30.9.09

VAMOS A MATAR, COMPAÑEROS (1970), de Sergio Corbucci


Eis aqui um belo exemplar comprovando o que muita gente fala, mas poucos acreditam. Sergio Leone merece ser reconhecido como um gênio do spaghetti western, mas não só ele! Existe uma lista de bons nomes que mereciam estar no topo junto com o diretor de ERA UMA VEZ NO OESTE, mas geralmente são esquecidos pela crítica e pelos cinéfilos mais jovens (aliás, os cinéfilos mais jovens se interessam por cinema popular italiano?).

Sergio Corbucci é um desses renegados e VAMOS A MATAR COMPAÑEROS é uma das mais fundamentais obras do gênero! O filme é também um perfeito representante do Zapata Western, uma ramificação dentro do Spaghetti Western, tratando de assuntos mais políticos que exploram a revolução mexicana. Outro bom exemplo deste sub-sub-gênero é QUANDO EXPLODE A VINGANÇA, do Leone.

VAMOS A MATAR COMPAÑEROS apresenta o traficante de armas sueco Yolaf Peterson (Franco Nero!) que chega ao vilarejo de San Bernardino com um vagão de trem lotado de armas e munições para vender aos revolucionários comandados pelo general Mongo (Francisco Bódalo). O problema é que o dinheiro para o pagamento das armas está trancafiado dentro de um cofre de ultima geração impossível de ser aberto sem a combinação correta. Todas as pessoas que sabiam já estão comendo capim pela raiz, a não ser o professor Xantos (Fernando Rey), um outro líder revolucionário, diferente de Mongo, idealista, sempre pregando a paz e que está preso em um forte em território americano. Seus seguidores não utilizam armas e buscam fazer a revolução através de medidas pacíficas, algo que não tem dado muito certo até então.

O sueco propõe "resgatá-lo" em troca de uma boa quantia de dinheiro e conta com a companhia de Vasco (Tomas Milian!), soldado de Mongo, um tanto estúpido, mas bastante afoito e rápido no gatilho. Partindo dessa premissa, Corbucci conduz a incrível jornada destes dois personagens cheia de aventuras, contratempos, tiroteios enfrentando o exército americano, os federais mexicanos e até mesmo um grupo de mercenários liderado pelo insano John (Jack Palance!!!), e que possui contas do passado a serem acertadas com o sueco.

Já dá pra perceber que um dos pontos fortes do filme é o elenco composto de feras do cinema europeu, mas quem merece um destaque a parte é o americano Jack Palance (que teve bastante presença no cinema popular do velho continente) com uma atuação magnífica. O que sobra é um dos vilões mais marcantes do western italiano. O sujeito veste uma capa preta, tem o cabelo bagunçado, é viciado em maconha, possui um falcão altamente treinado e uma mão de madeira (a de carne seu próprio falcão devorou para salvá-lo de uma crucificação causada pela traição do suíço). Coisa de louco!

Milian e Nero também não fazem feio. Os dois possuem uma química estranha que acabou dando certo com um Franco Nero cínico e debochado e Milian fazendo o ignorante meio tresloucado, com um visual que lembra Che Guevara, muito utilizado como alívio cômico em certos momentos. Aliás, o humor aqui é muito peculiar, ridicularizando situações violentas com um tom de humor negro, que é a mesma base do que seria o humor dos filmes de Quentin Tarantino muitos anos depois.

Voltando um pouco à trama, depois de resgatar o professor Xantos, Vasco e o sueco começam a questionar o sentido daquilo tudo que estavam fazendo, em especial Yolaf, que sabe as verdadeiras intenções do coronel Mongo: colocar as mãos no dinheiro do cofre e que se dane o México! Claro que a reflexão dos protagonistas não impede que ao final Franco Nero empunhe uma metralhadora ao estilo visceral de Django e saia atirando num exercito de bandidos, enquanto Tomas Milian faz sua parte, um verdadeiro estrago na carcaça dos meliantes, com um facão. Para aqueles que pensam que filme político é sinônimo de filme chato, provavelmente ainda não conhece o Zapata Western (ou até mesmo o cinema político italiano de uma forma geral, que possui obras brilhantes).

VAMOS A MATAR COMPAÑEROS consegue ser inteligente e ainda apresenta uma boa dose de ação dirigida com muita elegância e maestria pelo Corbucci e pontuada pela excelente trilha sonora de Ennio Morricone, uma das mais marcantes do compositor e estou com ela há dias grudada na cabeça. Muito bem, por enquanto é isso, vamos assistir, companheiros! (não resisti...)

29.9.09

TOP 10 anos 70

Este aqui foi um tremendo sofrimento. Tanta coisa boa de fora... Mas listas são assim mesmo, amanhã eu já posso olhar com cara feia e querer mudar tudo. Enfim, no mesmo esquema, apenas um filme por diretor, em ordem de preferência:

1. O ESPÍRITO DA COLMÉIA (El Espíritu de la Colmena, 1972), Victor Erice
2. TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring me the Head of Alfredo Garcia, 1974), Sam Peckinpah
3. TWO-LANE BLACKTOP (1971), Monte Hellman
4. ATO FINAL (Deep End, 1971), Jerzy Skolimowski
5. A MORTE DE UM BOOKMAKER CHINÊS (The Killing of a Chinese Bookie, 1976), John Cassavetes
6. PRELÚDIO PARA MATAR (Profondo Rosso, 1975), Dario Argento
7. QUANDO EXPLODE A VINGANÇA (Giù la testa, 1971), Sergio Leone
8. PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter, 1975), Michelangelo Antonioni
9. TAXI DRIVER (1976), Martin Scorsese
10. RABID DOGS (Cani arrabbiati, 1974), Mario Bava

26.9.09

FIVE DEADLY VENOMS, aka Five Venoms (Wu Du, 1978), de Chang Cheh


Ainda não sou um expert nos filmes de artes marciais como alguns companheiros, mas aos poucos vou riscando alguns títulos da minha longa lista passando a realmente conhecer algumas pérolas do gênero, como FIVE DEADLY VENOMS, por exemplo, um grande filme de kung fu cujo destaque se deve ao bom roteiro que justifica a maioria das lutas absurdas que ocorrem durante a projeção e cria com enorme cuidado personagens interessantes com muito mais espessura que o habitual neste tipo de filme. Além, é claro, das cenas de luta muito bem realizadas.

Produzido pelos irmãos Shaw, o filme inicia com um velho mestre de artes marciais, já nas últimas, pedindo para que seu último discípulo tente localizar seus cinco ex-alunos, cada um dos quais ele ensinou um estilo único e especial de kung fu: o estilo da serpente, da centopéia, escorpião, lagarto e do sapo. Seu aluno atual conhece todos os cinco estilos, mas não domina nenhum, mesmo assim a sua missão é justamente descobrir se há entre estes ex-alunos algum que esteja usando suas técnicas para o mal e eliminá-lo. Só que a coisa é ainda mais complicada do que parece. Durante o período de treinamento, todos os alunos usavam máscaras. Nem o mestre, nem eles próprios, sabem a identidade um do outro.

À medida que avança, o filme desenvolve um intrincado quebra cabeça com os personagens e o lance das identidades, porém existe um questão que pode não agradar a alguns... mas não foi o meu caso. FIVE DEADLY VENOMS possui poucas cenas de ação devido aos esforços de trabalhar a estória com maior intensidade, mas quando acontece, somos apresentados a sequências de primeiríssima qualidade! A mistura do kung fu com uma discreta porção de wuxia (estilo de luta fantasioso, onde os sujeitos voam e etc) permite algumas cenas de alta potência, principalmente na batalha final onde quase todos os personagens estão presentes demonstrando suas técnicas peculiares. A direção de Chang Cheh é magistral neste sentido, o homem realmente conhece a arte de filmar o corpo em movimento, sabe dar ritmo, enquadrar, usar o slow motion, um verdadeiro mestre!

Filme realmente essencial este aqui. Recomendado a quem deseja experimentar do melhor do gênero e não sabe por onde começar.

25.9.09

TOP 10 anos 80

Não pensei que fosse encontrar tanta dificuldade em escolher apenas 10 filmes para uma lista dos anos 80 (e eu acho que vai piorar na década de 70). Mas depois de sacrificar alguns filmes que eu adoro, a relação acabou refletindo bastante meu gosto atual - principalmente com os três últimos da lista. Apenas um filme por diretor, em ordem de preferencia:

1. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Once Upon a Time in America, 1984), Sergio Leone
2. VIDEODROME (1983), David Cronenberg
3. UM TIRO NA NOITE (1981), Brian De Palma
4. O ENIGMA DE OUTRO MUNDO (The Thing), John Carpenter
5. AMANTES (1984), John Cassavetes
6. AGONIA E GLÓRIA (The Big Red One, 1980), Samuel Fuller
7. PORTAL DO PARAÍSO (Heaven's Gate, 1980), Michael Cimino
8. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985), William Friedkin
9. A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987), John Flynn
10. THE KILLER (Dip huet seung hung, 1989), John Woo

24.9.09

GIALLO (2009), de Dario Argento


Se fosse realizado nos anos 70, GIALLO não teria nada de especial, seria apenas um bom suspense policial em meio às tantas obras primas que o cinema italiano apresentou no período. Mas no contexto atual, o novo filme de Dario Argento é tudo aquilo que se espera da discreta proposta de retornar às origens de um gênero estuprado por jovens cineastas – americanos, na grande maioria – e que atualmente vem tentando se revitalizar com alguns bons exemplos aqui e ali. O filme continua não tendo muito de original, mas Argento consegue provar que é possível fazer um excelente trabalho, à moda antiga, sem a frescurada de montagens espertinhas ou efeitos especiais em CGI (como o próprio Argento havia errado a mão em A MÃE DAS LÁGRIMAS).

Apesar do nome, GIALLO não possui os elementos necessários para fazer parte do subgênero que o diretor ajudou a consolidar na Itália nos anos 70 e 80, e qualquer um com o mínimo de desconfiança sabe que é praticamente impossível fazer um legítimo giallo nos dias de hoje. Mas nem era essa a pretensão de Argento. Ele simplesmente dirige uma trama policial onde temos Adrien Brody encarnando um detetive à procura de um serial killer que seqüestra belas mulheres para desforrar seus traumas em cima delas. O "amarelo" do título (que em italiano é giallo) , se deve a uma peculiaridade do bandido. No elenco, ainda temos Emmanuelle Seigner vivendo a irmã de uma vítima do assassino e que resolve se meter no caso...

O filme serve também para provar que Argento permanece como um dos grandes nomes do horror e um artista único na condução e no controle de todos os elementos que tem em mãos, como a estética das cores, a movimentação da câmera desvencilhada, a mise en scène, a violência gráfica com direito à baldes de sangue, como nos velhos tempos de TENEBRE e PROFONDO ROSSO. O conteúdo pode ser simples (embora tenha boas sacadas com o passado do personagem de Brody), mas na forma Argento continua genial. Cada detalhe de cena, planos memoráveis (como a do final quando Brody se afasta do local do crime), a fotografia, tudo é valorizado ao máximo para trazer um novo frescor ao gênero e colocar o nome de Dario Argento de volta ao panteão, de onde nunca deveria ter saído. Uma pena que a distribuidora daqui fez o favor de nos poupar de ir ao cinema assistir a esta belíssima obra na tela grande.

23.9.09

TRÊS HOMENS, UMA LEI (Il bianco, il giallo, il nero, 1975), de Sergio Corbucci


Arrumei este aqui em VHS por 0,99 mangos numa locadora cuja promoção dizia o seguinte: “alugue e não devolva nunca mais!”. Então beleza! Acabei descobrindo depois que TRÊS HOMENS, UMA LEI é o mesmo filme lançado em DVD no Brasil pela Ocean Pictures com o título O ÚLTIMO SAMURAI DO OESTE.

Para quem não conhece nada sobre o filme, o básico do enredo trata de três personagens completamente diferentes que se unem em uma aventura em busca de um raro pônei japonês que fora sequestrado por um bando de malfeitores exigindo uma gorda quantia para o resgate.

Temos então o policial Black Jack Gideon, vivido pelo grande Eli Wallach, o eterno Tuco de TRÊS HOMENS EM CONFLITO, o bandido bonzinho na pele do astro do faroeste spaghetti Giuliano Gemma e Sakura, o assistente de um samurai que faz de tudo para honrar o nome de seu mestre tentando recuperar o pônei sequestrado. E quem encarna a figura é ninguém menos que o cubano Tomas Milian, de longe o melhor em cena, engraçadíssimo.

O filme não é dos melhores trabalhos do diretor Sergio Corbucci, autor de alguns spaghetti westerns de primeiríssima qualidade, como O VINGADOR SILÊNCIOSO e DJANGO, mas não deixa de ser uma pequena homenagem ao gênero, já bastante enfraquecido na época, além de ser divertido, com alta dose de humor e ótimas atuações do trio principal, que é, na verdade, o grande destaque de TRÊS HOMENS, UMA LEI.

MUDANÇA DE CASA

Depois de um feedback por aqui e na página do Dementia¹³ no facebook , resolvi tomar mesmo a decisão de fechar as portas por aqui e me muda...