5.4.10

SURVIVAL OF THE DEAD (2009), de George A. Romero

Para alguns, Romero se tornou um velho gagá. Para outros, continua mestre do terror americano. Acho que está mais para uma mistura das duas coisas. O importante é que o sujeito está aí apresentando seu sexto filme de zumbis, SURVIVAL OF THE DEAD, e se não possui mais a mesma força inventiva da trilogia original (e realmente não possui), ao menos cada filme seu é uma revelação cujos impulsos criativos provam que o velho diretor ainda encontra-se sóbrio em relação ao seu cinema.
 Em SURVIVAL, Romero utiliza pela primeira vez um personagem de um trabalho anterior para fazer uma ligação direta entre os filmes. No caso, o líder de um esquadrão do exército que apareceu rapidamente em DIÁRIO DOS MORTOS roubando o trailer dos jovens protagonistas que filmavam tudo com suas câmeras. Mas desta vez ele oferece uma opção visual convencional, substituindo a representação documental.
A trama ocorre seis dias após o surgimento dos zumbis em DIÁRIO. O cenário é uma ilha onde duas famílias proeminentes estão em conflito em relação à maneira de lidar com a epidemia dos mortos vivos. Os O’Flynns não toleram os zumbis e acreditam que devem ser exterminados sem piedade. Já o clã dos Muldoons pensa que um dia haverá uma cura e, enquanto isso, os zumbis podem ser domesticados e até mesmo alimentados com algo que não seja carne humana. Procurando um lugar para ficar em paz, o esquadrão acaba entrando no meio desta confusão.
 Todos nós sabemos que os filmes de zumbis de Romero são, acima de tudo, metáforas que apontam críticas e reflexões sociais. Particularmente, acho que em SURVIVAL, o diretor não teve muito o que dizer ou não soube explorar essas idéias ou eu que tenho o QI de uma anta, o que é mais provável. Claro que há os militares e os personagens irlandeses da ilha cujas presenças possuem valor simbólico, como o próprio diretor afirma em entrevistas. Mas é pouco em comparação à substancial primeira trilogia.
Como filme B de zumbi isolado e sem grandes pretensões, não tenho do que reclamar. SURVIVAL é divertido pacas, possui bastante cenas de ação, muitos zumbis levando chumbo na cabeça, um bocado de gore e muito sangue (grande parte em CGI, infelizmente, mas já cansei de me preocupar com isso). Há um certo tom de humor que nem sempre se encaixa, mas também não me incomoda. Se por um lado Romero já não possui aquele vigor com circunstâncias sociais, como cineasta continua em plena forma, brincando com composições visuais estilísticas, algumas delas inspiradas no western, como no belo plano final.
Talvez eu esteja gostando do filme pelos motivos errados de novo, sendo tolerante demais e sem frescuras com alguns detalhes tortos, assim como em A ILHA DO MEDO. O que vejo aqui é um velhinho brincando de cinema de terror, com seus mortos vivos que já não assustam ninguém, sem a mesma grandeza e aspirações de outrora, mas ainda sobra para o espectador um passatempo fílmico de ótima qualidade. E no contexto do cinema de horror atual, isso é muita coisa!

2.4.10

RAJADAS DE FOGO (Once a Thief, 1991), de John Woo

Acabo de ligar a TV e está passando este filme do John Woo no MaxPrime neste exato momento. Escrevi sobre ele no Dia da Fúria e vale a pena reproduzir aqui, porque RAJADAS DE FOGO tem uma certa importância especial para a carreira de John Woo, não em relação ao filme em si, mas por proporcionar a continuidade de seu trabalho no cinema da maneira como ocorreu. Woo havia acabado a parceria com Tsui Hark; montou sua própria produtora cujo primeiro filme, BALA NA CABEÇA, embora seja um de seus melhores filmes, não foi um sucesso comercial; precisava urgentemente de um material seguro, que não precisasse correr riscos e que tivesse um bom retorno financeiro. Contratou dois atores com quem já havia trabalhado antes e que possuíam grande apelo popular, Chow Yun-Fat e Leslie Cheung; desenvolveu uma estória simples sobre roubo de obras de artes; incrementou com cenas de ação eletrizantes e acrescentou toques de melodrama adicionados de um humor pastelão. Acabou acertando em cheio.

RAJADAS DE FOGO é um dos filmes mais comerciais de Woo, um interessante híbrido de ação e comédia que garantiu um público amplo nos cinemas. Apesar de algumas situações de comédia não funcionarem tão bem no meio dessa mistura toda, os atores estão ótimos, em especial a dupla protagonista, com o falecido Leslie Cheung bastante carismático e Chow Yun Fat totalmente à vontade em seu papel, carregando boas doses dramáticas e cômicas durante o decorrer da estória. E ainda há a bela Cherie Chung se colocando no meio do triângulo amoroso, embora a força narrativa se concentre na amizade dos dois protagonistas. RAJADAS DE FOGO, no fim das contas, não chega a ir muito longe dentro da filmografia de Woo, mas é um entretenimento agradável que atende as expectativas do publico menos exigente e não deixa de divertir os fãs do diretor. O filme rendeu quatro vezes a mais que BALA NA CABEÇA, permitiu que Woo realizasse sua obra prima, FERVURA MÁXIMA, e preparasse o seu exílio nos Estados Unidos.

1.4.10

VÍRUS (Carriers, 2009), de Àlex Pastor & David Pastor

A distribuidora brasileira nomeou CARRIERS com o mesmo título de uma ficção científica lançada por aqui em 1999, estrelada pela Jamie Lee Curtis e dirigida por um tal de John Bruno. Alguém se lembra desse VÍRUS? O filme inteiro se passa em alto mar, dentro de um navio, onde os personagens enfrentam uma força alienígena. Assisti na época e não lembro nem se é bom ou ruim. Mas pra ficar tão apagado na memória não deve prestar.
VÍRUS é um bom nome para este aqui, já que a tradução do título original não soaria muito bem... Mas vamos deixar o título em paz e concentrar na obra que é até bem interessante. Filmes de doenças, mutações bacteriológicas, etc, tem inspirado muitas fitas nos últimos anos, principalmente para explicar o surgimento de zumbis em filmes como EXTERMÍNIO, por exemplo. O vírus/bactéria/arma biológica não apenas mata a pessoa, mas infecta e transforma o indivíduo. No entanto, o que torna VÍRUS uma peça ímpar da safra atual é que o sujeito contaminado não altera seu comportamento. Ele simplesmente deteriora-se, morre e acabou. Claro que há a iminência do contágio para dar um suspense, mas a falta desse “algo a mais” coloca o filme num campo mais próximo da realidade.
Seguindo a estrutura de um road movie, VÍRUS narra a trajetória de quatro pessoas atravessando os Estados Unidos, num momento pós-apocalíptico, onde um vírus letal infectou e matou milhões de pessoas e continua a se espalhar rapidamente. Superficialmente, existem milhões de filmes com esse mesmo mote, inclusive o recente ZUMBILÂNDIA possui vários pontos em comum com este, em especial as rigorosas regras criadas pelos personagens para sobreviverem. Mas de alguma forma, o roteiro consegue fugir do senso comum, talvez pela falta de zumbis ou de infectados agindo de maneira violenta. Ou quem sabe pelo modo com o qual os diretores trabalham os clichês? O filme foca bastante na relação dos personagens, na questão da perda ou na possibilidade de abandonar a pessoa amada caso esteja infectado. E nessas situações, a dupla de diretores, os irmãos espanhóis Àlex e David Pastor, manda muito bem, com realismo e sem apelação sentimental.
O problema é a construção dos personagens. Todos eles são tão patéticos e fúteis que qualquer um deles poderia se contaminar que eu não daria a mínima. Na verdade, ficaria até feliz em vê-los sofrer. Imaginem um torture movie sci-fi onde os protagonistas estão todos infectados por um vírus e passam o filme inteiro apodrecendo até desfalecerem. Seria algo inusitado, um drama denso, e o David Cronenberg poderia dirigir.  O que acham?

Chris Pine, intérprete do Capitão Kirk no novo STAR TREK, é o pior dos quatro. O sujeito chega a ser irritante de tão abobalhado. Se a intenção de Àlex e David era essa, então funcionou. Ainda no elenco Lou Taylor Pucci, Emily VanCamp e a gata Piper Perabo, para embelezar o filme, embora todo o trabalho visual e de composição das paisagens e cidades devastadas seja bem eficaz. VÍRUS não chega a altura de THE ROAD em suas intenções pós apocalípticas, mas recomendo ao menos uma conferida, aproveitando o lançamento nos cinemas brasileiros.

31.3.10

A FÚRIA (The Fury, 1978), de Brian De Palma


O amigo "Demofilo Fidani" massacrou este filme em seu blog, o ótimo Olhar Gratuito, mas como A FÚRIA era um dos únicos De Palma que eu ainda não havia visto, tive que engolir. Pronto! Agora assisti e já posso expor meu julgamento, só que ao contrário do nosso amigo, embora respeite sua opinião, discordo totalmente que seja um filme ruim. Aliás, que belo filme o De Palma faz aqui! Assim como em CARRIE, o diretor recorre novamente ao tema dos fenômenos paranormais. São dois jovens, um rapaz e uma moça, que devido aos seus poderes tornam-se alvos de um sinistro departamento do governo americano chefiado por um mais sinistro ainda John Cassavetes. Existem duas tramas paralelas que se encontram. Uma delas se concentra no esforço de um pai (Kirk Douglas, em brilhante atuação e forma física de dar inveja em plenos 62 anos) em encontrar seu filho paranormal. A outra, é sobre a garota com as mesmas faculdades, descobrindo seus poderes. É daqui que os detratores encontram motivos para não gostar, a parte burocrática da estória. Convenhamos que não é nenhuma obra-prima a altura de BLOW OUT (realmente achei que o filme cai um bocado quando a subtrama de Kirk Douglas é deixada de lado, apesar de estar tudo interligado), mas não perdi o interesse pelo que acontecia em momento algum, sobretudo porque De Palma conduz o material com notável precisão que não me deixava desviar o olhar. Basta uma única sequência – a da fuga da mocinha da clínica ao som da trilha de John Williams, por exemplo – para colocá-lo em um lugar de destaque na filmografia do diretor.

30.3.10

5º CINEFANTASY - site e inscrições

O site do 5º CineFantasy está no ar e por lá já dá pra fazer as inscrições para as mostras competitivas de curta, longa e o desafio Mestre dos Gritos! Mais informações vocês encontram no próprio site.

Obs: A bela arte do cartaz deste ano, foi feita pelo amigo Leopoldo Tauffenbach!

REC ² (2009), de Paco Plaza e Jaume Balagueró

Eu gosto do primeiro REC. A linguagem da câmera subjetiva, que dá a impressão de um documentário, conseguiu imprimir um realismo interessante ao subgênero de filmes de zumbis (fazendo um contraponto no igualmente ótimo DIÁRIO DOS MORTOS, de George Romero). Jaume Balagueró e Paco Plaza, dois sujeitos talentosos na condução e construção atmosférica de terror também ajudam bastante. Não chega a ser um filmaço surpreendente de outro mundo, mas está acima da média, assim como sua continuação, que é muito boa e consegue manter o nível.
REC² inicia 15 minutos após o desfecho do primeiro filme, agora com a câmera de um esquadrão da polícia servindo como ponto de vista para que o espectador acompanhe cada momento dentro do mesmo prédio do filme anterior. A sacada do roteiro foi acrescentar um outro elemento de terror na estória. Não vou contar pra não estragar o vislumbre, mas o final do primeiro deixava isso bem claro. A direção de atores continua excelente e o elenco corresponde muito bem às situações aterradoras da trama com ótimas encenações, muita criatividade e veracidade. Quem curtiu REC vai gostar de revisitar o velho prédio do centro de Barcelona recheado de zumbis.

29.3.10

RAJADA DE FOGO (Rapid Fire, 1992), de Dwight H. Little

Apesar de O CORVO ser o filme mais lembrado de Brandon Lee, foi RAJADA DE FOGO, um pequeno veículo de ação, que ele teve a oportunidade mais decisiva no processo que o transformaria num ícone. Sim, posso estar delirando, mas eu acredito que se Lee não tivesse morrido acidentalmente em O CORVO, hoje ele teria sido um disputadíssimo astro de ação e roubaria facilmente vários papéis importantes nos filmes do gênero nos últimos dez anos. Aposto que ia...

O filme conta a estória de Jake Lo, um estudante chinês que vive nos Estados Unidos à sombra de seu pai que todos admiram: um líder pró-democrata que morreu atropelado por um tanque de guerra em uma manifestação nas ruas de Pequim. Até certo ponto, é algo um tanto biográfico para Brandon Lee, vivendo sob a sombra de seu pai, um dos rostos mais famosos do cinema oriental e um dos maiores ícones da cultura pop. Não devia ser fácil entrar na carreira de ator de filmes de ação sendo filho de Bruce Lee. Em entrevistas, Brandon chegou a declarar que o papel de Jake Lo foi escrito especificamente para ele, o que não é nada surpreendente.

Embora tenha essa veia política, presenciou as manifestações e a morte de seu pai, Jake é um individualista que pouco se importa com tudo isso, inclusive quando alguns ativistas tentam usá-lo em sua causa ele não se interessa nem um pouco. Na verdade, ele acha que nada disso vale a pena e que seu pai morreu em vão. É claro que tudo é descupinha do roteiro para a trama ficar mais interessante e ao final ele vai dar valor aos ideais de seu pai, mas sem perder o jeito badass de encarar as coisas!
Na trama, Jake testemunha um assassinato cometido por um dos mais perigosos chefões do crime organizado (Nick Mancuso), colocando sua vida em risco tendo a máfia e policiais corruptos a todo instante em sua cola. Apenas Mace Ryan, um tira honesto, interpretado pelo grande Powers Boothe, pode ajudá-lo. No entanto, Jake demonstra que é um sujeito durão resolvendo os problemas à base da porrada. Em RAJADA DE FOGO Brandon Lee finalmente teve o seu momento, porque em MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, embora roube a cena, ele sempre será o coadjuvante gay de Dolph Lundgren,  depois em O CORVO, seu personagem precisou morrer e voltar a vida para demonstrar bravura. Aqui não. Jake Lo é de carne e osso, afoito por natureza e não deixa barato contra os oponentes.

A direção é de Dwight H. Little, que havia dirigido Steven Seagal em MARCADO PARA MORTE, o terceiro filme do astro de rabinho de cavalo. Deslumbrado com cinema de John Woo como quase todos os diretores de filmes de ação do início dos anos 1990, Little toma como base seqüências bem elaboradas de filmes como THE KILLER para criar as suas. Não vou dizer que o diretor teve sucesso, mas não deixa de ter ótimas cenas por aqui, especialmente porque Lee demonstra ser perfeito como heróis de ação,  movimentando-se com agilidade, fazendo acrobacias para fugir de balas, deferindo alguns golpes e utilizando de vários objetos em cena para atrapalhar a vida de seus oponentes. E quando seguram seu pé, ele dá aquele chute rodado que virou sua marca registrada!
No elenco ainda temos Raymond J. Barry como um agente corrupto e Al Leong, com seu inconfundível bigode, dando trabalho ao protagonista numa das melhores cenas de luta do filme.
Brandon Lee acabou sua precoce carreira com uma curta filmografia, tendo participado apenas de seis filmes para cinema, sendo que um deles nem chegou a ser creditado. Meu preferido continua sendo MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, mas RAJADA DE FOGO tem uma certa importância que não pode ser ignorada.

22.3.10

O MONSTRO DO ÁRTICO (The Thing From Another World, 1951), de Chistian Nyby e Howard Hawks (não creditado)

 E para me desintoxicar do filme do post anterior, ainda neste domingo revi O MONSTRO DO ÁRTICO, produção de um dos mestres supremos do cinema americano, Howard Hawks, vagamente inspirado num conto de John Campbell e considerado hoje como uma das pedras fundamentais do gênero da ficção científica, tornando-se paradigma seguido durante muito tempo. Ganhou uma refilmagem em 1982 nas mãos de John Carpenter, O ENIGMA DO OUTRO MUNDO. O filme começa com a suspeita de que um avião caiu na Antártida. Uma unidade do exército é chamada para reunir-se com um grupo de cientistas e ir ao local do acidente, quando se descobre que, na realidade, o que havia caído era uma nave alienígena. Acidentalmente, o objeto é destruído na tentativa de descongelar o revestimento de gelo que o cobria, mas conseguem encontrar um corpo estranhamente congelado numa grande pedra de gelo. Levado à base, a criatura se descongela acidentalmente. A idéia da “coisa” que causa o terror no local é totalmente diferente da versão de John Carpenter, que apesar de fã de carteirinha de Hawks, optou por ser mais fiel aos escritos de Campbell. O extraterrestre de O MONSTRO DO ÁRTICO é um ser com forma humana (embora se descubra que sua formação tem base vegetal), mas com uma força descomunal e que se alimenta de sangue. Seu único objetivo parece ser matar e tentar sobreviver e mesmo com todos os militares querendo sua pele, surge o velho clichê do cientista maluco querendo capturá-lo vivo em prol de suas pesquisas científicas, ainda que isso coloque em risco a vida de todos. Aqui também se configura o cenário clássico do ambiente claustrofóbico e do monstro aterrorizando a vida de um grupo de pessoas, da mesma forma que outros clássicos mais modernos estabeleceram suas atmosferas, como ALIEN - O OITAVO PASSAGEIRO, para se ter uma idéia. A direção ficou a cargo de Christian Nyby, apesar de todos os elementos do cinema de Howard Hawks estarem bem presentes no decorrer da narrativa, tanto que seu nome é muitas vezes considerado como o verdadeiro diretor da obra. Enfim, seja quem for o responsável pelo trabalho de direção, conseguiu um belíssimo resultado em termos de dramaturgia, visual, ritmo e terror da melhor qualidade.

21.3.10

LEGION (2010), de Scott Stewart

Eita, perda de tempo para uma manhã de domingo. O filme parte de uma idéia até interessante, como se Deus tivesse acordado com o pé esquerdo e decidido acabar com a raça humana enviando um exército de anjos para fazer o trabalho sujo. Um desses anjos, Miguel (Paul Bettany), se rebela contra a vontade do Senhor e escolhe lutar do nosso lado. O problema é que os personagens que o roteiro trabalha são tão estúpidos e fúteis que se a grande maioria da raça humana fosse representada por essas figuras eu não iria me importar se o mundo fosse devastado. Como o Dennis Quaid entra numa furada dessas? Os diálogos não ajudam em nada e só reforçam a minha afirmação e o roteiro é falho de uma maneira irritante. Antes a ação do filme fosse divertida pra salvar, mas é extremamente mal filmada, grande parte acontece na escuridão para esconder a falta de habilidade do diretor. O que sobrou foi apenas uma boa idéia desperdiçada neste filminho sem graça.

19.3.10

O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (The Crazies, 1973), de George A. Romero

Assisti a THE CRAZIES por dois motivos básicos. Primeiro, porque o remake está aí e quero vê-lo tendo em mente o original. Segundo e mais importante, porque é embaraçoso para qualquer amante de cinema B e que se diz fã de George Romero não ter visto ainda esta obra, como era meu caso. Toda a essência do cinema de Romero está em THE CRAZIES, uma autêntica peça fundamental para compreender o trabalho deste mestre, mesmo sendo apenas o seu quarto filme.
Temas políticos e sociais sempre tiveram um tratamento especial nos filmes de terror de Romero. Em A NOITE DOS MORTOS VIVOS, seu trabalho de estréia, ele já deixava isso bem claro quando colocou um negro como protagonista interagindo com superioridade sobre os brancos em situações extremas. Em THE CRAZIES, Romero desenha sua metáfora sobre a guerra do Vietnã. Coloca o governo dos Estados Unidos como um bando de desorganizados que quer apenas apertar um botão para resolver a merda que fizeram, com a preocupação mínima pela população que será dizimada, sem contar a forma de agir dos soldados americanos, como máquinas desumanas, utilizando aqueles macacões que ficaram marcados nos cartazes do filme...

Um garotinho brinca de assustar a sua irmãzinha durante a noite, mas são interrompidos por violentas pancadas ouvidas na cozinha. É o pai, totalmente fora de si, desferindo golpes com um taco de golfe nas prateleiras... talvez não tenha gostado da cor, quem sabe? Até que decide por fogo na casa e assim inicia THE CRAZIES, cuja tradução seria Os Malucos, mas a distribuidora brasileira optou por O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO. A trama prossegue com o exército americano colocando a pequena Evans City de quarentena por causa de um vírus espalhado nas redondezas através de um acidente de avião, o qual transportava uma arma biológica ultra secreta. Quando o vírus apresenta seu contágio, a vítima fica completamente maluca em diferentes estágios de insanidade, do mais alto padrão agressivo à leseira que se assemelha a um drogado abobalhado. A população, uma pequena comunidade rural onde grande parte possui armas de fogo, não deixa barato perante o sistema de controle implantado pelo exército e o local se transforma em uma verdadeira guerra.

Mesmo trabalhando com recurso financeiro baixíssimo, Romero realmente consegue recriar toda situação catastrófica com uma simplicidade genial, o mesmo universo que remete a seus filmes de zumbis, com cenários desertos e atmosfera aterrorizante, uma vez que, assim como em seus zombie movies existe a iminência de que algum personagem se transforme em algo que ele não é, no caso de THE CRAZIES, em um maluco contaminado. Sem contar as várias sequências viscerais que o diretor faz questão de utilizar para reforçar o impacto. Tudo banhado a muito sangue e com violência gráfica, o qual não poderia faltar de jeito nenhum na definição dos elementos que compõe o cinema de George Romero. Aposto minha melhor camisa que essa releitura não vá acrescentar em nada a esta belezura aqui. Se conseguirem ao menos captar a essência, teremos algo bem divertido talvez...

A MULHER VESPA (The Wasp Woman, 1959), de Roger Corman

Não sabia da existência desses três DVDs lançados aqui no Brasil pela distribuidora Fantasy Music contendo vários clássicos do terror e sci-fi dos anos 50 e 60, até ler o livro O Cemitério Perdido dos Filmes B, do Cesar Almeida. Em cada DVD, dois filmes obrigatórios: A MULHER VESPA, do Roger Corman; O ATAQUE DOS SANGUESSUGAS GIGANTES, de Bernard Kowalski; A BESTA DA CAVERNA ASSOMBRADA, de Monte Hellman; O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER, de Joseph Green; CRIATURA SANGRENTA, de Gerry de Leon e O LOBISOMEM NO QUARTO DAS GAROTAS, de Richard Benson. Claro que eu comprei os três na mesma hora!

Antes de entrar no filme, não posso deixar passar que o livro do nosso amigo, citado ali em cima, é excelente! De linguagem clara e sem frescuras, o Cesar faz uma verdadeira odisséia ao cinema de baixo orçamento com uma seleção de filmes primorosa. Essencial para qualquer fã de filme B que se preze. Aliás, depois que eu acabei de ler, o livro ficou posicionado num lugar estratégico por aqui. Sempre que meu velho vai “amarrar um gato” ele gosta de ler alguma coisa (mas quem não gosta?). Com o Cemitério Perdido em mãos, ele sempre chega prá me pedir algum filme do livro para assistir.


A MULHER VESPA, dirigido pelo maior gênio dos filmes B americanos, é claramente uma tentativa de aproveitar o sucesso do clássico A MOSCA DA CABEÇA BRANCA (1958), de Kurt Neumann, com o grande Vincent Price no elenco. Mas aqui é Susan Cabot quem assume a posição de protagonista, dando vida a uma quarentona, dona de uma empresa de cosméticos. Além de proprietária, ela era o rosto bonito que enfeitava os anúncios publicitários da empresa. Com o passar do tempo, a idade chega e ela resolve colocar uma pessoa mais jovem e menos enrugada para continuar a divulgação de seus negócios, acarretando uma inesperada diminuição retumbante de vendas.

Em suma, ela acaba conhecendo um cientista maluco, o qual desenvolveu um novo cosmético a partir das enzimas das vespas, transformando o envelhecimento da pele na beleza da juventude. Cabot começa a usar em si mesma o produto e em pouco tempo, está com rostinho de 20 anos novamente. É lógico que em algum momento algo daria errado, caso contrário, não teríamos um sci-fi de terror, e sim mais um drama sobre uma mulher em conflitos existenciais partindo numa jornada sem mapa para o interior dos imperativos selvagens de si própria... ou algo assim.

De maneira gradativa, a natureza lasciva da vespa rainha inicia um processo de mutação física e de personalidade na protagonista. À noite, ela se transforma numa espécie de híbrido metade mulher, metade vespa (mas nem chega perto do desenho do cartaz do filme, que é genial, diga-se de passagem), bem ao estilo Corman, com uma máscara mal feita cujo pescoço da atriz fica à mostra e umas luvas de forno trabalhada para dar a impressão de... mãos de vespa? Enfim, o resultado é um charme, prezando mais pela idéia e criatividade do que pelas limitações orçamentárias. E isso vale para o filme inteiro.

Algumas curiosidades, A MULHER VESPA foi originalmente lançado pela famigerada AIP, em sessão dupla com A BESTA DA CAVERNA ASSOMBRADA, mas foi o primeiro filme produzido pela Corman Filmgroup, do próprio diretor, apresentando vários de seus colaboradores habituais. A duração era tão curta que ficava impossibilitado de passar na TV. Então Corman precisou chamar Jack Hill, um dos seus pupilos daquele período, para escrever e dirigir algumas cenas adicionais, como por exemplo, todo o início do filme que se passa na fazenda produtora de mel. Em 1995, Corman produziu uma versão mais atual dirigida pelo Jim Wynorski, mas essa eu ainda não vi...