adiós!

9.7.10

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring me the Head of Alfredo Garcia, 1974), de Sam Peckinpah

A distribuidora LUME já ganhou o meu respeito. Lançou recentemente em DVD CRASH, do Cronenberg, e agora vem com TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, a obra prima de Sam Peckinpah e um dos meus filmes favoritos de todos os tempos! E se preparem que vem mais por aí do diretor: o belo western PAT GARRET E BILLY THE KID e o subestimado THE KILLER ELITE. Ainda não tive tempo de colocar pra rodar o DVD de ALFREDO GARCIA, chegou ontem, mas vale a pena relembrar alguns detalhes memoráveis que tornam essa preciosidade uma das razões de existir uma tal arte chamada cinema!

A história de ALFREDO GARCIA começa bem antes das suas filmagens, com seu realizador se tornando famoso, não pelas obras que produzia, mas por um pequeno pormenor envolvendo álcool em excesso e problemas com executivos dos grandes estúdios. Acabou que ninguém mais queria investir numa produção que estivesse nas mãos do diretor maluco beberrão irresponsável. Como todo bom bandido de faroeste, partiu para o México onde realizou este que é o filme mais subversivo, melancólico e visceral de sua filmografia.

Foi no próprio diretor que Warren Oates se inspirou para compor o protagonista, Benny, um pianista americano frustrado que chegou ao fundo do poço numa cidadezinha mexicana e passa as noites tocando um órgão de bar para alegrar turistas. Mas a nossa trama começa em outro cenário, nas terras de um poderoso fazendeiro mexicano que descobre que Alfredo Garcia, um de seus empregados de confiança (que considerava um filho), engravidou sua filha. Puto da vida, o sujeito resolve dar uma gorda recompensa a quem trouxer, vivo ou morto, o pai da criança.

Aí que entra Benny. Em uma noite como outra qualquer, enchendo a cara e tocando alguns sucessos, como Guantanamera, em seu piano no bar, chega até ele um “casalzinho” de senhores arrumados, cabelinhos bem penteados, vestindo blazers com um grau de chiqueza acima do comum e oferecem a Benny uma quantia em dinheiro para que ele encontre Alfredo Garcia sem fazer muitas perguntas. Na situação em que se encontrava, acho que Benny venderia a própria mãe.

Contando com a ajuda da prostituta Elita (por quem o sujeito tem uma atração que vai além dos serviços que ela presta), que sabe do paradeiro de Alfredo Garcia, Benny aceita a missão e parte nessa jornada niilista pelo território mexicano em busca do pobre coitado (que já está morto e enterrado!). E a tensão só vai aumentando à medida que a viagem do casal se transforma num verdadeiro inferno. Após conseguir a cabeça do procurado, com direito a profanação de cova, Benny precisa retornar e não são apenas os caçadores de recompensas que querem botar as mãos no utensílio de Alfredo, mas também a família do pobre infeliz. Benny defende seu apetrecho com unhas e dentes.

Quanto mais ele mata, mais a loucura toma conta do personagem cujo desempenho de Warren Oates está em estado de graça! As cenas em que Benny dirige pelas estradas conversando e resmungando com a cabeça ao seu lado, dentro de um saco rodeado de moscas, além de impagáveis, demonstram todo estado de espírito de um personagem completamente perdido em seus atos!

Quando a violência finalmente explode de uma vez, o impacto é grande. É praticamente impossível desgrudar os olhos da tela. É aí que o diretor se sente mais à vontade para utilizar todos os artifícios pelo qual ganhou notoriedade: tiroteios em câmera lenta, derramamento de sangue e uma edição ousada que cria um resultado estranhamente belo. Não é à toa o apelido de “poeta da violência”.

Temos aqui o que há de melhor no cinema de ação peckinpaniano. Difícil um fã de cinema de ação não ser também admirador do trabalho de Sam Peckinpah. O sujeito praticamente reinventou o gênero com seus westerns e filmes de ação violentíssimos. Mas em ALFREDO GARCIA temos nas entrelinhas o que há de mais pessoal e circunstancial para Peckinpah naquela época. Não era apenas com uma puta direção de tiroteios em câmera lenta ou perseguições de carros alucinantes que ele fisga seu público, ele sabia exatamente como expressar todas suas frustrações, desilusões e visão de mundo com uma câmera. Se tratando então de Peckinpah, esse universo diegético pessimista deixa um estrago considerável.


8.7.10

Enchendo linguiça...

LUZ DA FAMA (Light of Day, 1987), de Paul Schrader

Eu não abandonei a peregrinação da filmografia do Paul Schrader. Mas demorei um pouco pra dar prosseguimento aqui no blog por causa deste filme aqui. Assisti de uma forma meia boca e fica complicado escrever algo sobre ele da maneira que me foi apresentado. O problema é que não consegui uma cópia decente. A única versão que encontrei foi com uma imagem horrorosa, com o áudio sem sincronia e sem legendas em qualquer língua. Como não tive alternativa, o jeito foi encarar assim mesmo e comentar nem que seja em poucas palavras.

É um filme menor do Schrader, mas como sou fã de “filmes menores” me pareceu ser um bom drama familiar sobre um casal de irmãos que possui uma banda de rock no calor dos anos 80 e entram em conflito com a mãe que sofre de uma grave doença (interpretada magnificamente por Gena Rowlands) e com as ideologias impostas pela sociedade e todo discurso que varia disso aí. No roteiro o título seria BORN IN THE USA, mas quando Schrader contratou Bruce Springsteen para escrever a música tema do filme, o cantor gostou tanto do que fez que acabou usando a música em um disco próprio. Para compensar Schrader ele escreveu a bela música Light of Day, que acabou se tonrando o título do filme.

A direção de Shrader é bem segura, mas aparentemente mais modesta visualmente, já que vinha de dois filmaços que surpreendem pela composição estética. Nada que, possivelmente, estrague a diversão, já que a trama não exige nenhum apuro visual e a crueza aparente é perfeita para o filme, mais focado no drama familiar... mas diversão é o que eu não tive assistindo a LIGHT OF DAY, por causa da qualidade da cópia, então prefiro rever em condições decentes antes de falar algo a mais.

Ao menos agora posso dar continuidade à filmografia do sujeito.

3.7.10

UNDISPUTED III: RENDEMPTION (2010), de Isaac Florentine

Faz pouco tempo que fiz uma boa sessão dupla com os dois primeiros filmes da série UNDISPUTED, que chega agora ao seu terceiro capítulo e foi a única coisa que consegui arranjar tempo para ver esta semana! Mas até que valeu a pena.

Relembrando os anteriores, o primeiro era um filme mais sério, dirigido pelo mestre Walter Hill, focado no drama dos dois lutadores, Wesley Snipes e Ving Rhames, numa penitenciária americana. O segundo se passa numa prisão russa e é um pouco mais voltado à ação, dirigido por Isaac Florentine, com Michael Jai White encarnando o papel que pertencia ao Ving no primeiro e a presença de Scott Adkins como vilão, sempre presente nos filmes do diretor.

UNDISPUTED III: RENDEMPTION traz novamente Scott Adkins, desta vez como protagonista, o que não quer dizer que o sujeito tenha amaciado e ficado bonzinho, reprisando o seu Yuri Boyka, lutador russo que foi estraçalhado ao final do segundo filme por Jai White. Mas até que há uma leve mudança de comportamento no personagem para o lado bom, ainda que mentanha o mesmo discurso de se considerar o lutador mais completo do mundo e quer provar isso de qualquer maneira.

Florentine assume novamente a direção e realiza esta terceira parte com mais ênfase na ação que o primeiro e o segundo filme juntos! Adoro o trabalho que ele faz atualmente dentro do cinema independente de ação lançado diretamente no mercado de DVD. São sempre inspirados, violentos e divertem o espectador mais exigente e que curte uma boa pancadaria. Foi assim com THE SHEPHERD, NINJA, UNDISPUTED 2 e agora com este aqui. Preciso ver algumas coisas mais antigas dele, porque é um sujeito pra lá de talentoso que filma cenas de luta com muita desenvoltura (especialmente quando se junta com Adkins, que faz de seus movimentos em sequencias de lutas, um verdadeiro espetáculo), já entrou na minha lista de diretores de ação atual que devem ser obrigatoriamente seguidos!

A trama de UNDISPUTED III se desenrola algum tempo depois do segundo. Boyka tenta recuperar seu prestígio de grande lutador, mesmo com seqüelas deixadas em sua última luta. Após demonstrar que está plenamente de volta, acaba entrando num torneio de luta entre prisões que envolve lutadores encarceirados do mundo inteiro. O vencedor ganha o direito à liberdade... só em filme mesmo... Os bastidores do torneio também é bem explorado, cheio de intrigas, sujeiras entre os realizadores, uma roubalheira descarada!

O mais legal deste filme é o resgate nostálgico feito por Florentine, remetendo algumas característica às fitas de lutas que faziam a alegria da moçada nas décadas de 1980 e 1990, a febre dos kickboxer movies, principalmente as produções estreladas pelo Van Damme, como O GRANDE DRAGÃO BRANCO, LEÃO BRANCO e DESAFIO MORTAL, que passavam exaustivamente na TV. São vários pontos bem clichês, personagens estereotipados, mas deixa sempre aquele charme nostálgico fazer efeito sobre os fãs…

28.6.10

Dica de Blog

Editado por Matheus Ferraz, Fräuleins sem Uniforme é dedicado a um dos subgêneros mais insanos e pertubadores: nazi-exploitation! Não deixem de prestigiar!

26.6.10

THE TOURNAMENT (2009), de Scott Mann

A cada sete anos, em uma cidade diferente, um grupo de jogadores do alto escalão executa apostas numa competição onde os maiores assassinos profissionais do mundo todo se reúnem para matar uns aos outros. Só pode haver um sobrevivente e este recebe um prêmio de dez milhões de dólares. O problema é que depois deste evento, o comércio de assassinatos por encomenda fica carente de bons profissionais, mas isso não é da minha conta.

Com essa premissa apelativa, o título genérico THE TOURNAMENT, Ving Rhames e Robert Carlyle no elenco, não entendi porque o filme não teve lançamento comercial nos cinemas americanos. Chegou a passar em algumas mostras, mas foi lançado direto no mercado em DVD e isso poderia ser mal sinal. A não que fosse intenção dos realizadores, mas estariam perdendo uma boa oportunidade de arrecadar mais.

De qualquer forma, fui sem grandes expectativas, mesmo com a indicação do amigo BLOB, que possui extremo bom gosto e havia gostado deste aqui. Mas uma das coisas que me chamou a atenção logo de cara é a presença de Scott Adkins no elenco, o ator habitual do diretor Isaac Florentine, que nos últimos anos nos brindou com bons filmes de ação casca grossa, como UNDISPUTED 2 e NINJA. O terceiro filme da série UNDISPUTED já tenho em mãos e o amigo Otávio Pereira confirmou que é uma beleza!

THE TOURNAMENT começa muito bem e se impõe como aquele tipo de produção que se você tiver estômago fraco, é melhor trocar de filme! Vá assistir TOMATES VERDES FRITOS. É o final de uma dessas competições, acontecendo aqui no Brasil, Ving Rhames é um dos três ultimos sobreviventes e mesmo sem arma alguma consegue se tornar campeão matando seus oponentes sem piedade e de forma brutal.

Mas a trama principal ocorre sete anos depois, na Inglaterra, quando se inicia um novo torneio. Ving está de volta porque quer se vingar do responsável pela morte da esposa, que é um dos participantes. Só que a estória não gira em torno do personagem de Ving, para minha surpresa. Na verdade, o roteiro desenvolve dois protagonistas: o britânico Robert Carlyle, que vive um padre alcóolatra que acaba entrando acidentalmente no torneio após engolir o dispositivo de localização de um dos participapantes, e Kelly Hu, uma assassina sentimental que percebe que o padre não faz parte do jogo e decide protegê-lo. Apesar de Ving Rhames não ser protagonista, é muito legal vê-lo novamente num personagem badass como este aqui.

Infelizmente alguns outros personagens poderiam ser melhor aproveitados, mas pelo menos suas presenças rendem bons momentos. O próprio Adkins sai logo de cena muito rápido, mas o quebra pau com Kelly Hu na igreja abandonada demonstra porque ele é um dos melhores atores do cinema de porrada ocidental atualmente. O mesmo para o assassino francês praticante do parkour que tem um pouco mais de tempo que o Adkins.

Mas a maioria dos vilões serve apenas para fazer número mesmo, para aumentar ao máximo a quantidade de ação e de corpos cravados de balas ou explodidos. E THE TOURNAMENT possui uma bela dose de violência explícita! O climax do filme é uma perseguição com Ving em um caminhão atrás de um ônibus guiado pelo padre de Carlyle, enquanto Kelly Hu troca socos com o francês do parkour em seu interior.

A direção de Scott Mann é do tipo em que a câmera treme freneticamente e a edição picota as cenas de ação em planos que não duram mais de um segundo, da mesma forma como estamos cansados de ver neste tipo de filme atualmente e isso é um problema que pode incomodar, embora essas cenas não sejam totalmente descartáveis. Ao menos dá pra entender o que acontece na tela nas sequências de ação. O que é difícil de aguentar é o melodrama da persoangem de Kelly Hu, principalmente porque ela não tem a mínima capacidade de expressar qualquer sentimento mais dramático. Como atriz de ação, se sai muito bem, mas é só.

THE TOURNAMENT diverte tranquilamente, não me entediou em momento algum, apesar de alguns detalhes, é bom filme de ação desenfreada e exagerada. Só não acho que chega ao mesmo nível de algumas belezinhas do gênero que também não passaram nos cinemas, como THE BUTCHER, ICARUS, BLOOD AND BONE e SOLDADO UNIVERSAL: REGENERATION.

25.6.10

SINGAPORE SLING (1990), de Nikos Nikolaidis

Alguém aí conhece esta belezura vinda da Grécia? Eu não fazia idéia da existência de SINGAPORE SLING até ontem a noite quando me me deparei por acaso. Trata-se de uma das experiências mais bizarras e pertubadoras que eu já tive com cinema, uma coisa linda, encontro de cinema noir dos anos 40 com David Lynch, surrealismo, filmado em preto e branco, alto grau de erotismo e imagens extremas de revirar o estômago.

Na trama, um detetive procura Laura, que está desaparecida, mas acaba sequestrado por duas mulheres em uma mansão – uma delas é sósia da tal Laura (ou será que ela é mesmo a desaparecida?) – que adoram explorar os limites do prazer, seja cometendo assassinatos, comendo carne humana como se fosse um manjar da alta classe e praticando o coito em suas mais variadas formas, utilizando dos mais variados estímulos, como tortura, choques elétricos, vômito e urina enquanto praticam o ato sexual.

Tudo isso é lançado na tela de forma quase explícita pelas cameras do diretor Nikos Nikolaidis, que também é o autor do roteiro e que morreu em 2007. Gostei bastante da direção, muito seguro no que faz aqui, uma bela obra de arte. Sabe brincar com sua narrativa nada convencional e utiliza de elementos, enquadramentos, narração em off retiradas dos filmes noir, que parece ser a principal fonte de inspiração. Alguns detalhes são bem evidentes: Laura, por exemplo é o título de um belo noir de Otto Preminger e uma das personagens usa o mesmo vestuário de Glória Swanson em CREPÚSCULO DOS DEUSES.

SINGAPORE SLING é bem aberto e confuso na medida exata de um bom surrealismo e deixa várias imagens poderosas de impacto para serem sentidas, vislumbradas pelos espectadores que sabem desfrutar uma bizarrice extrema. Vale destacar também os três atores, os únicos que aparecem em cena, três insanos em um notável desempenho. Corro o risco de ser o último a tomar conhecimento desta obra, mas confesso que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, vale a pena deixar essa dica para quem ainda não viu. A pergunta do início do texto ainda vale…

20.6.10

O FANTASMA DO PARAÍSO (Phanton of the Paradise, 1974), de Brian De Palma

Nossa! É incrível como eu já não me lembrava de mais nada de O FANTASMA DO PARAÍSO. Revi como se fosse a primeria vez e o filme me surpreendeu de uma maneira muito interessante.

É uma verdadeira anomalia dentro do cinema de Brian De Palma e é bacana perceber como ele era um diretor tão moderno naquela época. O sujeito já dominava uma condução com ritmo de videoclip muito antes de começarem a estuprar este tipo linguagem. Obviamente já neste período não era algo tão original assim, só que o De Palma acerta em cheio no tom deste musical surrealista, psicodélico e surtadíssimo, inspirado em uma espécie de mistureba entre O Fantasma da Ópera, Fausto e O Retrato de Dorian Gray!

O FANTASMA DO PARAÍSO é um conto trágico sobre Wislow, um compositor ingênuo que tem sua música roubada por Swam, um grande empresário sem escrúpulos. Quando resolve correr atrás dos seus direitos, se envolve em uma série de situações desagradáveis que culminam num trágico acidente que destroem seu rosto e voz.

Dado como morto, Wislow reaparace no Paradise, casa de show gerenciada por Swam, onde rouba uma fantasia, arranja uma mascara bizarra e banca o fantasma do local para se vingar. Tudo isso acontece com menos de uma hora de duração, narrado com bastante riqueza de detalhes e muitas situações que não valem a pena ficar descrevendo. O que vem a seguir eu vou deixar pra vocês descobrirem quando forem assistir.

O que importa mesmo é que O FANTASMA DO PARAÍSO é desses filmes que enchem os olhos do espectador pelo visual arrojado que resolve sempre nos surpreender a cada plano, seja com a brilhante direção de arte carregada de elementos pop dos anos 60 e 70 ou com movimentos de cameras e enquadramentos sempre muito bem elaborados conduzidos com um misto de segurança e experimentalismo de De Palma, o que na realidade são mais que suficientes para nos encantar.

Isso sem falar da trilha sonora inspiradíssima de Paul Williams, que também trabalha como ator encarnando o sinistro Swam. É belíssima, cativante, consegue a proeza de roubar das imagens o seu papel principal e acaba se tornarndo parte da essência deste brilhante filme. Entra fácil num top 10 do diretor, na minha opinião.

19.6.10

OS ÚLTIMOS MACHÕES (The Last Hard Men, 1976), de Andrew V. McLaglen

O mercado de DVD aqui de Vitória é uma porcaria. Raro achar algumas preciosidades dando sopa. Minha coleção é composta mais por filmes comprados via internet, então fica difícil ser colecionador sendo pobre e morando num fim de mundo, como é o meu caso. Mas a gente dá um jeitinho. Achei OS ÚLTIMOS MACHÕES numa loja de shopping por acaso e não pensei duas vezes antes de levar. Só fui assistir hoje e é realmente um faroeste muito bom!

Westerns crepusculares são meio amargos e melancólicos, mas é sempre um prazer conferi-los. OS ÚLTIMOS MACHÕES segue nessa mesma linha, com a era do fora-da-lei do velho oeste selvagem chegando ao fim, cedendo lugar à sociedade moderna. Na trama, temos dois monstros em plena forma: James Coburn e Charlton Heston – que podem muito bem representar o cinema de macho que o título nacional evoca (embora o personagem do primeiro tenha uma certa ambiguidade em relação à sua sexualidade) – em lados opostos da lei, mas pertencentes a este pequeno grupo que caminhava rumo a extinção.

Heston é Sam Burgade, um velho xerife aposentado com muitas aventuras pra contar da época em que a lei era regida à base de chumbo grosso, diferente do jovem xerife atual que vive sentado atrás de uma grande mesa que possui até telefone. Mas quando o perigoso e sádico Zach Provo, o vilão encarnado por James Coburn, foge da prisão com um grupo de mal encarados, a coisa fica preta. Burgade é quem o colocou no xadrez. Provo agora quer vingança. E joga sujo, sequestrando a filha do herói (Barbara Hershey).

É aí que Burgade percebe que a solução é colocar as balas no seu velho colt, comprar previsões para alguns dias e voltar à ação utilizando o modo old school de caçar e eliminar bandidos.

Só que não vai ser nada fácil para o protagonista, muito menos para o espectador. Não que o filme seja ruim, longe disso, mas algumas situações criadas pelo roteiro são bem fortes e subvertem clichês na relação sequestrador/refém. O que quero dizer é que não é todo dia que vemos um filme americano do gênero onde uma personagem da importância de Hershey sofre o que ela sofreu aqui... Além do próprio protagonista demonstrar ser tão sádico e violento quanto seu inimigo, algo praticamente inexistente no cinema comportado atual.

Andrew V. McLaglen vem da escola clássica de fazer cinema. Foi assistente de direção de William A. Wellman e Budd Boetticher, mas para contar a estória destes personagens buscou inspiração no cinema de Sam Peckinpah. Isso fica bem claro em alguns momentos, na forma como trabalha a violência e principalmente quando resolve utilizar câmeras lentas para enfatizar algum elemento dramático ou para tornar a brutalidade em lirismo sanguinário, da mesma maneira que o diretor de WILD BUNCH fazia com maestria. Mas o resultado em OS ÚTIMOS MACHÕES não fica muito atrás. É cinema de macho na veia!

17.6.10

Assisti algumas coisas bem interessantes, mas tenho andado um pouco sem tempo ultimamente para escrever e postar com boa frequência, mas valem ao menos alguns comentários rápidos. Um dos melhores foi o clássico esquecido de 1965, do americano exilado na Inglaterra, vítima do Marcartismo, Cy Endfield, PERDIDOS NO KALAHARI (Sands of Kalahari). É um belíssimo trabalho, uma verdadeira aula de cinema na questão dos espaços. Difícil de acreditar que nunca tenha recebido o reconhecimento que merece. O filme começa devagar quase parando, apresentando aos poucos os personagens que embarcam num avião clandestino por causa do preço camarada que o piloto arranjou. Mas como o barato sai caro em quase todos os filmes, a tripulação acaba vítima de um pouso forçado em pleno deserto sul-africano. A cena da queda com a nuvem de gafanhotos é sensacional! A partir desta situação extrema é que o filme vai crescendo cada vez mais até chegar a um dos finais mais aterradores que eu já vi!


Conferi pela primeira vez também o clássico considerado a pedra fundamental do cinema de horror europeu, I VAMPIRI (1956), de Riccardo Freda e Mario Bava. Sempre houve uma discussão sobre o que cada um havia dirigido. O que eu sei sobre o assunto é que Freda era o diretor e Bava o responsável pela fotografia. Freda deveria realizar todo o filme em doze dias. Quando chegou no décimo, só havia filmado a metade, pediu mais tempo, os produtores não deram e ele pulou fora do projeto deixando a bomba explodir nas mãos do seu diretor de fotografia, que conseguiu se virar e terminar o restante nos dois dias que restava. A bem verdade é que essa transição toda não interfere em absolutamente nada a grandeza desta obra. Claro que é um filme torto, possui alguns defeitos principalmente no ritmo e estrutura narrativa, mas tecnicamente é perfeito, com uma atmosfera de horror que envolve o espectador, em especial no último ato, recheado de elementos que seriam melhor utilizados futuramente. Obrigatório.

Depois eu comento mais filmes!

15.6.10

VIGILÂNCIA TOTAL (Under Surveillance, 1991), de Rafal Zielinski

Mais de uma semana sem atualizar, tanto filme bom pra comentar e acabo postando sobre uma bagaceira que provavelmente quase ninguém se lembra, sequer chegou a ver ou tenho certeza que não vai se interessar… Mas é este o espírito do blog, o qual eu tenho me desviado ultimamente sem querer. Mas vamos à tralha: mais indicado para os apreciadores do ator Robert Davi, este UNDER SURVEILLANCE foi uma entre tantas tentativas modestas e frustradas de colocá-lo como um action man dos anos 90.

A escolha de Davi até que é bacana. Acho um ótimo ator e desde a década de 1980 ele acabou se tornando uma dessas figuras subestimadas pelos grandes estúdios, mas sempre marcando presença em produções de gênero. Possui um talento indiscutível e, talvez por não ser muito chegado a beleza, geralmente se dá melhor nos papéis de vilão. Com certeza merecia mais respeito e o direito de ter seu nome ligado às fitas de ação dos anos 90.

O problema é que UNDER SURVEILLANCE é ruim pra burro! Um thrillerzinho chato, de soluções fáceis e reviravoltas das mais forçadas e estúpidas. Para piorar, os diálogos são ridículos demais para um roteiro escrito por quatro cabeças! A direção de Rafal Zielinski é fraca, não possui qualquer momento de inspiração cinematográfica e a fotografia não fica muito atrás. A trilha sonora ao menos é a típica dos filmes deste período.

Forçando um pouco a barra à favor do filme, podemos até encontrar alguns elementos na trama que remetem a um neo noir, com Davi interpretando um ex-policial, agora investigador de seguros, que tenta descobrir o que realmente aconteceu com seu parceiro, morto de maneira misteriosa. Entra em cena até mesmo uma cínica e sedutora femme fatale na pele da loura Melody Anderson para dar um toque de emoção às aventuras do protagonista, abalando seu coração.

Claro que não chega ao nível de uma única cena entre Bogart e Bacall em qualquer noir que fizeram juntos, mas aí seria exigir demais. No máximo um Guy Pearce e Kim Basinger e mesmo assim a coisa complica…

Bom, ainda assim, vale pela atuação do Davi e o restante do elenco, que conta com a presença de Harry Guardino, Gale Hansen (que dá um toque de buddy movie ao filme) e o grande Charles Napier. E apesar da direção meia boca, algumas cenas de ação, tiroteios e perseguições, devem agradar os fãs ardorosos do cinema de ação old school dos anos 80 e inicio do 90. Chegou a ser lançado em VHS aqui no Brasil com o título VIGILÂNCIA TOTAL, numa época em que era lançado de tudo por aqui...