10.3.09

Ao longo de oito anos, John Carpenter sentou na cadeira de diretor apenas para realizar seus dois episódios da série Mestres do Horror: CIGARETTE BURNS e PRO-LIFE. Sua última produção para cinema foi o subestimado FANTASMAS DE MARTE em 2001. Parece que, finalmente, o sujeito vai voltar ao trabalho e nos últimos meses já foram anunciados quatro filmes para alegria dos fãs. Não sei até que ponto o diretor está tão determinado, mas se pelo menos dois destes filmes realmente ficarem prontos, eu já me dou por satisfeito.

THE WARD: provavelmente, será o primeiro a sair. Ainda está em fase de pré-produção, segundo o IMDB, e trata-se de uma história de fantasmas. THE WARD é uma produção independente e possui até atriz, Amber Heard, para viver uma personagem que é assombrada por fantasmas em uma instituição mental. E instituição mental + John Carpenter lembra À BEIRA DA LOUCURA, então pode ser que saia coisa boa daqui...

L.A. GOTHIC: Os responsáveis pelo roteiro de GIALLO, novo filme de Dario Argento, estão pegando firme neste aqui cuja trama apresenta cinco histórias que se interligam quando um ex-padre tenta proteger sua filha adolescente das forças sobrenaturais do lado obscuro na cidade de Los Angeles. A trama aparenta ser muito interessante e nas mãos do Carpinteiro deve render, mas nessa leva de filmes, L.A. GOTHIC foi o primeiro a ser anunciado e chegaram a confirmar que as filmagens aconteceriam em março do ano passado... será que sai?

THE PRINCE: John Carpenter dirigindo um filme de gangster é de matar uns dez guardas (como dizia minha avó)! Sem muitas informações, é de longe o mais curioso dos quatro filmes, principalmente depois da declaração do próprio roteirista dizendo que se trata de um filme “brutal, sombrio e violento até o final". Estamos na torcida para que saia do papel e ganhe a visão do velho Carpinteiro.

RIOT: Até pôster já saiu e com data prevista para este ano ainda. Mas no IMDB a previsão passou para 2011, não sei porquê. O roteiro envolve uma prisão, rebelião de presidiários, etc. E ainda temos Nicholas Cage vivendo um condenado à prisão perpétua que ajuda um jovem, participante de um programa de prevenção ao crime, durante a rebelião que se instaura no local. Se RIOT for metade que ASSALTO A 13º DP foi, já está bom demais!

9.3.09

VOU, MATO E VOLTO (Vado... L'ammazzo e Torno, 1967), de Enzo G. Castellari

Os títulos mais engraçados e inusitados da história do cinema pertencem ao faroeste italiano. VOU, MATO E VOLTO é um dos mais inspirados, uma pena que o filme não seja tanto, embora não deixe de ser um bom exemplar do gênero e vale como curiosidade, já que se trata de um dos primeiros filmes com a assinatura do diretor Enzo G. Castellari.

O inicio é excelente e abre com três sujeitos mal encarados adentrando uma pequena cidade – enquanto a população olha desconfiada através das janelas e cortinas. Do outro lado da cidade uma carroça carrega três caixões que segue na direção dos meliantes. Quando se encontram, um dos bandidos indaga sobre quem estariam naqueles caixões; um outro sujeito que vinha logo atrás da carroça responde justamente o nome dos vagabundos à sua frente e aí já tarde demais: o forasteiro é mais rápido e os três acabam comendo capim pela raiz.

Pena que o restante do filme não consegue manter a mesma intensidade da abertura, mas vale a pena continuar acompanhar a trama que prossegue agora num trem carregando 300 mil dólares em ouro. Monetero e sua gangue roubam o carregamento, mas um dos seus comparsas o trai e coloca o valioso metal num esconderijo e pouco tempo depois é assassinado antes de revelar o segredo. O único objeto que pode conduzir ao ouro é um medalhão.

A partir daqui, VOU, MATO E VOLTO se estabelece com certas semelhansas, ainda que superficiais, a TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone. Ora, temos três personagens, rivais entre si, em busca da fortuna. George Hilton é um caçador de recompensas, o mesmo que apaga os três do inicio, temos também Gilbert Roland vivendo o perigoso bandido Monetero e Edd Byrnes como um empregado do banco cuja responsabilidade era manter o dinheiro seguro durante a viagem no trem.

O medalhão acaba sendo cortado ao meio e ambas as partes são necessárias para encontrar o local secreto. Durante essa “jornada” muita coisa acontece e por conta de um roteiro muito mal escrito o filme acaba decaindo. O principal problema é o excesso de reviravoltas envolvendo traições sem sentido entre o trio principal. É tanta picaretagem que nem o espectador consegue definir pra quem torcer nesta busca pelo ouro. E ainda em certos momentos, o filme vira um verdadeiro pastelão, com um dos personagens dando piruetas no ar com canções de circo ao fundo.

Mas vamos falar das qualidades do filme também: o elenco até que é muito bom, principalmente o uruguaio George Hilton, que está muito carismático como o caçador de recompensas misterioso e é de longe o melhor do filme. Roland e Byrns também não deixam a desejar, principalmente o primeiro que possui um rosto bem expressivo, perfeito para o papel de vilão. A trilha sonora de Francesco De Masi não chega aos pés de um Morricone, mas é boa também, com exceção das musiquinhas de circo que aparecem nas cenas de pastelão totalmente desnecessárias.

Castellari ainda não havia desenvolvido seu estilo de dirigir seqüências de ação em câmera lenta vista em vários filmes ao longo de sua carreira como ASSALTO AO TREM BLINDADO, THE BRONX WARRIORS, KEOMA, etc. Mesmo assim, as cenas de tiroteio e de luta ajudam pra quebrar o marasmo das cenas irregulares do filme, filmadas bem ao estilo padrão do Western Spaghetti que Castellari aprendeu em seus estágios como diretor de segunda unidade em filmes de baixo orçamento no início dos anos 60.

8.3.09

WATCHMEN (2009), de Zack Snyder

Sinceramente não tenho do que me queixar de WATCHMEN. Acho que os críticos sérios reclamam demais e os fãs estão fazendo chiliques por pura oposição preconceituosa, já que consideram a obra infilmável. Problemas com o diretor eu até entendo, mas ainda bem que eu não tenho. Minha expectativa era discreta, mas bastante curiosa – e da fonte da qual beberam, é de se esperar no mínimo um bom filme. A grande sacada de Zack Snyder (e seus roteiristas) foi tentar ao máximo manter a lealdade do universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons respeitando a estória central (com uma pequena modificação no desfecho, mas nada muito gritante), as subtramas, estrutura narrativa, personagens, localização temporal, etc. Evidentemente muita coisa se perde, algumas passagens ganham mais espaço que outras, a ação é intensificada, mas o resultado não deixa de ser surpreendente.

Zack Snyder é desses que na maior parte do tempo pensa que está dirigindo um vídeo clipe e ainda possui a velha mania de exagerar no slow motion durante as cenas de ação. Felizmente, WATCHMEN não é um filme de ação e a força narrativa concentra-se na dramaticidade das situações vividas pelos personagens, heróis decadentes e humanos em uma realidade bem estranha. E Snyder, na medida do possível, até que manda bem como narrador. Pelo menos conseguiu me segurar tranquilamente em suas 2h e 40m de duração. Isso tudo levando em conta o visual fascinante muito semelhante ao das páginas dos quadrinhos, mesmo sendo a maioria criada por CGI (e não sou muito radical, sempre elogiei quando bem utilizado, como é o caso aqui); há também os personagens complexos e interessantes interpretados por um elenco que dá conta do recado, principalmente Jackie Earle Haley no papel de Rorschach, de longe o mais batuta, obscuro e revoltado do grupo, além de visualmente/psicologicamente idêntico ao original. A trilha sonora vai gerar uma discussão à parte. É uma das mais inusitadas para um filme do gênero e conta com uma compilação que vai de Simon & Garfunkel a Leonard Cohen. Eu achei sensacional a escolha das canções e maneira como foram inseridas na trama.

Embora tenha o probleminha da câmera lenta (que é um pouco mais contida em relação a 300), as cenas de lutas de uma forma geral são boas e sem os exageros afetados, filmadas de maneira simples, claras e violentas pra dedéu! Com direito a ossos quebrados, fraturas expostas e bastante sangue. Aliás, o filme possui uma essência extremamente violenta com momentos de gore que deixaria Lucio Fulci orgulhoso. WATCHMEN conta também com uma cena de sexo bem picante para o padrão de filmes de super-heróis, o que não é muito habitual. Admiro essa determinação do Snyder em abraçar uma obra e brigar com seja lá quem for para que o filme tenha a sua visão mesmo contendo elementos pouco rentáveis para os executivos de Hollywood – como nudez, sexo, violência gráfica, a longa duração, detalhes em relação à fidelidade da obra. A preocupação parece situar sempre na qualidade de seu filme (mesmo que ainda tenha muito que amadurecer). É um diretor no mínimo corajoso, na minha opinião, e o filme ganha muito com isso: WATCHMEN é uma das melhores e mais fiéis adaptações de HQ's.

7.3.09

GRITO DE HORROR (The Howling, 1981), de Joe Dante


Queria escrever sobre WATCHMEN, mas ainda não assisti. Adiei para hoje (sábado). Sei que tem muita gente que já meteu o pau sem assistir e que não gosta do Zack Snyder, etc. Até entendo o ponto de vista, mas eu estou curiosíssimo. Amanhã (domingo) saberemos as minhas impressões. Por enquanto, andei vendo este ótimo filme de lobisomem, dirigido pelo mestre Joe Dante, que havia se reunido mais uma vez com o roteirista de PIRANHAS, John Sayles, para entregar GRITO DE HORROR.

É um filme visionário no campo da licantropia. Até então, os lobisomens eram mostrados no cinema como homens um pouco mais peludos que o normal, com suas roupas rasgadas, os caninos mais afiados e as unhas pontudas. Dante e Sayles, juntamente com uma equipe técnica excelente, desenvolveram umas criaturas monstruosas e inovadoras que devem ter feito muito moleque pedir pra dormir no meio dos pais durante a noite (e ainda por cima assistiram escondidos, já que uma criança não deveria ver esse tipo de filme... brincadeira!).

É que o tema é trabalhado no roteiro de uma maneira bem moderna, inteligente, sensual, séria, com os elementos e a atmosfera do horror sendo mantidas ao longo de toda duração, diferente da abordagem de John Landis em UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, que foi rodado no mesmo ano e mistura comédia de humor negro na salada.

Na verdade, os dois filmes são tão diferentes que fazer comparações seria algo estúpido, a não ser é claro nos quesitos técnicos em que ambos são sensacionais, especialmente a transformação dos condenados em lobisomens. A do filme de Landis, feita por Ricky Baker é genial em todos os sentidos, mas a de GRITO DE HORROR, por Rob Bottin (de THE THING, do Carpenter), é muito mais sombria e assustadora, assim como o filme todo é, em comparação estúpida com o do Landis.

Baker até chegou a trabalhar em GRITO DE HORROR, mas quando Landis disse que iria fazer o seu, ele trocou de time. Mas foi bom pra mostrar que existiam outros mestres dos efeitos especiais à moda antiga tão competentes quanto o Baker. A cena em que mostra todos os detalhes da transformação do lobisomem, com aquela luz maravilhosa e expressionista sob os acordes de Pino Donaggio, é uma coisa linda e perturbadora! E a protagonista lá estática e assustada vendo aquilo tudo acontecer lentamente... por que diabos ela não saiu correndo?

É o tipo de pergunta que não se deve fazer e que guarda a essência de toda essa era do cinema de horror americano...

OBS 1: GRITOS DE HORROR tem um elenco bem legal composto de gente do calibre de John Carradine e Dick Miller em papéis especiais e algumas aparições que valem a pena procurar enquanto se assiste, como Forrest J. Ackerman, Roger Corman e o roteirista John Sayles.

OBS 2: Observação estúpida, mas eu particularmente prefiro UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES...

3.3.09

McBAIN (1991), de James Glickenhaus


Para quem já está com vontade de conferir THE EXPENDABLES – próximo filme de Sylvester Stallone – pode amenizar a ansiedade com esta pérola dos anos noventa cuja trama, de acordo com as notícias e o plot que sabemos até agora, possui certas semelhanças com o filme de Sly. Longe de mim, ficar fazendo previsões, mas foi o que me ocorreu ao assistir McBAIN.

O elenco também é uma maravilha, nada que se compare ao filme do Stallone, mas conta com uma turma boa e que hoje em dia anda sumida como Michael Ironside, Steve James (morreu ainda nos anos 90), Maria Conchita Alonso, Luis Guzmán, Victor Argo e claro, o personagem título, que não está tão esquecido assim, mas merecia uns papéis de maior importância no cinema americano atual: Christopher Walken.

Bom, o filme inicia no fim da guerra do Vietnã, quando um grupo de soldados sobrevoa um acampamento vietnamita onde ainda existem prisioneiros americanos. Resolvem parar, meter bala em todo mundo e resgatar os prisioneiros e entre eles está McBain. 18 anos mais tarde, o sujeito que teve a idéia de parar e resgatar todo mundo morre num fracassado golpe contra o presidente da Colômbia. McBain resolve reunir a galera de novo para realizar uma revolução infernal na Colômbia e colocar abaixo o presidente (vai me dizer que o plot de THE EXPENDABLES não tem algumas semelhanças?).

A profundidade dos personagens é zero, mas quem é que vai ligar pra isso quando a contagem de corpos ultrapassa o número de 200? Não existe tempo pra se preocupar com esses detalhes e a narrativa se resume em várias cenas de ação uma atrás da outra ou simultaneamente. E a coisa é bem exacerbada, inverossímil e nonsense ao extremo. A cena mais impressionante é aquela em que McBain derruba um jato inimigo com um único tiro de pistola disparado de outro avião!!!

E eu não brinquei quando disse que a contagem de corpos ultrapassa os 200. Lógico que não sou doido de ficar contando, mas tem mortes para todos os gostos, principalmente à base de chumbo, mas não faltam facadas e explosivos em vários formatos para aumentar o número. A ação cartunista é bem divertida, mérito do diretor James Glickenhaus (do clássico cult EXTERMINATOR, de 1980) que realizou esta aula de pirotecnia e ação desenfreada (grande parte filmada nas Filipinas). Como eu disse, dá pra amenizar a ansiedade...

2.3.09

MACHINE GUN KELLY (1958), de Roger Corman


Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly - conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora - um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

A direção de Corman é bem inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson (aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada). Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.

28.2.09

O VINGADOR SILÊNCIOSO (Il Grande Silenzio, 1968), de Sergio Corbucci


Ainda não sou um conhecedor da filmografia de Sergio Corbucci e já li por aí que o sujeito fez uns filmes bem fraquinhos ao longo da carreira, mas quando a coisa é boa (como DJANGO, de 1966, e este aqui), ele acerta em cheio e é por isso que é fácil classificá-lo como um dos maiores realizadores de Western Spaghetti. O VINGADOR SILÊNCIOSO é provavelmente um dos melhores e o mais pessimista exemplar do subgênero. E é por esse pessimismo, principalmente no controverso desfecho, que não é de se estranhar que o filme nunca tenha sido lançado nos Estados Unidos.

O VINGADOR SILÊNCIOSO é estrelado pelo ator francês Jean-Louis Trintignant e o grande Klaus Kinski, só isso já o torna imperdível. No lugar do francês, a primeira escolha era Franco Nero, que já havia trabalhado com o diretor, mas estava com a agenda lotada. Trintignant só aceitou fazer o filme porque era muito amigo do produtor e sob a condição de que não precisasse decorar nenhuma fala. Criaram então um personagem mudo, cujas cordas vocais foram cortadas quando criança. E Trintignant está perfeito vivendo Silêncio, este herói trágico em busca de vingança e lutando contra caçadores de recompensas inescrupulosos. Já Kinski interpreta justamente um caçador de recompensa sem escrúpulos.

O filme se passa nas locações frias e cobertas de neve do estado do Utah onde um grupo de bandidos se esconde nas florestas aos arredores da cidade de Snow Hill esperando a anistia prometida pelo novo governador para poder retornar à cidade e levar uma vida normal. Obrigado a roubar para poder se alimentar durante o exílio involuntário, cada cabeça do grupo vale uma boa grana e vários caçadores de recompensa invadem a região como lobos em busca de caça. Loco (Kinski) é um deles, o mais perigoso e ganancioso. Ao matar um desses fugitivos, Pauline, a mulher do defunto, recruta Silêncio para matar Loco.

A grande sacada de Corbucci foi dar alma aos personagens. Não só aos dois protagonistas, mas também ao Xerife, interpretado por Frank Wolff e Pauline, a bela Vonetta McGee (que não é lá grande coisa como atriz, mas tudo bem). Todos os personagens são movidos por instintos muito bem definidos pela vingança e cobiça. E quando essas motivações dão lugar a um jorro de emoções, fica difícil resistir. Por isso o personagem do xerife é tão carismático e ainda há uma cena belíssima quando Silencio e Pauline fazem amor sob a sedutora melodia de Ennio Morricone. Essa cena é o mais próximo de uma humanização que os personagens poderiam alcançar e talvez por isso, Silencio se torne tão vulnerável a partir daí, diferente daquele pistoleiro onipotente do início.

E o final é extremamente chocante e brutal. Quebra qualquer paradigma dos heróis míticos e invencíveis criados pelo western holliwoodiano. A forma como Corbucci retrata os vilões (especialmente Kinski com aqueles olhos azuis expressivos de gelar a espinha) e os refugiados da floresta reforça ainda mais o sentido dilacerante da conclusão, e Silêncio, ao se apaixonar por Pauline e tornar-se mais humano, acabou enfraquecido, e já não pertence mais aquele universo instintivo e como todos sabem, na natureza são os mais fortes que sobrevivem.

27.2.09

COP (1988), de James B. Harris

COP é todo James Woods. O sujeito parece que nasceu para o papel do policial que faz aqui e deposita seu estado de graça num personagem subversivo, controverso e provocativo. Assim como o próprio filme também o é. O plot é bem simples (policial obcecado em resolver um caso envolvendo um serial killer), mas é a complexidade do personagem e a capacidade de Woods de interpretá-lo é que torna tudo mais interessante.

Só pra dar uma noção do que o sujeito é capaz, basta observá-lo enchendo um suspeito desarmado (isso mesmo, o cabra era um suspeito e estava desarmado) de balas a sangue frio, apenas por abrir a porta do carro de maneira um tanto "brusca". Outra: depois de chegar em casa e descobrir que a mulher o abandonou com a filha, na cena seguinte já mostra o cara transando com uma de suas informantes.

E Woods está perfeito fazendo isso, com uma naturalidade absurda. E é o tipo de ator que quando surge em cena os nossos olhos logo querem acompanhá-lo. E em COP ele está presente em praticamente todas e não consigo ver outro ator em seu lugar. Pena hoje estar tão sumido. O elenco ainda conta com Lesley Ann Warren, Charles Durning e Raymond J. Barry.

O filme foi produzido (juntamente com o próprio Woods), escrito e muito bem dirigido por James B. Harris – produtor de filmes do início de carreira de Stanley Kubrick – e é uma adaptação de Blood on the Moon, de James Ellroy, famoso por suas estórias policiais em formato noir. COP não deixa de ser um neo-noir classudo e um autêntico filmaço que só poderia ter saído nos anos oitenta e nunca teria lugar no cinema americano atual e politicamente correto, principalmente com seu final, um dos mais corajosos e niilistas que eu já vi, mesmo sendo um clichezão.

21.2.09

NÃO TOQUE NO MACHADO (2007), Jacques Rivette


Precisava me iniciar em Jacques Rivette de alguma maneira, então resolvi começar de trás pra frente. NÃO TOQUE NO MACHADO é lindo, uma escolha acertadíssima e foi o último filme do diretor, que fará 81 anos em breve. Engraçado como o cinema francês atual anda um pouco carente de diretores novatos com a mesma força desses velhinhos que ainda teimam em fazer filmes. Obviamente há, mas são poucos. A grande maioria não consegue alcançar a qualidade de um Chabrol, Rohmer ou Resnais, levando em consideração seus últimos filmes. E o Rivette aqui para dar mais credibilidade à teoria.

NÃO TOQUE NO MACHADO é a adaptação de “A Duquesa de Langeais”, escrito por Balzac, e apresenta o general francês Armand de Montriveau que se encontra numa ilha espanhola com a missão de restaurar o Rei Ferdinando VII ao trono, já que após a queda de Napoleão Bonaparte, a Espanha volta-se para os braços da França (se quiser saber mais, vai ler um livro de história!). Tudo balela, já que o verdadeiro objetivo de Armand é curar a dor de cotovelo que tanto lhe angustia.

O fato é que o sujeito procura um amor antigo, sofrido e perdido devido às lúdicas brincadeiras emocionais que os pombinhos propuseram cinco anos antes. Coincidência, porém, a mulher se encontra na mesma ilha. Tornara-se freira e vive agora trancafiada num convento. O reencontro é um desastre, daí somos levados há cinco anos antes para esclarecer essa situação mal resolvida, essa relação conturbada e entender melhor estes personagens, até o momento, tão fechados.

E é praticamente neste flashback que acompanhamos o restante do filme que se resume num verdadeiro duelo emocional e psicológico estabelecendo um paralelo teatral cuja força concentra-se muito na capacidade performática de Guillaume Depardieu (filho do ator Gerard Depardieu; faleceu no ano passado e, curiosamente, tinha uma perna amputada, assim como seu personagem nos textos de Balzac) e Jeanne Balibar. Os dois estão sublimes e contribuem com 50% da essência da obra. O elenco ainda conta com o grande Michel Piccoli e uma ponta do diretor Barbet Schroeder.

Os outros 50% são de Rivette que faz o papel de observador com uma câmera que flui suavemente em movimentos elegantes pelos ambientes exuberantes compondo planos extremamente simples e belos visualmente (a direção de arte e figurinos também ajudam um bocado). A narrativa transcorre basicamente em ambientes fechados e iluminados por velas. E ainda há a genial valorização da encenação, da mise-en-scène, que estabelece uma dinâmica muito mais interessante do que aparenta, já que muita gente deve estar pensando que NÃO TOQUE NO MACHADO se trata apenas de mais um filme chato de conversa.

Na verdade é, mas com muito estilo, maravilhosamente bem filmado com uma simplicidade e maturidade de um verdadeiro mestre do cinema. Quero só ver o que vai sobrar dos franceses quando esses velhos passarem desta pra melhor...

20.2.09

Samuel Fuller - Parte II

ANJO DO MAL (1953): Um dos primeiros filmes do Fuller que eu vi. É também a primeira vez que ele trabalhou com o ator Richard Widmark, neste thriller político em forma de noir com uma trama que envolve agentes secretos, policiais e no meio do fogo cruzado, um batedor de carteiras que tenta manter-se neutro em ambos os lados. Muito suspense, seqüências bem conduzidas, violentíssimo para a época e a aula de construção de personagens habitual. * * * *

HELL AND HIGH WATER (1954): Segundo filme com o Widmark e o primeiro em cores (numa produção da Fox), mas Fuller não parece muito à vontade trabalhando com um orçamento mais gordo do que está acostumado. De maneira alguma é um filme ruim, mas possui excessos além do necessário para um diretor que parece sempre filmar o essencial. Aqui, Fuller demonstra toda sua noção de arquitetura e espaço ao contar uma estória tensa que se passa, em sua maioria, dentro de um submarino. * * *

HOUSE OF BAMBOO (1955): Um dos mais brilhantes do diretor, principalmente porque ele parte de uma trama policial passada no Japão apenas para preencher todo o scope com refinados planos que faz questão de filmar ao ar livre nas locações, nas ruas movimentadas de Tóquio em plena década de 50 (tornando-se o primeiro filme de Hollywood a filmar no local), ao invés de utilizar estúdio como faziam normalmente, revelando um estilo que ainda viria aparecer algum tempo depois na Nouvelle Vague francesa. * * * * *

CHINA GATE (1957): Como Fuller adorava o oriente, aqui mais um outro belo exemplar. É um filme mais descompromissado que o usual, o que não significa que não tenha a mesma força de outros. Mais uma aula de direção econômica com um entrecho simples e interessante (que se passa durante a guerra da Indochina). Angie Dickson bastante jovem e lindíssima estrela a produção que ainda conta com Gene Barry e o músico Nat King Cole cantando a bela canção tema do filme. * * * *

RUN OF THE ARROW (1957): Ambientado no final da Guerra Civil, Fuller realiza um ótimo estudo de personagem cujo conflito psicológico encontra-se nas questões raciais quando um soldado confederado, interpretado por Rod Steiger, acaba se juntando a uma tribo Sioux e passa a ser seu representante nas negociações com os brancos (o lider dos Sioux é vivido por um quase irreconhecível Charles Bronson). Mais um daqueles filmes da carreira do diretor que, injustamente, não se ouve falar... * * * *

parte I

18.2.09

SEVEN MEN FROM NOW (1956), de Budd Boetticher

Primeiro contato com o cinema de Budd Boetticher neste western inteligente, puramente cinematográfico e alegoricamente interessante. O elenco é encabeçado por Randolph Scott e, se não me engano, inicia aqui uma pareceria com o diretor que rendeu alguns clássicos famigerados (aliás, os outros filmes desta parceria eu já tenho e vou comentando na medida em que for assistindo). Scott interpreta um ex-xerife atrelado numa caçada por sete sujeitos que assassinaram sua esposa em um assalto; ao longo do caminho ele encontra algumas pessoas que o acompanha, como um casal que ruma para Califórnia numa carroça e um antigo desafeto do protagonista, vivido por Lee Marvin (fazendo um belo contraste Marvin, sempre robusto x Scott e seu jeitão lacônico). Boetticher é bem seguro narrativamente e sabe utilizar as simbologias do gênero, a paisagem, o espaço, as cores, tudo em favor de um estilo simples e respeitador dos princípios da linguagem cinematográfica, o que torna cada plano um espetáculo visual único.