29.1.09

E DEUS DISSE A CAIM (1970), de Antonio Margheriti


Um Western Spaghetti estrelado pelo Klaus Kinski como este aqui é uma destas demonstrações fundamentais de toda razão de ser do cinema. Não que o filme em si seja uma obra prima absoluta, mas são pequenos detalhes, pequenas junções que formam o essencial. É praticamente impossível dar algo errado.

E DEUS DISSE A CAIM se resume basicamente numa trama de vingança. Kinski interpreta um sujeito que foi preso injustamente. Depois de 10 anos é liberto e parte para uma vingança pessoal em cima dos responsáveis pela desgraça toda. Kinski é todo o filme, mesmo dublado em italiano, o ator se manifesta com o olhar expressivo ou com a simples presença em cena como um fantasma da morte.

A direção é por conta de Antonio Margheriti (sob o pseudônimo de Anthony M. Dawson), um dos diretores mais versáteis desse período do cinema italiano (da década de 60 à 80). Trabalhou bastante com sci-fi e terror no início de carreira e praticamente terminou fazendo filmes de guerra e ação nas Filipinas. No meio do trajeto fez vários pepla (plural de peplum), westerns spaghetti, etc.

É interessante o projeto estético de E DEUS DISSE CAIM, pois Margheriti trata o filme da mesma maneira que realizaria um terror, utilizando-se dos elementos característicos e da atmosfera densa e escura, dando um tom singular, tão singular quanto seus filmes de horror gótico. É um verdadeiro dark-western, digamos assim, se é que precisa classificar alguma coisa. Mas fica a recomendação obrigatória aos fãs do gênero.

27.1.09

GOMORRA (2008), de Matteo Garrone

Finalmente assisti a este ótimo filme de Matteo Garrone, baseado no homônimo de Roberto Saviano. Trata-se de um filme que procura de alguma forma denunciar, analisar ou simplesmente mostrar o funcionamento de uma das organizações mafiosas mais perigosas do mundo, a “camorra”, que é algo um tanto complexo de se abordar tendo em vista a grande variedade de veias que funcionam dentro da organização.

Mas até que Garrone se sai muito bem, principalmente pelo tom realista, cru, sem trilha sonora nem o glamour de algumas fases dos filmes de gangsters americanos (sem desmerecer, obviamente, estas fases, que eu tanto adoro). Tudo gira em torno dos tentáculos da organização e o diretor tenta abocanhar um pouco de tudo. Optou por uma narrativa entrecortada por várias histórias e que gera um certo desequilíbrio no seu decorrer, pois alguns fragmentos não têm o peso de outros.

Coisinha boba de delimitação e quebra de ritmo, na verdade. As situações mais interessantes têm força suficiente para compensar a falta das outras. Num balanço geral, GOMORRA é desconcertante, sério e renova o vigor cinematográfico italiano sem precisar de manifestos, anacronismos ou se deslocar demais de todo resto.

26.1.09

Stallone e seus mercenários

Visual de Stallone para seu personagem em THE EXPENDABLES, filme cuja direção também é assinada por ele. Impressionante o físico do sujeito aos 62 anos! E essas tatuagens? Vai me dizer que o cara não tem estilo?

O filme ainda possui um dos elencos mais exóticos que eu já vi: além do Stallone temos Dolph Lundgren, Jason Statham, Randy Couture, Forest Whitaker, Jet Li, Mickey Rourke. Parece que a trama gira em torno de um grupo de mercenários que tem como objetivo derrubar um ditador aqui da América do Sul. Obra prima pintando por aí...

25.1.09

FROST/NIXON (2008), Ron Howard

Me pegou de surpresa. Não esperava um filme tão interessante vindo do Ron Howard. É... não sou lá um apreciador do cinema do cara. Aliás, o vejo simplesmente como mais um diretor sem personalidade alguma da Hollywood atual. Mas mandou muito bem em FROST/NIXON que rendeu indicações ao Oscar de melhor filme, diretor, ator, etc. Não acho isso tudo, mas já nem discuto mais os critérios e motivos dos quais o povo da Academia escolhe os filmes indicados. Destas, só a de ator para o Frank Langella é realmente merecida.

Mas como eu disse, o filme me surpreendeu. Deve ser porque eu esperava algo bem diferente do que vi. Pensei que seria um filme essencialmente focado na entrevista que David Frost realizou com o ex-presidente americano Richard Nixon. Mas não. O filme vai mais além e é muito dinâmico. O roteiro explora de maneira ficcional os bastidores da famosa entrevista explorando ambos os lados (entrevistador e entrevistado) em seus momentos antes, durante e depois do tal evento.

Ron Howard até consegue conduzir tudo num bom trabalho de direção econômica sem os excessos habituais. O grande ápice do filme acontece quando inicia o conflito psicológico e verbal entre os dois protagonistas – e que não ocorre somente na entrevista - com ótima edição, uma fotografia muito bem elaborada e um show de atuação da dupla de protagonistas. Há uma belíssima cena quando Nixon telefona para Frost, um dos momentos mais “fortes”, digamos assim, e que Langella destrói. O sujeito está um monstro em todos os momentos em que surge em cena. Uma coisa absurda. Desde os mínimos detalhes até as expressões faciais, Langella se transformou no Richard Nixon, mesmo não tendo aparência alguma com o ex-presidente americano. Gostei até mais que a atuação do Sean Penn em MILK...

Uma questão que eu achei curiosa em FROST/NIXON é a de trazer a tona, justamente agora, um presidente americano que fez umas “cagadas” durante o período que esteve no poder (não que outros não tenham feito). Mas faz uma boa alusão ao último presidente americano, não é mesmo?

23.1.09

Samuel Fuller - Parte I

MATEI JESSE JAMES (1949): Logo no seu filme de estréia, Sam Fuller dá uma pequena demonstração do que seria o seu cinema de conflitos psicológicos e humanista. Filmado em apenas dez dias, o ambiente aqui é o de um western, mas a preocupação não é com o lendário herói do oeste, nem com o perigoso vilão rápido no gatilho. Fuller desconstrói seu protagonista, coloca densidade em seus passos e entra na mente do homem que matou Jesse James covardemente com um tiro nas costas. A cena do bar onde um sujeito canta a famosa canção sobre o ocorrido pode ser considerada a primeira antologia do diretor. * * * *

O BARÃO DO ARIZONA (1950): Também filmado em pouco tempo (precisou somente de quinze dias), é provável que não seja dos melhores filmes de Fuller, cujo resultado é até um tanto raso em comparação ao seu filme anterior, embora não deixe de ser um grande filme, principalmente quando temos como protagonista ninguém menos que o excepcional Vincent Price em início de careira, antes de se tornar um ícone do terror. Sua presença é essencial na jornada de um homem que tenta enganar meio mundo para se apossar do Arizona com documentos falsos. * * *

CAPACETE DE AÇO (1951): Primeira obra prima do diretor. Um melancólico e seco estudo de caráter humano onde o cenário da guerra (no caso, a da Coréia, é o primeiro filme sobre o assunto) é apenas um motivo para que as personagens sejam cuidadosamente apresentadas, exploradas e desenvolvidas ao máximo para extrair toda tridimensionalidade. Na verdade, nem existe aqui uma história definida com início, meio e fim, mas sim uma jornada que leva a um templo budista onde se passa quase toda projeção, um lugar que transcende o ambiente de guerra e dá um tom onírico que transforma o filme num exercício visual de sonho. * * * * *

BAIONETAS CALADAS (1951): A construção de personagens não chega à mesma intensidade que seu filme anterior (foram rodados no mesmo ano), embora ainda seja bastante psicológico e a caverna onde os soldados se reúnem consegue transmitir um ambiente tão onírico quanto o templo budista de CAPACETE DE AÇO. Mas aqui é onde Fuller dá uma aula de composição, de espaço cinematográfico, de como orquestrar seqüências de batalha de maneira visceral, crua, gerando um clima tenso que estrutura toda a narrativa. * * * *

PARK ROW (1952): Antes de se tornar cineasta, Fuller trabalhou como jornalista e é interessante como ele dedicou toda a essência de sua profissão neste seu único filme sobre o tema. É um dos seus trabalhos mais sinceros e infelizmente, pouco conhecido. Tanto que todo dinheiro - que saiu dos bolsos do diretor - utilizado na produção foi perdido totalmente. Filmado em estúdio, em apenas 14 dias, o filme também funciona como uma genial aprendizagem de trabalho de câmera e mise-en-scène. * * * *

21.1.09

1990 - OS GUERREIROS DO BRONX (1982), de Enzo G. Castellari

A essa altura, acho que quase todo mundo sabe que certa parcela do cinema italiano no início dos anos 80 era formada por alguns dos principais picaretas da indústria cinematográfica mundial. Choviam filmes italianos que se aproveitavam do sucesso comercial de outra produção. MAD MAX, por exemplo, foi responsável por gerar uma penca de filmes pós-apocalípticos carcamanos. 1990 – OS GUERREIROS DO BRONX é um belo exemplar, embora não tenha nada a ver com o filme estrelado pelo Mel Gibson. Na verdade, é uma mixagem inspirada de FUGA DE NOVA YORK, de John Carpenter com THE WARRIORS, de Walter Hill.

A direção do grande Enzo G. Castellari é muito acima da média das imitações de baixo orçamento que surgiam aos montes na época, mas 1990 – OS GUERREIROS DO BRONX não ficou livre de alguns problemas que constantemente eram encontrados nestas específicas produções, como é o caso do roteiro fraquíssimo, bem cretino mesmo, cheio de buracos e diálogos pífios, além do personagem principal, supostamente o cabra durão do pedaço, interpretado pelo italiano Marco di Gregorio (aqui creditado como Mark Gregory), que não possui carisma algum e caminha como se estivesse com um caroço de milho enfiado no rabo. É lógico que o resultado acaba sendo mais divertido por esses elementos de humor involuntário do que pela proposta em si.

O filme ainda conta no elenco Vic Morrow (em seu último papel antes de morrer no set de THE TWILIGHT ZONE), Fred Williamson e George Eastman, só pra ficar entre os mais conhecidos. A trama é de uma estupidez deliciosa que nem vale a pena ficar gastando. Castellari conduz muito bem as cenas de ação com uma bela contagem de cadáveres e várias seqüências em câmera lenta bem ao estilo Sam Peckinpah. A cena em que Vic Morrow invade o esconderijo dos Riders (cujo lider é a figura que eu comentei no parágrafo anterior) distribuindo bala é um primor, fora a porradaria que come solta durante o filme, principalmente perto do final quando acontece um quebra pau entre Williamson e Eastman.

Mas a diversão continua também nas situações precárias da produção que rendem boas risadas. Um bom exemplo se encontra num dos principais argumentos da trama. No filme, o bairro do Bronx tornou-se uma terra sem lei e sem ordem comandada por diversas gangues, mas a produção não teve permissão de fechar as ruas do bairro para as filmagens, por isso é hilário notar no fundo os carros passeando e as pessoas andando normalmente nesta suposta "terra de ninguém", violenta, sem lei e ordem. Mas o que importa é a essência, não é mesmo?

20.1.09

Cronenberg em estrelinhas

Sem muito o que dizer, segue as cotações para a filmografia de um dos meus diretores favoritos:

SENHORES DO CRIME (Eastern Promisses, 2007) * * * *
MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence, 2005) * * * * *
SPIDER (2002) * * *
EXISTENZ (1999) * * *
CRASH (1996) * * * * *
M. BUTTERFLY (1993) * * * (precisando urgente de uma revisão)
NAKED LUNCH (1991) * * * * *
DEAD RINGERS (1988) * * * * *
A MOSCA (The Fly, 1986) * * * *
NA HORA DA ZONA MORTA (The Dead Zone, 1983) * * * *
VIDEODROME (1983) * * * * *
SCANNERS (1981) * * * *
THE BROOD (1979) * * * *
FAST COMPANY (1979) não vi
RABID (1977) * * *
CALAFRIOS (Shivers, 1975) * * *
CRIMES OF FUTURE (1970) não vi
STEREO (1969) não vi

MUDANÇA DE CASA

Depois de um feedback por aqui e na página do Dementia¹³ no facebook , resolvi tomar mesmo a decisão de fechar as portas por aqui e me muda...