13.1.10

INVICTUS (2009), de Clint Eastwood

Antes de qualquer coisa, INVICTUS enfatiza a boa fase recente de Clint Eastwood e o confirma também como um dos diretores mais essenciais ainda em atividade (algo que já estava confirmado há tempo, na verdade). O que me agrada no filme é a forma com o qual o diretor lida com o seu recorte histórico, trabalhando com um ícone da história recente, Nelson Mandela, sem nunca transformar o material no basicão habitual das estruturas narrativas biográficas. Inclusive, seu recorte é bem simples e mostra como Mandela utilizou a equipe de rugby da África do Sul, em pleno campeonato mundial acontecendo em seu país, como ferramenta política. Claro que no final das contas INVICTUS não deixa de ser mais um filme para servir de exemplo e inspirar o público, mas sem soar piegas como seria caso o mesmo roteiro fosse parar nas mãos de um Ron Howard, por exemplo.

Sem contar que Morgan Freeman deve ser parente do Mandela. Impressionante a construção de personagem. Matt Damon também está ótimo e o velho Clintão filma bem pra burro! Mesmo sendo um trabalho menor, fica difícil não se curvar perante o talento desse sujeito que coloca muito diretor neófito de plantão no chinelo!

12.1.10

GOTHIC (1986), Ken Russel

Difícil escrever sobre esse filme, principalmente para uma anta como eu que só consegue captar a superficialidade das coisas. Mas GOTHIC, até mesmo em sua superfície, causa bastante impacto com seu visual carregado em simbolismos e elementos metafóricos, atmosfera de pesadelo e excelente direção do Ken Russel, que é um sujeito que eu tenho muito ainda a descobrir.

A trama pode ser resumida como um exercício de terror surrealista ao estilo de Buñuel e Jodorowsky, especialmente nos últimos 20 minutos, ou trata-se, na verdade, sobre cinco pessoas que passam por maus bocados numa mansão isolada em uma ilha, tomando as drogas da época e tendo os mais diversos delírios causados pelos entorpecentes, tudo impresso sob o olhar apurado do diretor, evocando, sobretudo, elementos religiosos, algo que se não estou enganado, tem grande peso no repertório de temas de Russel.

A imagem que ilustra o post, da cena em que o famoso quadro de Fussli é recriada, é só pra dar um gostinho para quem ainda não viu. É um dos momentos mais perturbadores e geniais de GOTHIC, que ainda possui muitas outras sequências interessantes, lindamente compostas e com bastante clima.

Outra coisa que me chama atenção é o contexto da trama. Temos alguns personagens ilustres por aqui, como o poeta melancólico Lord Byron, o anfitrião da mansão, interpretado por Gabriel Byrne, e seus convidados, dos quais está o casal Shelley, cuja parte feminina, Mary (Natasha Richardson) viria a escrever seu famoso romance, Frankenstein. Seu marido é encarnado pelo canastrão Julian Sands e Timothy Spall, ainda novo, faz o papel do médico do poeta. Belo filme.

10.1.10

UNIVERSAL SOLDIER: REGENERATION (2009), de John Hyams

Eu só espero que Van Damme justifique sua decisão de não participar de THE EXPENDABLES com bons filmes de ação como este SOLDADO UNIVERSAL: REGENERATION, terceiro filme da franquia que se iniciou em 1992 (com um dos melhores filmes estrelado pelo baixinho). Acho muito difícil ele manter o nível e aposto que não vai fazer nada melhor que o filme do Stallone, mas seus últimos trabalhos foram bons passatempos, que continue assim pelo menos.

O segundo filme da série é uma porcaria que não deveria ter saído do papel. Já este derradeiro é diversão garantida com altas sequências de ação muito bem dirigidas por John Hyams, filho do diretor Peter Hyams (trabalhando aqui como diretor de fotografia). Lá pelas tantas, há um plano sequencia muito bem realizado demonstrando que o diretor possui um certo talento pra coisa, com Van Damme em um corredor estreito matando geral os terroristas sem piedade alguma, com uma brutalidade pulsante, com a camera indo e vindo e o ator num trabalho intenso... a típica cena que Van Damme reclamou em JCVD que estava velho demais para fazer.

Dolph Lundgren também dá o ar da graça, mas como estava muito ocupado fazendo não sei o que, acabou participando apenas para uma cena de luta bacana com o baixinho e algumas situações soltando frases reflexivas de meia tigela para dar um tom de complexidade ao seu personagem. O ator se comprometeu com o projeto durante 5 dias de filmagens. Mas o quebra pau entre ele e Van Damme faz toda diferença e é sem dúvida um dos grandes momentos do filme.

A trama, que eu até agora não contei (e também não faz muita diferença) é tão frágil que poderia prejudicar o filme facilmente, e se resume num grupo de terrorista na Ucrânia, nas instalações da usina nuclear de Chernobyl, com um objetivo besta qualquer, o qual sequestra os filhos do presidente e promete mandar tudo pelos ares. O problema é que eles possuem um soldado especial que vale por 100 homens, interpretado pelo lutador de Vale Tudo Andrei Arlovski. Quem já viu o primeiro filme sabe o quero dizer com “soldado especial” e eu não preciso ficar explicando. Se você ainda não viu, assista e vai entender. Todas as tentativas dos "mocinhos" são frustradas porque nenhum exército aguenta com o homem.

É aí que Van Damme entra em cena com o personagem Luc Deveraux do primeiro filme, para invadir o local, matar todos os caras maus e ainda enfrentar o sujeito como uma espécie de chefão final desse vídeo game cinematográfico. Pra saber como o Lundgren entra nessa estória vocês terão que ver, só digo que vale a pena, principalmente pra quem deseja apenas relaxar e assistir a um bom filme de ação sem frescuras. SOLDADO UNIVERSAL REGENERATION é altamente recomendado.

8.1.10

THE KLANSMAN (1974), de Terrence Young

Para começar bem o ano, revi essa preciosidade dos anos 70, estrelado pelo meu ator favorito, Lee Marvin, o qual vive um xerife casca grossa de uma pequena cidade americana que precisa tomar certas atitudes quando um grupo da Ku Klux Klan resolve botar pra quebrar em cima dos negros.

THE KLANSMAN é um filme interessante, desses que ninguém teria coragem de realizar hoje dentro de um estúdio americano, uma fábula cruel e violenta sobre racismo.

Naquele período o politicamente incorreto não era visto com o rabo de olho como é hoje (na verdade, era, só que os produtores ainda tinham audácia para financiar certas coisas). Brancos estuprando negras, castrando e assassinando negros à sangue frio, são pequenos detalhes presentes aqui, entre outras coisas, inimagináveis na Hollywood atual.

A primeira versão do roteiro, baseado num romance de William Bradford Huie, foi escrita pelo mestre Samuel Fuller – ele também seria o diretor do projeto – mas muito pouco do que fora filmado estava realmente nos manuscritos do diretor de CÃO BRANCO. O personagem de Marvin, por exemplo, não era um xerife, mas um membro da KKK cujo ponto de vista sobre o racismo se transformaria durante a trama. Havia também outros detalhes que provocaram os executivos da Paramount e fizeram com que fossem impostas as modificações, o que deixou Fuller puto da vida ao ponto de chutar o balde e pular fora. Mesmo assim, ele recebeu crédito pelo roteiro. Marvin pensou em fazer a mesma coisa, mas como já havia assinado o contrato acabou ficando.

Para o lugar de Fuller na direção, contrataram o veterano Terence Young, um nome raramente lembrado, mas possui no currículo alguns bons filmes de ação dos anos 60 e 70 realizados em sua maioria na Europa. Era um artesão de fato, mas sabia posicionar e movimentar muito bem a câmera com segurança, sabia contar uma boa estória. Foi ele quem dirigiu os dois primeiros filmes da série estrelada pelo espião 007, com Sean Connery.

Além de Lee Marvin, que está sempre perfeito em tudo que faz, temos também o britânico Richard Burton encabeçando o elenco. Dizem as colunas de fofocas que os dois bebiam todo tempo enquanto filmavam. Burton teve que parar em uma clínica para tratar do alcoolismo assim que as filmagens terminaram. O elenco se completa com o grande Cameron Mitchell, outro ator subestimado, e O.J. Simpson, aquele ex-jogador de futebol americano acusado de ter assassinado sua ex-mulher. Mas muitos se lembram dele como o policial Nordberg de CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ.

O tema de THE KLANSMAN é tratado de maneira muito clara durante a trama e não possui muitas pretensões reflexivas, algo com o qual o roteiro de Fuller provavelmente proporcionaria. Tampouco é um filme de muita ação. Temos o final quando o grupo de KKK, fantasiados à caráter, encurrala o Xerife e seus amigos – estes respondem com chumbo grosso sem piedade, e só.

Mas é um bom filme que valoriza seus personagens e suas excelentes atuações, como os grandes momentos de Marvin contracenando com Burton, além da brutalidade habitual do cinema americano dos anos setenta. Um charme cultuado hoje, mas o filme pagou um preço sendo colocado no mesmo patamar das produções do cinema de exploração e, como acontece com quase todo esse tipo de filme, acabou encalhado e esquecido.

7.1.10

Filmes da década

Não são exatamente os melhores filmes dos últimos dez anos, mas aqueles que, de alguma forma, mexeram mais comigo, me fizeram ver cinema de uma maneira diferente...

Com certeza esqueci vários e poderiamos ficar discutindo sobre algumas ausências o restante desta década que se inicia, mas por enquanto é isso aí... Eu acho...

Colocar em ordem é algo que não vou fazer mesmo, mas se tivesse que escolher apenas um, fico com o filme do Cronenberg.

MARCAS DA VIOLÊNCIA (David Cronenberg, 2005)
SANGUE NEGRO (Paul Thomas Anderson, 2007)
MIAMI VICE (Michael Mann, 2006)
OS DONOS DA NOITE (James Gray, 2007)
A PROPOSTA (John Hillcoat, 2005)
BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) e KILL BILL vol. I & II (Quentin Tarantino, 2003 e 2004)
EXILADOS (Johnnie To, 2006)
ZODIACO (David Fincher, 2007)
O GOSTO DA VINGANÇA (Ji-Woon Kim, 2005)
RAMBO 4 (Sylvester Stallone, 2008)
ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (Joel e Ethan Coen, 2007)
GRAN TORINO (2008), SOBRE MENINOS E LOBOS (2003), MENINA DE OURO (Clint Eastwood, 2004)
REDACTED (2007), DÁLIA NEGRA (2006) e FEMME FATALE(Brian de Palma, 2002)
GANGUES DE NOVA YORK (Martin Scorsese, 2003)
CIDADE DOS SONHOS (David Lynch, 2001)
ADEUS, DRAGON INN (Tsai Ming Liang, 2003)
IRREVERSÍVEL (Gaspar Noé, 2002)
DANÇANDO NO ESCURO (2000) e DOGVILLE (Lars Von Trier, 2003)
A PROFESSORA DE PIANO (Michel Haneke, 2001)
OLDBOY (Chan Wook Park, 2004)
ICHI - THE KILLER (Takashi Miike, 2001)

5.1.10

FAVORITOS DEMENTIA 13 DE 2009

20. A FRONTEIRA DA ALVORADA (Philippe Garrel, 2008): Belíssimo conto filmado em tons granulados de um preto e branco expressivo, sobre um moço (Garrel filho) perturbado pelo fantasma de sua amada.

19. A TROCA (Clint Eastwood, 2008): Não é dos seus melhores, mas mantém o nível de excelência que Clintão vem demonstrando a cada filme. E ainda há uma boa atuação de Angelina Jolie. Do diretor ainda poderíamos ter GRAN TORINO em uma das primeiras posições (esse sim, uma peça grandiosa), mas acabou entrando na minha lista de 2008.

18. GIALLO (Dario Argento, 2009): Argento sem frescuras e sem grandes pretensões, trabalhando os elementos carimbados do suspense policial/serial killer, não podia dar outra: filmaço! As cenas das lembranças do protagonista demonstram que o italiano não perdeu a mão dos tempos áureos de SUSPIRIA ou PROFONDO ROSSO.

17. DISTRITO 9 (Neil Blomkamp, 2009): Fazia um tempinho que não tínhamos uma safra de ficção científica levada a sério. Dentre os vários bons exemplares do gênero, este aqui foi o que mais me impressionou, seja nas atuações, na estória simples, mas criativa, seja no uso de efeitos especiais.

16. BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL – NEW ORLEANS (Werner Herzog, 2009): Bem diferente do original, de Abel Ferrara, Herzog manda muito bem neste retrato de personagem, com um Nicholas Cage inspiradíssimo, interpretando o policial politicamente incorreto, sujo, estuprador, viciado em drogas e em jogos, etc...

15. THIRST (Chan Wook Park, 2009): O diretor de OLDBOY está de volta e traz consigo uma releitura de filmes de vampiro muito interessante, com um padre chupador de sangue com peso na consciência e um humor negro pra lá de perspicaz. Viva Chan Wook Park!

14. ERVAS DANINHAS (Alain Resnais, 2009): É o que acontece quando um senhor já de idade avançada, um autêntico mestre consagrado mundialmente, que já deu contribuições significativas que mexeram nas estruturas da sétima arte e ainda continua brincando de fazer cinema, sem qualquer tipo de pretensão e com uma liberdade criativa que coloca a grande maioria dos cineastas atuais no chinelo.

13. MARTYRS (Pascal Laugier, 2008): Uma das grandes porradas do ano. Já nos primeiros momentos, Laugier faz uma boa apresentação de como estragar o café da manhã da burguesia francesa. Alta dose de violência extrema garante o choque visual e no fundo, tudo é justificado por conta da ótima estória.

12. TOKYO SONATA (Kiyoshi Kurosawa, 2008): Não existe muita diferença entre os filmes de terror habituais do diretor com este drama familiar cujo resultado talvez seja até mais assustador.

11. ARRASTA-ME PARA O INFERNO (Sam Raimi, 2009): O melhor trabalho de Raimi desde ARMY OF DARKNESS. O diretor precisou se desgrudar do Cabeça de Teia e voltar às suas origens para que isso fosse possível. Mas valeu a pena, pois temos aqui terror de primeira qualidade com todos os exageros típicos de Raimi. Nem os efeitos em CGI conseguiram atrapalhar a diversão.

10. ONDE VIVEM OS MONSTROS (Spike Jonze, 2009): Muita gente malha Spike Jonze, mas eu gosto do seu trabalho. Raro caso de estilo de direção “videoclíptico” que não vira palhaçada. O filme conta a estória de um menino comum que sai de casa, fantasia um mundo mágico em sua cabeça, com criaturas estranhas e cheio de aventuras, e depois volta pra casa. Me fez lembrar de algumas coisas boas de ser criança...

09. VINYAN (Fabrice du Welz, 2008): Prova que Welz não era fogo de palha e o talento apresentado em CALVAIRE amadurece ainda mais neste verdadeiro pesadelo filmado. Belo e perturbador.

08. GUERRA AO TERROR (Kathryn Bigelow, 2008): A rotina de oficiais do exército americano tendo a guerra do Iraque como cenário sob uma visão feminina. O melhor filme sobre o tema.

07. O LUTADOR (Darren Aronofsky, 2008): A direção de Aronofsky melhorou bastante ao longo de sua filmografia, mas quem carrega o filme nas costas é Mickey Rourke com uma interpretação magnífica. Filme sensível, poético, ao mesmo tempo grosso, violento e com um dos finais mais legais do ano.

06. VENGEANCE (Johnnie To, 2009): Inicialmente escrito para Alain Delon, o papel principal acabou nas mãos de Johnnie Halliday, que não está nada mal. O que importa mesmo é que Johnnie To continua com mão firme para comandar suas coreografias de ação regadas a chumbo grosso!

05. ANTICRISTO (Lars Von Trier, 2009): O diretor de OS IDIOTAS realizando um filme de terror só poderia dar numa das experiências mais intensas e assustadoras do ano. É provável que seja o melhor filme de Lars Von Trier.

04. TETRO (Francis Ford Coppola, 2009): Já estava começando a duvidar que o diretor fosse capaz de realizar um trabalho do nível de seus filmes mais aclamados. TETRO é visualmente impecável e o tema familiar é tratado com muita sensibilidade. Coppola finalmente está de volta!

03. AMANTES (James Gray, 2008): Personagens fortes, situações simples, mas profundas, uma pequena, e genial, demonstração que comprova porque James Gray está entre os melhores diretores da atualidade.

02. INIMIGOS PÚBLICOS (Michael Mann, 2009): Difícil colocar esta maravilha atrás de algum outro, mas depois de muito pensar, ficou em segundo com um aperto no coração. O filme possui algumas das cenas mais impressionantes do ano, como o tiroteio na floresta ou o “bye-bye blackbird” que encerra o filme. Genial.

01. BASTARDOS INGLÓRIOS (Quentin Tarantino, 2009): Está aí. Bem óbvio, mas não teve outro jeito. É simplesmente a obra prima de um diretor que NUNCA me decepcionou. Tarantino está no auge e basta a sequência inicial ou qualquer momento com Christoph Waltz em cena para perceber que estamos diante de um dos grandes filmes da década.

E é isso aí, pessoal. Alguns outros filmes que talvez merecessem um lugar na lista eu ainda não vi, como VINCERE, MOTHER, ADAM RESURRECTED, BRONSON e outros. Como vocês sabem, não sou muito ligado aos filmes novos e não assisto nem a metade que um cinéfilo normal assiste numa sala de cinema. Minha prioridade é com os clássicos obscuros a serem redescobertos.

Enfim, o DEMENTIA 13 retorna de seu pequeno descanso. Que em 2010 tenhamos um ótimo nível de filmes estreando nas salas de cinema. E se não tivermos, estaremos sempre descobrindo ou redescobrindo alguma preciosidade obscura esquecida por aí.

É provável que no próximo post eu traga os meus 20 melhores filmes da década.

MUDANÇA DE CASA

Depois de um feedback por aqui e na página do Dementia¹³ no facebook , resolvi tomar mesmo a decisão de fechar as portas por aqui e me muda...