14.3.09

O SANGUE DE ROMEU (Romeo is Bleeding, 1993), de Peter Medak

O SANGUE DE ROMEU talvez seja a homenagem mais porra-louca feita aos clássicos filmes policiais dos anos 40 e 50. Após uma rápida introdução mostrando Gary Oldman em algum lugar no deserto do Arizona, onde cuida de um posto a beira da estrada, somos levados há cinco anos atrás, se eu não estou enganado, para tomar conhecimento das circunstancias que levaram o sujeito àquele lugar. O próprio personagem se habilita em narrar a história, como um bom film noir tem que ser...

Oldman interpreta Jack Grimaldi, um policial que de vez em quando realiza alguns servicinhos sujos para a máfia. É um sujeito ambicioso e faz isso pra ter uma “graninha” extra, já que o salário de policial não dá conta de manter o nível que pretende dar para a esposa (Annabella Sciorra) e para a amante (Juliette Lewis, que agora virou roqueira). Tudo parecia dar certo, até que um dia conhece Mona (Lena Olin), membro da máfia russa e com contas para acertar com o mafioso Don Falcone, vivido pelo grande Roy Scheider.

O bicho pega porque Jack deveria fazer uma missão bastante simples, mas dá tudo errado. Mona desaparece, Falcone a quer morta e caso Jack não resolva isso em dois dias, vai ter que vestir o terno de madeira. Só que Mona é o diabo de saia! A mais diabólica das femme fatale’s de qualquer filme clássico não passa de um anjinho perto desta aqui. É a partir dela que a coisa toda começa a ficar bizarra, porra-louca total. A cena absurda do carro em que ela foge de Jack é o ponto crucial, a partir daí estamos em outro universo, mais doentio, barroco, violento...

Gary Oldman está perfeito. É incrível como ele incorpora cada personagem que interpreta de maneira expressivamente singular como é o caso do policial corrupto de O SANGUE DE ROMEU. Consegue transmitir toda a sensação de desespero surreal a partir da catarse como se a visão do narrador estivesse turva e perturbada ao narrar aquela história para nós, espectadores, que assistimos sob o seu ponto de vista. Mas é Lena Olen quem rouba a cena. É impossível descrever as capacidades físicas e psicológicas que a personagem se submete sem estragar a surpresa. É o cerne de todo o filme e que torna O SANGUE DE ROMEU único.

O elenco é bem legal: Além de Oldman, Olin, Sciorra, Lewis e Scheider (que está excelente como chefão mafioso) temos participações de Will Patton, James Cromwell, David Proval, Michael Wincott, Ron Perlman, Dennis Farina, alguns fazendo apenas uma ponta outros com uma participação maior como Wincott que é um desses atores subestimados que nunca teve uma boa chance de mostrar seu talento para o grande publico e aqui demonstra total segurança no que faz.

A direção do húngaro Peter Medak é muito boa, mas é daquelas que deixa seus atores brilharem, uma escolha acertada com um elenco desses e um roteiro em mãos muito bem escrito que faz jus ao estilo noir e ainda torna tudo mais interessante com as bizarrices da personagem de Lena Olin. O SANGUE DE ROMEU andou passando no canal fechado MGM, não sei se ainda vai passar, mas quem tiver a oportunidade não perca!

10.3.09

Ao longo de oito anos, John Carpenter sentou na cadeira de diretor apenas para realizar seus dois episódios da série Mestres do Horror: CIGARETTE BURNS e PRO-LIFE. Sua última produção para cinema foi o subestimado FANTASMAS DE MARTE em 2001. Parece que, finalmente, o sujeito vai voltar ao trabalho e nos últimos meses já foram anunciados quatro filmes para alegria dos fãs. Não sei até que ponto o diretor está tão determinado, mas se pelo menos dois destes filmes realmente ficarem prontos, eu já me dou por satisfeito.

THE WARD: provavelmente, será o primeiro a sair. Ainda está em fase de pré-produção, segundo o IMDB, e trata-se de uma história de fantasmas. THE WARD é uma produção independente e possui até atriz, Amber Heard, para viver uma personagem que é assombrada por fantasmas em uma instituição mental. E instituição mental + John Carpenter lembra À BEIRA DA LOUCURA, então pode ser que saia coisa boa daqui...

L.A. GOTHIC: Os responsáveis pelo roteiro de GIALLO, novo filme de Dario Argento, estão pegando firme neste aqui cuja trama apresenta cinco histórias que se interligam quando um ex-padre tenta proteger sua filha adolescente das forças sobrenaturais do lado obscuro na cidade de Los Angeles. A trama aparenta ser muito interessante e nas mãos do Carpinteiro deve render, mas nessa leva de filmes, L.A. GOTHIC foi o primeiro a ser anunciado e chegaram a confirmar que as filmagens aconteceriam em março do ano passado... será que sai?

THE PRINCE: John Carpenter dirigindo um filme de gangster é de matar uns dez guardas (como dizia minha avó)! Sem muitas informações, é de longe o mais curioso dos quatro filmes, principalmente depois da declaração do próprio roteirista dizendo que se trata de um filme “brutal, sombrio e violento até o final". Estamos na torcida para que saia do papel e ganhe a visão do velho Carpinteiro.

RIOT: Até pôster já saiu e com data prevista para este ano ainda. Mas no IMDB a previsão passou para 2011, não sei porquê. O roteiro envolve uma prisão, rebelião de presidiários, etc. E ainda temos Nicholas Cage vivendo um condenado à prisão perpétua que ajuda um jovem, participante de um programa de prevenção ao crime, durante a rebelião que se instaura no local. Se RIOT for metade que ASSALTO A 13º DP foi, já está bom demais!

9.3.09

VOU, MATO E VOLTO (Vado... L'ammazzo e Torno, 1967), de Enzo G. Castellari

Os títulos mais engraçados e inusitados da história do cinema pertencem ao faroeste italiano. VOU, MATO E VOLTO é um dos mais inspirados, uma pena que o filme não seja tanto, embora não deixe de ser um bom exemplar do gênero e vale como curiosidade, já que se trata de um dos primeiros filmes com a assinatura do diretor Enzo G. Castellari.

O inicio é excelente e abre com três sujeitos mal encarados adentrando uma pequena cidade – enquanto a população olha desconfiada através das janelas e cortinas. Do outro lado da cidade uma carroça carrega três caixões que segue na direção dos meliantes. Quando se encontram, um dos bandidos indaga sobre quem estariam naqueles caixões; um outro sujeito que vinha logo atrás da carroça responde justamente o nome dos vagabundos à sua frente e aí já tarde demais: o forasteiro é mais rápido e os três acabam comendo capim pela raiz.

Pena que o restante do filme não consegue manter a mesma intensidade da abertura, mas vale a pena continuar acompanhar a trama que prossegue agora num trem carregando 300 mil dólares em ouro. Monetero e sua gangue roubam o carregamento, mas um dos seus comparsas o trai e coloca o valioso metal num esconderijo e pouco tempo depois é assassinado antes de revelar o segredo. O único objeto que pode conduzir ao ouro é um medalhão.

A partir daqui, VOU, MATO E VOLTO se estabelece com certas semelhansas, ainda que superficiais, a TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone. Ora, temos três personagens, rivais entre si, em busca da fortuna. George Hilton é um caçador de recompensas, o mesmo que apaga os três do inicio, temos também Gilbert Roland vivendo o perigoso bandido Monetero e Edd Byrnes como um empregado do banco cuja responsabilidade era manter o dinheiro seguro durante a viagem no trem.

O medalhão acaba sendo cortado ao meio e ambas as partes são necessárias para encontrar o local secreto. Durante essa “jornada” muita coisa acontece e por conta de um roteiro muito mal escrito o filme acaba decaindo. O principal problema é o excesso de reviravoltas envolvendo traições sem sentido entre o trio principal. É tanta picaretagem que nem o espectador consegue definir pra quem torcer nesta busca pelo ouro. E ainda em certos momentos, o filme vira um verdadeiro pastelão, com um dos personagens dando piruetas no ar com canções de circo ao fundo.

Mas vamos falar das qualidades do filme também: o elenco até que é muito bom, principalmente o uruguaio George Hilton, que está muito carismático como o caçador de recompensas misterioso e é de longe o melhor do filme. Roland e Byrns também não deixam a desejar, principalmente o primeiro que possui um rosto bem expressivo, perfeito para o papel de vilão. A trilha sonora de Francesco De Masi não chega aos pés de um Morricone, mas é boa também, com exceção das musiquinhas de circo que aparecem nas cenas de pastelão totalmente desnecessárias.

Castellari ainda não havia desenvolvido seu estilo de dirigir seqüências de ação em câmera lenta vista em vários filmes ao longo de sua carreira como ASSALTO AO TREM BLINDADO, THE BRONX WARRIORS, KEOMA, etc. Mesmo assim, as cenas de tiroteio e de luta ajudam pra quebrar o marasmo das cenas irregulares do filme, filmadas bem ao estilo padrão do Western Spaghetti que Castellari aprendeu em seus estágios como diretor de segunda unidade em filmes de baixo orçamento no início dos anos 60.

8.3.09

WATCHMEN (2009), de Zack Snyder

Sinceramente não tenho do que me queixar de WATCHMEN. Acho que os críticos sérios reclamam demais e os fãs estão fazendo chiliques por pura oposição preconceituosa, já que consideram a obra infilmável. Problemas com o diretor eu até entendo, mas ainda bem que eu não tenho. Minha expectativa era discreta, mas bastante curiosa – e da fonte da qual beberam, é de se esperar no mínimo um bom filme. A grande sacada de Zack Snyder (e seus roteiristas) foi tentar ao máximo manter a lealdade do universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons respeitando a estória central (com uma pequena modificação no desfecho, mas nada muito gritante), as subtramas, estrutura narrativa, personagens, localização temporal, etc. Evidentemente muita coisa se perde, algumas passagens ganham mais espaço que outras, a ação é intensificada, mas o resultado não deixa de ser surpreendente.

Zack Snyder é desses que na maior parte do tempo pensa que está dirigindo um vídeo clipe e ainda possui a velha mania de exagerar no slow motion durante as cenas de ação. Felizmente, WATCHMEN não é um filme de ação e a força narrativa concentra-se na dramaticidade das situações vividas pelos personagens, heróis decadentes e humanos em uma realidade bem estranha. E Snyder, na medida do possível, até que manda bem como narrador. Pelo menos conseguiu me segurar tranquilamente em suas 2h e 40m de duração. Isso tudo levando em conta o visual fascinante muito semelhante ao das páginas dos quadrinhos, mesmo sendo a maioria criada por CGI (e não sou muito radical, sempre elogiei quando bem utilizado, como é o caso aqui); há também os personagens complexos e interessantes interpretados por um elenco que dá conta do recado, principalmente Jackie Earle Haley no papel de Rorschach, de longe o mais batuta, obscuro e revoltado do grupo, além de visualmente/psicologicamente idêntico ao original. A trilha sonora vai gerar uma discussão à parte. É uma das mais inusitadas para um filme do gênero e conta com uma compilação que vai de Simon & Garfunkel a Leonard Cohen. Eu achei sensacional a escolha das canções e maneira como foram inseridas na trama.

Embora tenha o probleminha da câmera lenta (que é um pouco mais contida em relação a 300), as cenas de lutas de uma forma geral são boas e sem os exageros afetados, filmadas de maneira simples, claras e violentas pra dedéu! Com direito a ossos quebrados, fraturas expostas e bastante sangue. Aliás, o filme possui uma essência extremamente violenta com momentos de gore que deixaria Lucio Fulci orgulhoso. WATCHMEN conta também com uma cena de sexo bem picante para o padrão de filmes de super-heróis, o que não é muito habitual. Admiro essa determinação do Snyder em abraçar uma obra e brigar com seja lá quem for para que o filme tenha a sua visão mesmo contendo elementos pouco rentáveis para os executivos de Hollywood – como nudez, sexo, violência gráfica, a longa duração, detalhes em relação à fidelidade da obra. A preocupação parece situar sempre na qualidade de seu filme (mesmo que ainda tenha muito que amadurecer). É um diretor no mínimo corajoso, na minha opinião, e o filme ganha muito com isso: WATCHMEN é uma das melhores e mais fiéis adaptações de HQ's.

7.3.09

GRITO DE HORROR (The Howling, 1981), de Joe Dante


Queria escrever sobre WATCHMEN, mas ainda não assisti. Adiei para hoje (sábado). Sei que tem muita gente que já meteu o pau sem assistir e que não gosta do Zack Snyder, etc. Até entendo o ponto de vista, mas eu estou curiosíssimo. Amanhã (domingo) saberemos as minhas impressões. Por enquanto, andei vendo este ótimo filme de lobisomem, dirigido pelo mestre Joe Dante, que havia se reunido mais uma vez com o roteirista de PIRANHAS, John Sayles, para entregar GRITO DE HORROR.

É um filme visionário no campo da licantropia. Até então, os lobisomens eram mostrados no cinema como homens um pouco mais peludos que o normal, com suas roupas rasgadas, os caninos mais afiados e as unhas pontudas. Dante e Sayles, juntamente com uma equipe técnica excelente, desenvolveram umas criaturas monstruosas e inovadoras que devem ter feito muito moleque pedir pra dormir no meio dos pais durante a noite (e ainda por cima assistiram escondidos, já que uma criança não deveria ver esse tipo de filme... brincadeira!).

É que o tema é trabalhado no roteiro de uma maneira bem moderna, inteligente, sensual, séria, com os elementos e a atmosfera do horror sendo mantidas ao longo de toda duração, diferente da abordagem de John Landis em UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, que foi rodado no mesmo ano e mistura comédia de humor negro na salada.

Na verdade, os dois filmes são tão diferentes que fazer comparações seria algo estúpido, a não ser é claro nos quesitos técnicos em que ambos são sensacionais, especialmente a transformação dos condenados em lobisomens. A do filme de Landis, feita por Ricky Baker é genial em todos os sentidos, mas a de GRITO DE HORROR, por Rob Bottin (de THE THING, do Carpenter), é muito mais sombria e assustadora, assim como o filme todo é, em comparação estúpida com o do Landis.

Baker até chegou a trabalhar em GRITO DE HORROR, mas quando Landis disse que iria fazer o seu, ele trocou de time. Mas foi bom pra mostrar que existiam outros mestres dos efeitos especiais à moda antiga tão competentes quanto o Baker. A cena em que mostra todos os detalhes da transformação do lobisomem, com aquela luz maravilhosa e expressionista sob os acordes de Pino Donaggio, é uma coisa linda e perturbadora! E a protagonista lá estática e assustada vendo aquilo tudo acontecer lentamente... por que diabos ela não saiu correndo?

É o tipo de pergunta que não se deve fazer e que guarda a essência de toda essa era do cinema de horror americano...

OBS 1: GRITOS DE HORROR tem um elenco bem legal composto de gente do calibre de John Carradine e Dick Miller em papéis especiais e algumas aparições que valem a pena procurar enquanto se assiste, como Forrest J. Ackerman, Roger Corman e o roteirista John Sayles.

OBS 2: Observação estúpida, mas eu particularmente prefiro UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES...

MUDANÇA DE CASA

Depois de um feedback por aqui e na página do Dementia¹³ no facebook , resolvi tomar mesmo a decisão de fechar as portas por aqui e me muda...